Desejo e mentira

Estadão

21 de setembro de 2010 | 16h48

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Um psiquiatra invade o consultório de outro, num rompante de urgência. A trama logo se instaura: o paciente de um deles está em vias de assassinar a esposa — que é paciente do colega. A história, então, vai sendo construída em dois planos, alternando a tensa discussão entre os dois doutores e as sessões com os pacientes.

Criminal, texto de Javier Daulte em cartaz no Sesc Pinheiros sob direção de Pedro Granato, ancora-se sobre uma mistura de gêneros. Flerta com um cinema policial, enquanto mergulha num melodrama de natureza incorrigivelmente latina. A montagem dialoga com o texto em um registro de ironia mordaz, encontrando um tom humorístico na ambivalência entre o absurdo da situação e a naturalidade com que esse desajuste é apresentado.

O crítico argentino Osvaldo Pellettieri, no prefácio à obra da coleção ‘Los Fundamentales Del Teatro Argentino’ (Buenos Aires, Ediciones Corregidor, 2006), enxerga no desejo a força que conduz o curso inevitável da tragédia: “o motor da ação é o desejo que determina as ações dos personagens. Mas aqui o desejo aparece despojado do sentimental e representado em seus aspectos puramente negativos”.

Ao desnudar as paredes do consultório, Daulte lança luz sobre o emaranhado de verdades e mentiras que se confundem no rolo compressor deste desejo, que esmaga impiedosamente princípios, valores e sentimentos. O jogo entre o real e a aparência — reforçado na concepção espelho/luz concebida por Granato, em que conceitos caros à psicanálise, como a ‘transferência’, ganham uma natureza cênica concreta — desemboca no que Pelletieri define como relativismo, em que a dúvida ganha relevo.

Criminal é um texto que certamente padece de um deslocamento cultural; a relação e o espaço ocupado pela psicanálise no imaginário portenho são diferentes dos modos da cultura brasileira. Se ele atinge de frente uma plateia em Buenos Aires, sua recepção por aqui vem um tanto quanto enviesada, talvez por um prisma de fetichismo de autoajuda próprio da classe média (mesmo ‘objeto’ original do texto de Daulte). A busca desenfreada pelo ‘autoconhecimento’, que namora com toda sorte de filosofias mais ou menos orientais, forja certos contornos do universo cultural coletivo em que a recepção está imersa.

O espetáculo ainda transparece certa rigidez de fluxo, natural em espetáculos nascentes pautados por uma deferência respeitosa para com textos de meticulosa costura, que tende a se esmaecer com o decorrer do tempo em cartaz. Mas o acerto do tom e a engenhosa concepção valorizam e trabalham a favor das camadas do texto, que, afinal, não poderia ser mais argentino.

Sesc Pinheiros. Auditório (101 lug.). R. Paes Leme, 195, 3095-9400. 6ª e sáb., 21h30. R$ 20. Até 2/10.

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