‘Year of the Cat’, o pulo do gato de Al Stewart.

‘Year of the Cat’, o pulo do gato de Al Stewart.

Há 40 anos, o cantor e compositor escocês Al Stewart compunha a música que até hoje marca sua longa carreira. "Year of the Cat" nasceu como um esboço em 1966, baseada nas desventuras do comediante britânico Tony Hancock, que se matou em 1968. Ancorada em um "riff" de piano criado por Peter Wood, a música atravessa o tempo e se mantém atual.

Carlos de Oliveira

02 de junho de 2015 | 17h31

De tempos em tempos certas músicas  ultrapassam os limites rígidos de suas letras e melodias e se transformam em hinos de uma geração ou em marcos de uma determinada época, permanecendo, depois, atuais para sempre. Foi e é assim com Like a Rolling Stone, de Bob Dylan; Satisfaction, dos Rolling Stones; A Whiter Shade of Pale, do Procol Harum; All You Need is Love e Strawberry Fields Forever, dos Beatles e My Sweet Lord, de George Harrison.

O álbum

O álbum “Year of the Cat”, de Al Stewart, lançado em julho de 1976. A música que dá nome ao disco foi composta um ano antes.

Há uma outra canção, composta em 1975 pelo escocês Al Stewart, que tem esses mesmos predicados. Trata-se da hoje quarentona Year of the Cat, uma espécie de manifesto pós-lisérgico, mas ainda com um pé no onírico e outro no místico. Stewart foi de extrema felicidade ao desenvolver um genial riff de piano criado por Peter Wood, capaz de identificar a canção logo em suas primeiras notas. Há exatos 40 anos, Stewart e sua banda excursionavam pelos Estados Unidos, quando a linha de piano foi criada.

Ouça Year of the Cat, ao vivo, em programa da TV britânica, levado ao ar em 1976:

Desventura – Stewart tinha o esboço de uma letra composta em 1966, intitulada Foot of the Stage, baseada nas desventuras do comediante britânico Tony Hancock. Nesse mesmo ano, sofrendo de forte depressão, Hancock fez uma apresentação desastrada na cidade inglesa de Bournemouth. Ciente do fracasso do espetáculo, o comediante foi até a frente do palco e abriu sua alma: “‘Eu não quero estar aqui. Eu estou totalmente contrariado com a minha vida. Sou um completo perdedor. Isto tudo é estúpido e eu não sei por que eu não paro com tudo aqui e agora”.

O público vibrou e aplaudiu muito o comediante. Ocorre que tudo aquilo era real, era verdade. Longe de estar dizendo um texto, de estar representando, Hancock estava falando sério. Matou-se dois anos depois na Austrália. Com base nesse episódio, Stewart compôs o embrião de Year of the Cat, que só tomou sua forma final anos depois, graças a uma namorada que tinha um livro sobre horóscopo chinês.

Zodíaco – O Ano do Gato, na verdade, faz parte do zodíaco vietnamita e é seu décimo-segundo signo. Corresponde ao Ano da Lebre no zodíaco chinês e ocorre a cada 12 anos. O último Ano do Gato aconteceu em 2011. Por coincidência, 1975, ano de sua composição, foi Ano do Gato.

Year of the Cat é longa. No álbum de mesmo nome, lançado em julho de 1976 na Grã-Bretanha e três meses depois nos Estados Unidos, ela tem seis minutos e quarenta segundos. Uma versão mais curta foi lançada em single, com quatro minutos e 48 segundos. Mas nada como a versão integral, com um arranjo soberbo com piano, violão acústico, guitarra elétrica, bateria, baixo, sintetizador, cellos, violinos e saxofone, além da voz, é claro.

Ouça a mesma Year of the Cat, quarenta anos depois, com apresentação de Al Stewart no último dia 16 de maio, no Royal Albert Hall, em Londres, com leve mudança no arranjo:

Patchuli – O álbum foi gravado nos estúdios de Abbey Road, em Londres, e produzido por Alan Parsons, que dois anos antes produzira The Dark Side of the Moon, icônica obra do Pink Floyd. Com influência do filme Casablanca (que Stewart tinha revisto dias antes) , Year of the Cat  cita os atores Humphrey Bogart e Peter Lorre. A letra conta a história de um certo turista que, num certo mercado de um país cujos habitantes voltam no tempo, encontra uma certa mulher misteriosa vestida de seda e cheirando a patchuli. Ela o toma pela mão e ambos partem para uma aventura de amor. Na manhã seguinte, o turista se vê sozinho, perde seu ônibus e seu tíquete, ficando, não se sabe até quando, no Ano do Gato. O turista ficou, mas a música continua atual.