Um gênio, uma guitarra de ouro e uma maldição

Um gênio, uma guitarra de ouro e uma maldição

Esta é a história da melhor guitarra do mundo. Não, não se trata de uma Gibson ou de uma Fender. A melhor guitarra do mundo foi construída em meados dos anos 60, no bairro da Pompeia, na zona oeste de São Paulo, pelo então garoto Cláudio César Dias Baptista, irmão de Sérgio Baptista, o guitarrista dos Mutantes. Quem assim a batizou foi seu próprio idealizador, baseado em seus conhecimentos de acústica, ergonomia e eletrônica. Para proteger essa preciosidade de desejos ilícitos, foi lançada uma maldição. Vamos à história da Régulus.

Carlos de Oliveira

16 Outubro 2014 | 19h41

Sérgio Dias, dos Mutantes, com a Régulus, “a melhor guitarra do mundo”, idealizada por seu irmão mais velho, Cláudio César Dias Baptista.

Em meados dos anos 60, ter uma guitarra de boa qualidade era quase impossível. Claro, havia as Giannini, as Del Vecchio, as Rei, as Phelpa, todas elas pioneiras e hoje consideradas cult. Nenhuma delas, porém, era uma Fender, uma Gibson, uma Gretsch ou uma Mosrite, que a garotada dos “conjuntos” via na capa de discos dos Beach Boys, Gerry and the Pacemakers, dos Animals, dos Ventures ou em fotos dos Beatles.

O acesso a esses instrumentos de primeira linha era restrito a poucos, muito poucos. Só os abonados (os ricos, de acordo com a gíria da época) ou os filhinhos de papai (esses ainda estão por aí) tinham esse privilégio. Nada, porém, impediu que bons músicos se formassem e segurassem, com louvor, a bandeira do iê-iê-iê nacional e de uma ainda incipiente Jovem Guarda. Foi por esse tempo que, em uma daquelas muitas ladeiras da Pompeia, um garoto genial chamado Cláudio Cesar Dias Baptista, se propôs a criar a melhor guitarra do mundo, segundo sua própria avaliação, a Régulus Raphael, a guitarra de ouro.

Cláudio (esq.), idealizador e construtor da “melhor guitarra do mundo” e Sérgio Dias, seu irmão, em fotos recentes.

O início – O ano era 1964 ou 1965 e Cláudio, seu irmão Arnaldo Baptista e os amigos Raphael Vilardi e Roberto Loyola formaram o que na época chamava-se “conjunto”. Por aqui, banda ainda era aquele aglomerado de músicos com cornetas, tubas e bumbos, que tocavam marchas marciais ou animavam algum picadeiro.

Nascia os Thunders, que pouco depois virou os Wooden Faces, ambos com um pomposo The na frente.  Talvez não tenham gostado muito desses nomes, tanto que, tempos depois, surgia o Six Sided Rockers. Six porque o irmão mais novo de Cláudio, Sérgio Baptista, e uma menina loira de nome gringo, Rita Lee,  juntaram-se a eles. Veio , O Konjunto, que virou O’Seis, assim mesmo, com um sutil sotaque irlandês.

“Crânios” – Mas para se chegar à guitarra de ouro e à maldição citada no título deste texto é preciso voltar um pouco mais no tempo, aos tempos de escola, ao Instituto de Educação Caetano de Campos, célebre escola estadual paulistana, antes do sucateamento do ensino público, que funcionava na Praça da República. Era muito difícil entrar no Caetano de Campos. Lá estudavam os “crânios” de São Paulo.

Cláudio Cesar estudava  lá, afinal, era um “crânio”. Filho da pianista e concertista Clarisse Leite e do escritor César Dias Baptista, Cláudio aprendeu a tocar piano com a mãe. Além da música, se punha a estudar obstinadamente desenho, pintura, arquitetura, astronomia e eletrônica. No Caetano de Campos conheceu Raphael Vilardi, outro apaixonado por astronomia, aviões, planetas do Sistema Solar e livros de ficção científica. Juntos fizeram um curso de construção de telescópios e chegaram a dirigir a Associação Amadora de Astronomia de São Paulo. Os dois “crânios” do Caetano de Campos iriam ainda dar vazão aos seus pendores musicais.

Neste ponto, já é possível retomar a narrativa mais acima, que falava sobre a formação da banda (ou “conjunto”) que teve vários nomes.

Insatisfeito com a guitarra que havia comprado, Raphael, sabedor das habilidades de Cláudio César, pediu que ele lhe fizesse a melhor guitarra do mundo. Desafio aceito, já que o objetivo era obter um som não apenas semelhante, mas superior ao das demais guitarras do planeta, Cláudio pôs-se a trabalhar.

O jovem Cláudio César (acima e abaixo), na Pompeia, exibe o desenvolvimento de seu trabalho na construção da Régulus Raphael e de seu protótipo.

Pequeno rei – Aos poucos foi construindo duas guitarras simultaneamente: um protótipo e um instrumento principal. No protótipo, Cláudio César fazia experimentos, testes. Se tudo funcionasse bem, ele fazia o mesmo na guitarra principal. Depois de um tempo, estava pronta a Régulus Raphael, entregue a quem a encomendou. Régulus, em latim, significa pequeno rei. É também uma estrela, a mais brilhante da constelação de Leão, seu coração. Não havia nada que se parecesse com ela.

Sua construção era revolucionária, sua forma era inspirada nos lendários violinos Stradivarius. Seus componentes, dos captadores aos efeitos eletrônicos incorporados ao corpo semi-acústico, era únicos, revolucionários. Seu interior era folheado a ouro para evitar chiados e ruídos que pudessem poluir sua sonoridade. Seus botões eram banhados a ouro. Era a guitarra de ouro. Em seu tampo posterior, uma placa banhada a ouro com uma enigmática inscrição. Uma maldição. Dizia:

“Que todo aquele que desrespeitar a integridade deste instrumento, procurar ou conseguir possuí-lo ilicitamente, ou que dele fizer comentários difamatórios, construir ou tentar construir uma cópia sua, não sendo seu legítimo criador, enfim, que não se mantiver na condição de mero observador submisso em relação ao mesmo, seja perseguido pelas forças do Mal até que a elas pertença total e eternamente. E que o instrumento retorne intacto a seu legítimo possuidor, indicado por aquele que o construiu”.

Arnaldo Baptista (esq.), Rita Lee e Serginho Dias, com sua guitarra Régulus: os Mutantes em meados dos anos 60.

“Serginho” – Nessa época, 1966, o “conjunto” de vários nomes deu lugar à maior banda de rock do Brasil, os Mutantes. Nas mãos de Sérgio Baptista, o “Serginho dos Mutantes”, a mãe de todas as guitarras. Não a Régulus Raphael, mas apenas a Régulus ou Régulus Sérgio Dias. Explico: o protótipo de Cláudio César ficou tão bom quanto o modelo principal, dado a Raphael Vilardi. Os Mutantes estavam hipnotizando roqueiros e tropicalistas. Acompanharam Gilberto Gil em Domingo no Parque, no Festival da Música Popular Brasileira, na TV Record, em 1967. Sérgio precisava de um bom instrumento, o melhor do mundo e, acima de tudo, blindado por uma maldição. Ganhou a guitarra-protótipo de presente do irmão Cláudio, revestiu-a de ouro e revolucionou o som da época.

Por uma dessas ironias que cercam o rock, a Régulus de Sérgio Dias foi roubada. Ocorre que a maldição fez efeito, a ponto de o instrumento ter sido devolvido, de maneira misteriosa, a seu legítimo dono. Hoje, Sérgio investe musicalmente em uma nova guitarra de ouro, a Kier, com a qual tem tocado nos concertos da banda. Eventualmente, a Régulus também é utilizada, mas a velha senhora dourada, já marcada pelo tempo, bem que merece um descanso de rainha.

Claúdio César, criador da guitarra de ouro, vive hoje em Rio das Ostras, no Rio de Janeiro.

Depois de deixar de lado a eletrônica e a construção de instrumentos musicais, Cláudio Dias fixou-se em Rio das Ostras (RJ), onde se dedica exclusivamente a escrever livros e a um projeto literário, uma saga interplanetária intitulada Géa. Seus preceitos estão disponíveis na internet.

No vídeo a seguir, um pouco do som dos Mutantes no Midem (Marché International du Disque et de L’édition Musicale) de 1969, em Cannes, na França. Serginho toca com sua Régulus: