Cemitério vivo

Estadão

06 de setembro de 2010 | 15h13

urtigão

Corria o ano de 1996 quando uma companhia paranaense aportou no CCSP com o espetáculo ‘Leila Baby’. Os 14 anos que separam aquela estreia da 5ª Mostra de Teatro Cemitério de Automóveis, que começou 6ª (3) no mesmo local, parecem pouco para o tanto realizado pela trupe.

A mudança para São Paulo foi fundamental para que o dramaturgo, ator e diretor e músico londrinense Mário Bortolotto se firmasse como um dos principais autores do teatro brasileiro recente. Sua dramaturgia, repleta de personagens de alguma forma à margem do sistema, é associada com frequência à de Plínio Marcos. Esta é uma leitura apressada. Plínio falava de excluídos, pessoas que lutam sem sucesso para entrar no sistema. Os personagens de Bortolotto são ‘outsiders’, gente que não quer se integrar à ‘vida normal’ de classe média padrão.

Esse desajuste não se limita à temática das peças do Cemitério de Automóveis, mas tem a ver também com sua postura como grupo e com um modo ‘artesanal’ de produção. Não estranhe se o próprio Bortolotto estiver vendendo seus livros após as peças. Os 10 textos que integram a programação, a propósito, foram escolhidos por ele. “São textos que têm a ver com esse meu momento, mais melancólicos, amargurados”, explica.

Essa melancolia é a ligação mais visível entre as obras, que fazem um arco de quase 30 anos: ‘À Meia-Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça’ foi escrita em 1983. Nesta semana, é possível assistir a ‘O Herói Devolvido’ (8 e 9), ‘Efeito Urtigão’ (na foto; 10) e ‘Postcards de Atacama’ (11 e 12). Até o dia 17 de outubro, é possível ver alguns dos mais felizes acertos da companhia, como ‘Kerouac’, ‘O Natimorto’ e ‘A Frente Fria que a Chuva Traz’. Não deixa de haver certa poesia no fato de a mostra acontecer no CCSP, a primeira casa deste ‘cidadão honorário’ de São Paulo.

5ª Mostra de Teatro Cemitério de Automóveis. CCSP. Sala Jardel Filho (324 lug.). R. Vergueiro, 1.000, 3397-4002. 4ª a sáb. 21h; dom., 20h. R$ 10 por peça. Até 17/10.

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