Amor de palco

Estadão

07 de fevereiro de 2011 | 11h35

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GUGA MELGAR/DIV.

Quando Sérgio Britto e Suely Franco engalfinham-se em embates de espezinhamento mútuo, daqueles que só acontecem após algumas décadas de convivência sob o mesmo teto, fica-se com a sensação de estar contemplando algo belo e raro. É uma ambivalência essencial: o pleno domínio de um ofício de natureza pública cria a impressão de compartilhar uma intimidade, por sua vez privada. Coisa de grandes atores.
 
Aí está o mérito de Recordar é Viver, que cumpre temporada no Teatro Anchieta do Sesc Consolação até o fim do mês. O termo “tragicomédia” talvez seja o menos inadequado para tentar defini-la, ainda que possa sugerir muitos equívocos. Isso pode ser efeito do desequilíbrio que marca a peça, que tem seus bons momentos na comédia, enquanto perde a potência nas incursões mais dramáticas do enredo.
 
O charme do espetáculo está justamente na elétrica união entre Suely e Sérgio, que interpretam os pais da família em crise que a peça acompanha. O teatro parece fazer isso com os que se entregam a ele de corpo e alma pela vida. Os dois se conhecem há tanto tempo, viveram tantos personagens juntos, que parece que algo diferente se instaura entre eles. É como se carregassem em si todos aqueles cenários, figurinos e falas, tantos mundos de tantas épocas.

Costuma-se dizer que atores com esse talento para o riso têm “tempo de comédia”. Suely Franco não tem tempo de comédia; ela personifica a própria comédia. Sérgio Britto, por sua vez, encanta pela simplicidade. Parece ter a tranquilidade de uma montanha.
 
Se o elenco não encontra o brilho habitual das direções de Eduardo Tolentino de Araújo, empresta cores honestas a personagens que, afinal, não dão subsídios para muitos matizes. O texto de Hélio Sussekind é o elo fraco da corrente dos elementos do espetáculo, limitando maiores ambições. Mas isso não importa. Recordar é Viver nos dá a chance de ver dois grandes atores que, juntos, são melhores ainda.
 
A noite de estreia reservou-lhes um aplauso caloroso e apaixonado. Ao louvar Suely e Sérgio, paixão de vida inteira dedicada aos palcos, a plateia do Sesc aplaudiu o próprio Teatro.

Sesc Consolação. Teatro Anchieta (320 lug.). R. Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6ª e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 32. Até 27/2.

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