A ferrugem nunca dorme

Estadão

23 de setembro de 2010 | 12h10

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A transgressão é uma característica essencial de qualquer manifestação artística que reivindique um compromisso com uma postura libertária, crítica e posicionada em relação ao mundo em sua volta. Reflexo de inquietações, descontentamentos e recusas, certas obras filiam-se a uma tradição de liberdade e afirmação do indivíduo, tanto em sua dimensão individual como coletiva.

As Três Velhas, em montagem da cia. Teatro Pândega que segue em cartaz até o fim de outubro no Centro Cultural Banco do Brasil, é como uma daquelas pinturas que encerram certo mistério, revelando-se lentamente ao olhar. Não por nenhuma profusão de elementos, complexidade narrativa ou engenhosidade cênica, mas por seu lirismo de alma grotesca e melodramática.

A referência às artes plásticas não é meramente ilustrativa. A concepção visual da diretora Maria Alice Vergueiro – que divide o palco com Pascoal da Conceição e Luciano Chirolli – desenha com melancólica beleza o universo daquela decrépita mansão, cujos extenuados tapetes exalam decadência e morte. A absoluta austeridade cenográfica diz tanto sobre a pobreza quatrocentona da família quanto sobre a vocação do espetáculo para um olhar prenhe de imaginação, sustentado por um trio de interpretações iluminadas e impecáveis.

Ao construir esta fábula às avessas em que tudo rui, Alejandro Jodorowsky delineou suas personagens com traços expressionistas, ecoando aquelas existências tristes e patéticas, refugiando-se por trás de uma teia de aparências caricatas. Há uma constante tensão entre as duas irmãs e a criada, e há uma constante tensão entre atores e espectadores, fruto do perene estranhamento suscitado pela encenação.

Seja na rigorosa economia de recursos em determinadas cenas, seja na irônica caricatura impressa no emprego dos objetos, a encenação de Maria Alice é um constante convite à capacidade do teatro de nos fazer enxergar o tal essencial que é invisível aos olhos. E assim aquelas três velhas desmontam o pensamento por si mesmo: será que, afinal, nós vemos aquilo que queremos ver?

Talvez, para o bem e para o mal. Jodorowsky é implacável e não poupa as vítimas: seu retrato é irascível, intestinal, escatológico. O sexo aparece como natureza bestial, primitiva, essencialmente violenta. Mas ele é um daqueles criadores que conseguem aliar uma firmeza irredutível com uma poesia de profundo e raro lirismo. Certas passagens carregam uma melancólica e dolorida beleza.

Há um latente senso de humor, em um registro constante ao longo do espetáculo, que se revela deliciosamente surpreendente quando a redoma que confina e concentra a estrutura dramática se estilhaça. Rompida a ilusão, o que sobra? O mundo em que o que impera é o mercado, reinando absoluto em meio ao colapso das instituições, em que a posse, a aparência e o consumo prevalecem sobre todas as coisas.

Maria Alice, Pascoal e Chirolli são figuras de outro tempo. Ou, melhor, de outros tempos. Se o despudor e a comovente honestidade com que se atiram deita raízes há algumas gerações, quando o desbunde era a tradução da reivindicação de liberdade ética e estética, o colorido de seu pensamento e a paixão com que se dedicam ao exercício do ofício parecem vir é de algum tempo que está por vir, quem sabe então livres de amarras ainda tão fortes nos dias atuais.

CCBB. Teatro (125 lug.). R. Álvares Penteado, 112, 3113-3651, metrô Sé/metrô São Bento. 6ª e sáb., 19h30; dom., 19h. R$ 15. Até 31/10.

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