A (boa) cena curitibana

Beth Néspoli

24 de março de 2010 | 15h48

Hoje vou ver Psicose 4h48 no Fringe. Vai ser difícil conciliar horário (o espetáculo termina apenas 14 minutos antes da peça da mostra oficial), mas não quero deixar de ver a atriz Rosana Stavis interpretar o texto de Sarah Kane. Eu a vi pela primeira vez em Árvores Abatidas, ano passado, aqui mesmo no festival. Ela atuava na casa de seu marido, o diretor Marcos Damaceno, em uma sala de estar transformada em espaço cênico. Escrevi sobre ela em um texto no blog do festival, ano passado. Não a conhecia e fiquei impressionada com o seu talento. Depois me dei conta que ela já tinha longa trajetória na cidade.

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Rosana Stavis, em cena da peça Psicose 4h48, na Casa do Damaceno

Incrível a estrutura deste festival. Vi Os Leões da Cia. Armadilha, em 2007, que era uma montagem de alta sofisticação em que forma e conteúdo são indissociáveis, um só signo. O espetáculo depois foi para São Paulo, Bahia e outros Estados. A cidade de Curitiba tem o diretor Edson Bueno, de carreira reconhecida, que, mais uma vez, faz uma boa montagem no Fringe, A Vida como Ela – É Nelson Rodrigues, costura de algumas crônicas da série A Vida Como Ela É. Há ainda a Cia. Brasileira, dirigida pelo Márcio Abreu, cujo repertório de espetáculos igualmente premiados já percorreu festivais pelo País. E há Rosana Stavis, que faz parte de uma outra equipe de criadores talentosos daqui.

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Nova montagem de Edson Bueno, A Vida como Ela – É Nelson Rodrigues

Sendo assim, por que não abrir um espaço especial para as boas criações de Curitiba? Não há curadoria no Fringe, todos os que quiserem se inscrever são aceitos. O resultado é uma programação  inchada, o que causa problemas nos espaços compartilhados em excesso. O blog de Edson Bueno relata um deles, que envolveu até a polícia. Perde o público, obrigado a fazer escolhas num leque amplo demais com qualidade de menos, perdem os artistas locais, que poderiam aproveitar o festival para ampliar a interlocução crítica. São 173 espetáculos de Curitiba no festival. Muitos são apresentados na mostra todos os anos, e só por ocasião do festival, não ficam em cartaz na cidade durante o resto do ano. Soa oportunismo para atrair o espectador incauto da mostra. E alguns, já conferidos, não passam disso. Por que não evitar esse inchaço? Perguntei isto, mais de uma vez por sinal, ao diretor do festival, Leandro Knopfholz. A resposta é sempre a mesma, baseada na convicção de que é bom para o teatro que se abra o leque, que tudo seja aceito, que a mostra seja democrática, cabendo ao espectador a escolha, que pode ser diferente da feita por curadores ou críticos. “O Fringe é democrático, não posso barrar a entrada de nenhum profissional. O espetáculo que um crítico não gosta, o público pode adorar.” E ficamos assim.