Eu te proponho…

Estadão

08 de outubro de 2010 | 02h32

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Mário Viana pertence àquela classe de dramaturgos cujas obras são um desafio para quem tem de escrever suas sinopses. Dizer que a peça é sobre um grupo de amigos reunidos num bar decididos a listar escatologias de ‘a’ a ‘z’ ou que trata de uma família que tem uma conversa franca demais ao escolher as roupas do pai prestes a morrer não dá conta ­– nem de longe – de o que são Um Chopes, Dois Pastel e Uma Porção de Bobagem e Vestir o Pai.

Essa dificuldade pode ser, fundamentalmente, de dois tipos: pela incapacidade de traduzir o cerne destas encenações em uma breve descrição, ou pela indução a falsos juízos pré-concebidos. Vamos?, que cumpre uma concorrida temporada no Teatro Imprensa, sob direção de Otávio Martins, pertence a esta segunda categoria.

Quando se ouve que é uma peça em que uma personagem tenta levar a outra para a cama, e que a partir disso abrem-se discussões sobre sexo, amor e amizade, não se pode culpar quem esperaria mais uma comédia sobre relacionamentos construída a partir de clichês e estereótipos de toda sorte (“homens não gostam de pedir informação no trânsito” e “uma mulher se veste pensando em estar mais bonita que as outras” são apenas dois de muitos possíveis exemplos). Até estatisticamente, tendo em vista a profusão deste tipo de espetáculo, essa suspeita seria plausível. Ledo engano.

O fato de saber que há uma constante troca de sexos – A quer seduzir B; A e B são interpretados tanto por homens quanto por mulheres ao longo da peça – torna, seguramente, esta descrição mais interessante. E aí já estão alguns dos principais méritos desta montagem: este enredo, um achado de Viana, é engenhosamente construído pela direção de Martins. A surpresa inicial do público dá lugar a uma empatia que, explorada por um elenco com domínio do mecanismo dramatúrgico, chega a extrair humor da própria expectativa pelas trocas de atores.

O acerto do tom sente-se sobretudo na dupla que interpreta os sedutores, no clássico cafajeste de Dalton Vigh e no charme magnético de Rachel Ripani (o repórter assistiu à peça antes da troca de Tânia Khallil por Gabriela Durlo). Há em ambos uma elegância inteligente que emprestam ao texto. E aí talvez resida o grande mérito da peça (e de seu próprio teatro, de maneira geral) e a razão da citada dificuldade para se traduzir em uma sinopse: a construção de uma linguagem.

Vamos? é um feliz casamento (sem trocadilhos) entre um elenco afinado e um texto muito bem costurado. Se os atores conquistam com beleza e sex appeal, e a fórmula da direção encontra um feliz resultado, é o texto o grande sedutor do espetáculo; são as sacadas, as provocações, a cara-de-pau, a mordacidade – reflexo imediato de sua figura; Viana escrevendo, já disse Luiz Vita, é absolutamente igual a Viana falando – que ganham o público.

E é com a palavra que ele se insere na dramaturgia brasileira recente. Autor não de humor mas de humores (foi do escracho total à pompa de uma cantata, passando pelo teatro infantil), Viana possui um estilo de imaginar cenas e um tempo de comédia em grande medida cinematográficos, referência natural em um cinéfilo inveterado. Em constante produção, é um cronista de seu tempo, com obras de alma de ares libertários, ainda que sua militância no teatro passe longe da política, da dialética e da luta de classes. Seus alvos preferidos são a caretice, o preconceito, a sisudez e o mau humor.

Teatro Imprensa. R. Jaceguai, 400, Bela Vista, 3241-4203. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 40/R$ 50. Até 28/11.

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