Woodstock, o último suspiro do sonho.

Woodstock, o último suspiro do sonho.

Os dias 15, 16, 17 e 18 de agosto têm um significado especial para uma geração que acreditou que a paz e o amor seriam suficientes para a construção de um mundo melhor. Estavam enganados. Mas, pelo menos durante os dias em que estiveram no Festival de Woodstock, em 1969, de alguma forma, viveram esse sonho. Pena que ele durou pouco. Acabou. Os gritos da guitarra de Jimi Hendrix anunciaram os anos 70 e nada mais foi como antes.

Carlos de Oliveira

13 de agosto de 2015 | 10h09

Houve um tempo, um curto espaço de tempo, em que o mundo, ou uma pequena parte dele, era feito de paz e amor. Supunha-se, pelo menos. Foi um tempo de sonhos, de sociedade alternativa, da contracultura, hippies, cabelos longos, poucos banhos, colares de contas coloridas, rock e abertura de portas da percepção (um maroto eufemismo para experimentar  drogas). Tempos de utopias.

O festival reuniu mais de meio milhão de pessoas em agosto de 1969. Foram três dias de paz, amor e música.

O festival reuniu mais de meio milhão de pessoas em agosto de 1969. Foram três dias de paz, amor e música.

Se algo, algum evento, pôde aglutinar todos esses elementos, resumir seus propósitos, esse algo foi o festival de Woodstock, realizado entre os dia 15 e 18 de agosto de 1969, numa fazenda situada em Bethel, no estado de Nova York, pertinho da casa de Bob Dylan, que, a bem da verdade, odiou a ideia. Eles não queria aqueles hippies todos acampados por perto.

Meio milhão – Independentemente da vontade de Dylan, o festival aconteceu e reuniu, segundo os organizadores Michael Lang, John P. Roberts, Joel Rosenman e Artie Kornfeld, mais de meio milhão de pessoas. Era para ser um negócio. Era para dar lucro. Fracassou como empreendimento comercial, mas entrou na história como símbolo de uma geração, de uma certa estética, ou, como sustentam alguns, até de uma certa ética. Que seja. Così è se vi pare/Assim é se lhe parece, já havia escrito Pirandello.

Os ingressos para Woodstock: US$ 6 para cada dia, US$ 18 no total.

Os ingressos para Woodstock: US$ 6 para cada dia, US$ 18 no total.

Hippies e outras tribos lotaram as estradas que levavam a Bethel, no estado de Nova York.

Hippies e outras tribos lotaram as estradas que levavam a Bethel, no estado de Nova York.

“Calamidade” – Até venderam ingressos. Cerca de 180 mil. Os preços eram meio salgados para a época: US$ 18 (cerca de US$ 115 hoje), se comprados em lojas de discos ou via correio, e US$ 24 (cerca de US$ 150 hoje), se comprados na hora, na própria fazenda. Não eram esperadas mais do que 200 mil pessoas. Mas uma imensa multidão se dirigiu a Bethel, congestionando estradas e obrigando as autoridades locais a decretarem uma espécie de estado de calamidade. Barreiras foram derrubadas e o espaço do festival, invadido. Woodstock tornou-se um espetáculo mais ou menos gratuito.

Conhecido como os “três dias de música, paz e amor”, Woodstock, de certa forma, honrou a definição, apesar de duas mortes (uma por overdose de heroína e outra por um atropelamento provocado por um trator) e, ao final, de um literal cenário de terra arrasada. Houve dois partos e quatro abortos.

Quem e quanto – O grande encontro reuniu 31 atrações musicais e ninguém tocou de graça. O artista mais bem pago foi Jimi Hendrix, que recebeu US$ 18 mil. O pagamento mais modesto, de US$ 375, foi feito à banda Quill, de Boston, que tocou quatro músicas durante 40 minutos. A qualidade musical do festival foi das melhores. 

Crosby, Stills, Nash & Young

Crosby, Stills, Nash & Young.

Os ingleses do The Who.

Os ingleses do The Who.

Janis Joplin.

Janis Joplin.

A programação e quanto cada um ganhou para tocar. À época e em valores atualizados (em US$):

 

Sexta-feira, 15 de agosto

 

Richie Havens – 6 mil / 38 mil.

Sweetwater – 1.250 / 8 mil.

The Incredible String Band – 2.250 / 14 mil.
Bert Sommer –  não disponível.
Tim Hardin – 2 mil / 12.700.
Ravi Shankar – 4,5 mil / 28,5 mil.
Melanie – 750 / 5 mil.
Arlo Guthrie – 5 mil / 32 mil.
Joan Baez – 10 mil / 63 mil.

Sábado, 16 de agosto

 

Quill – 375 / 2,4 mil.

Keef Hartley Band – 500 / 3,1 mil.

John Sebastian – 1 mil / 6,3 mil.

Santana – 750 / 5 mil.

Canned Heat – 6,5 mil / 41 mil.

Mountain – 2 mil / 12,7 mil.

Grateful Dead – 2,5 mil / 16 mil.

Creedence Clearwater Revival – 10 mil / 63 mil.

Janis Joplin – 7,5 mil / 48 mil.

Sly & the Family Stone – 7 mil / 45 mil.

The Who – 6.250 / 40 mil.

Jefferson Airplane – 7,5 mil / 48 mil.

 

Domingo, 17 de agosto, para segunda-feira, 18 de agosto

 

Joe Cocker – 1.375 / 9 mil.

Coutry Joe and the Fish – 2,5 mil / 16 mil.

Ten Years After – 3.250 / 20 mil.

The Band – 7,5 mil / 48 mil.

Blood, Sweat & Tears – 15 mil / 95 mil.

Johnny & Edgar Winter – 3.750 / 24 mil.

Crosby, Stills, Nash & Young – 5 mil / 32 mil.

Paul Butterfield Blues Band – não disponível.

Sha-na-na – 700 / 4,5 mil

Jimi Hendrix – 18 mil / 115 mil.

A banda Iron Butterfly deveria receber US$ 10 mil (5 mil pelo show mais 5 mil por um espetáculo de luzes), mas não apareceu para tocar.

Veja e ouça a apresentação do Creedence Clearwater Revival: a voz poderosa de John Fogerty.

Veja e ouça Crosby, Stills & Nash: vocal fantástico.

Veja e ouça Joe Cocker: releitura dos Beatles.

Quem é quem e quanto recebeu para tocar em Woodstock.

Quem é quem e quanto recebeu para tocar em Woodstock.

Não foram – Outras bandas foram contatadas ou mesmo convidadas diretamente, mas se recusaram a participar de Woodstock. Os Beatles seriam uma delas e o motivo da recusa nunca ficou bem explicado. Seja como for, os quatro rapazes havia muito tempo não tocavam em público nem tinham mais essa intenção. Também foram convidados: Doors, The Byrds, Led Zeppelin, Jethro Tull, além de Bob Dylan e a canadense Joni Mitchell.

Flower Power – Com tanta gente reunida, a infraestrutura e a logística (inicialmente montadas para 200 mil pessoas) tornaram-se insuficientes. Houve problemas na distribuição de alimentos, muita gente sem abrigo na chuva e um certo caos sanitário. Mas a boa vontade e o puro espírito flower power  e war is over conseguiram contornar os problemas aqui e ali.

Woodstock foi encerrado por Jimi Hendrix. Sua guitarra teve efeito hipnótico sobre a multidão. Sua versão para o hino nacional americano misturou civismo, ironia, sons de bombardeios, de tiros e gritos. Ecos da guerra do Vietnã. De repente, o clima de paz e harmonia transformou-se em silêncio. A alegria deu lugar a uma certa melancolia, a uma certa depressão que podem ser sentidas no filme Woodstock. Hendrix morreria em algumas semanas, em Londres, provavelmente de overdose.

Pá de cal – Poucos meses depois, em entrevista ao publisher e criador da revista Rolling Stone, Jann S. Wenner, John Lennon disse sua segunda frase mais célebre: “O sonho acabou” (a primeira foi “Somos mais famosos do que Jesus Cristo“). Na verdade, a frase de Lennon foi apenas a pá de cal. O sonho já estava morto. Acabou quando Hendrix tocou sua última nota em Woodstock. O lixo acumulado na fazenda de Max Yasgur, um caipira simpático e hospitaleiro, anunciava tempos difíceis. A guerra não havia acabado. Começavam os anos 70 e o mundo nunca mais seria mais o mesmo.