Diante da dor dos outros

Estadão

14 de outubro de 2010 | 15h11

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O texto do programa enunciava o que seja talvez o mistério fundador por trás de Roberto Zucco, a última peça escrita pelo dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès, em 1988. O que moveria um criador tão confessamente apaixonado pela vida a escrever sobre um serial killer? Koltès morreria pouco depois de terminar o texto. Escreveu-o já severamente doente — um homem, atando as pontas da vida, no confronto com sua própria finitude.

Roberto Succo, o homem, nasceu em Veneza em 1962. Seus primeiros assassinatos conhecidos aconteceram em 1981: a mãe, o pai e um policial. Quando preso, foi sentenciado a dez anos em uma prisão psiquiátrica. Com metade da pena cumprida, fugiu de maneira espetacular e espalhou uma onda de medo na França, Itália e Suíça. Sua perseguição e captura causaram comoção internacional.

De saída, já deve-se louvar a companhia Os Satyros, mais uma vez sob o comando de Rodolfo Garcia Vazquez, pela escolha do texto. Denso e amargo, Roberto Zucco constrói-se a partir da lógica mitológica do herói. Somos testemunhas do mecanismo trágico que, uma vez acionado — e este gatilho nos precede –, engole com voragem tudo o que encontra pelo caminho. Aquele herói que voa pelos telhados perde-se em sua queda essencial, rumo a um inferno indistinto de mortes e sangue.

A concepção de Vazquez, com as arquibancadas móveis a determinar mundos e óticas (a lembrar o Otelo do Folias), é esteio para aquela capacidade quase mágica do teatro de transformar os espaços naquilo que queremos ver. O grupo obteve o feito de transitar por um texto essencialmente aberto, elíptico, valorizando justamente estas ‘brechas’. De dentro das multidões atônitas seduzidas por aquele universo de morte, violência e heroísmo, pouco temos de passivos enquanto espectadores. Não há neutralidade, e a própria inação é uma forma de discurso.

E assim Zucco, em uma ótima interpretação de Robson Catalunha (que de destaca pelo protagonismo em meio a um elenco em geral preciso e afinado com o espírito do texto e da encenação), exerce um mórbido fascínio. Zucco não é um anti-herói com uma causa, um justiceiro, um transgressor. Fruto de suas circunstâncias, é movido por forças que em muito o transcendem; em seu ímpeto esta um flagrante deseajuste com aquela vida, aquele mundo que o cerca.

Roberto Zucco firma-se, talvez, como o maior acerto d’Os Satyros desde A Vida na Praça Roosevelt. Se o grupo debruçou-se sobre as mais intrínsecas raízes, o fez com olhos para um futuro. Um futuro de discurso, de formas narrativas, de posicionamento enquanto artistas. Faltassem-lhe outros grandes méritos, a montagem já valeria por revelar um ator poderoso e pleno de recursos na figura de Robson Catalunha. Mas a peça é muito mais do que isso, e precisa ser vista. É uma montagem necessária.

Espaço dos Satyros Um (40 lug.). Pça. Franklin Roosevelt, 214, Consolação, 3258-6345. 100 min. 16 anos. 6ª e sáb., 21h30; dom., 18h30. R$ 30. Até dezembro.

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