A vida inteira que poderia ter sido — e é

Estadão

24 de maio de 2010 | 17h25

“O grande inconveniente da vida real e o que a torna insuportável ao homem superior é que, se se transpuserem para ela os princípios do ideal, as qualidades transformam-se em defeitos, de tal modo que, muito frequentemente, o homem íntegro obtém menos sucesso que aquele que se motiva pelo egoísmo e pela rotina vulgar.”

A frase de Ernest Renan, extraída por Lima Barreto do volume Marco Aurélio para tornar-se epígrafe do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, é um farol que ilumina mais aspectos do que se poderia supor inicialmente.

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Derradeira parte da trilogia em homenagem ao Rio de Janeiro construída pelo diretor Antunes Filho à frente do CPT ­ – precedida por A Falecida Vapt-Vupt, a partir de Nelson Rodrigues, e o musical Lamartine Babo –, a peça Policarpo Quaresma, em cartaz no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, ancora-se sobre um aparente paradoxo essencial.

A escolha pela obra-prima de Barreto, uma ideia que Antunes já carregava há algum tempo, denota um profundo e sólido descontentamento com o estado de coisas. Não há nenhum rastilho de inocência em dar voz ao major Policarpo ­– um personagem que, para o diretor, está no mais alto panteão da literatura brasileira, ladeado por gente como Quaderna e Riobaldo.

“Ao ficcionalizar as origens da República brasileira, o romance de Lima Barreto estabeleceria alguns padrões definitivos para o debate social por meio da arte”, escreveu o crítico Ivan Teixeira. Editado pela primeira vez em 1915, o livro surgiu como uma voz firme denunciando o pacto sociopolítico que tecia o grito republicano. Se, para todos os efeitos, as práticas políticas assumiam novas configurações, os círculos de poder prosseguiam absolutamente comprometidos com os interesses das mesmas velhas oligarquias.

Isso evidencia não um caráter atual do livro, mas sim atemporal. A indignação do major Policarpo encontrará eco enquanto a “inconveniente vida real” de Renan for marcada por um largo hiato entre o que as coisas são e o que poderiam ser. É nesta não-concessão para com aqueles que sufocam nossos heróis que se funda o compromisso ético de Antunes.

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O aparente paradoxo se faz quando toda esta história é apresentada com o habitual esplendor cênico que emerge de seus trabalhos. Policarpo pulsa em um ritmo vibrante, profundamente musical, um burilado artesanato que representa o teatro de Antunes Filho em seu estado mais puro.

É não menos que um privilégio poder ver um genial criador fazendo um passeio por seus 80 anos de vida. As deliberadas e bem trabalhadas autorreferências fazem deste Policarpo uma síntese da carreira de um diretor que rompeu tantas barreiras em suas proposições estéticas. Está tudo lá, capitaneado por um Policarpo de carne, osso e sangue vivido por Lee Thalor, que sublinha outra vocação de Antunes: um olhar sensível para transformar grandes atores. Destacar sua atuação, ainda que primorosa, chega a ser quase uma injustiça, em uma montagem cuja força nasce de um muito bem orquestrado trabalho de conjunto.

Se o começo dos anos 2000 marcou um mergulho do CPT nos clássicos ­– com espetáculos como Fragmentos Troianos, Medéia e Antígona –, essa trilogia de alguma forma representa a entrega de Antunes a seus “clássicos afetivos”, uma homenagem não só à cidade do Rio de Janeiro, mas a uma época e a um grupo de amigos fundamentais em sua vida e obra. Uma generosa reverência a mestres como Ziembinski, Décio de Almeida Prado e Cacilda Becker.

Por fim, a escolha de Policarpo Quaresma para este grande balanço subjetivo que é o espetáculo guarda outra curiosa peculiaridade entrelaçada com a vida de Antunes. Se a peça que o firmou como diretor, em 1978, foi Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, um círculo se amarra com a montagem deste Policarpo, o herói de caráter total, como certa vez apontou o ator Paulo José, que viveu ambos no cinema.

Nossos heróis são, afinal, mais do que nunca necessários.

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