Um acorde mágico dos Beatles revelado depois de 52 anos de mistérios

Um acorde mágico dos Beatles revelado depois de 52 anos de mistérios

Que importância poderia ter um único acorde em toda a obra dos Beatles? Pois o acorde que abre a música 'A Hard Day's Night', de 1964, vem desafiando a curiosidade não apenas de músicos, mas até de matemáticos ligados a grandes universidades. Como foi obtido aquele som? Para o leigo, um acorde é apenas um acorde. Mas para os amantes da música, neste caso especial para os guitarristas, um acorde é a maior das riquezas. A abertura de 'A Hard Day's Night' foi agora decifrada pelo guitarrista Randy Bachman, graças a uma gentileza de Giles Martin, filho de George Martin, o quinto beatle. Vamos à sua gênese, 52 anos depois.

Carlos de Oliveira

13 de maio de 2016 | 18h54

Há 52 anos um acorde, um simples acorde vem martelando a cabeça de músicos amadores e profissionais dedicados a uma espécie de “arqueologia sonora”, dispostos a descobrir como foi possível alcançar aquele som, aquele efeito etéreo, como se a Lei da Gravidade tivesse sido anulada por um segundo ou menos.

Os Beatles em cena do filme 'A Hard Day's Night', de 1964, lançado no Brasil com o título de 'Os Reis do Iê-Iê-Iê'

Os Beatles em cena do filme ‘A Hard Day’s Night’, de 1964, lançado no Brasil com o título de ‘Os Reis do Iê-Iê-Iê’

A grande dúvida – Trata-se do acorde de abertura da música A Hard Day’s Night, primeira faixa do álbum de mesmo nome, que os Beatles lançaram no dia 26 de junho de 1964. Muito se falou sobre esse acorde. Ele já mereceu citações em livros, beatlemaníacos deram muitas versões sobre a sua configuração, revistas especializadas desenharam possibilidades, partituras e cifras foram produzidas, cientistas lançaram teorias. Mesmo assim, a dúvida permaneceu. Como os Beatles chegaram àquele som? Um acorde que dura no máximo um segundo.

Evidentemente, nada impediu que muitas bandas cover dos Beatles tocassem e continuem tocando A Hard Day’s Night sem maiores problemas, cada uma do seu jeito. A criatividade sempre negociou mais ou menos bem com a literalidade, apesar do inevitável desprezo dos puristas.

O guitarrista canadense Randy Bachman, fundador da banda Guess Who e

O guitarrista canadense Randy Bachman, fundador da banda Guess Who e pesquisador do acorde misterioso dos Beatles.

George Martin e seu filho Giles Martin, guardião das fitas com todas as gravações dos Beatles.

George Martin e seu filho Giles Martin, guardião das fitas com todas as gravações dos Beatles.

Para colocar as coisas no seu devido lugar e dirimir todas as dúvidas, o guitarrista canadense Randy Bachman (um dos fundadores da banda The Guess Who, nos anos 60, e, mais tarde, nos anos 70, da Bachman-Turner Overdrive), foi a Londres, mais especificamente aos estúdios de Abbey Road, para um encontro revelador com Giles Martin, filho de George Martin,  o eterno ‘quinto beatle’, produtor da banda.

Tesouro musical – Giles é uma espécie de guardião de um dos mais cobiçados tesouros musicais na Terra: todas as fitas master das gravações dos Beatles. Numa sala onde poucos têm o privilégio de entrar, Giles perguntou a Randy:  “O que você quer ouvir?” Randy não teve de pensar muito para responder. “O acorde inicial de A Hard Day’s Night”. Para satisfazer o guitarrista, Giles teve de separar três fitas: uma para a guitarra de George Harrison, outra para a de John Lennon e uma terceira para o baixo de Paul McCartney.

Surpresa total para Randy Bachman. O início de A Hard Day’s Night não é feito de um único acorde, mas de um conjunto de três elementos sonoros tocados simultaneamente: dois acordes distintos de guitarra e uma nota de contrabaixo. Nas fitas, os sons característicos da guitarra Rickenbacker 360/12 (de 12 cordas) de George Harrison, da Rickenbacker 325 (de 6 cordas) de John Lennon e do contrabaixo Hofner de Paul McCartney.

Três elementos – Exatamente isso. E vamos por partes:

1) John fez um acorde de Ré sus4, ou seja, um Ré maior acrescido da nota Sol obtida com o dedo mínimo na terceira casa da primeira corda Mi.

2) George fez um acorde de  maior acrescido da nota Sol (dedo mínimo na terceira casa do primeiro par de cordas Mi ) e o baixo no Sol (acionado com o polegar pressionando a terceira casa do sexto par de cordas Mi). Vamos lembrar que George usava uma Rickenbacker 360/12, com seis pares de cordas.

Parece complicado, não é? De fato é. Fazer o acorde executado por George exige uma boa dose de técnica.

Para completar, somou-se aos dois acordes uma nota Ré tocada na quinta casa da corda do contrabaixo Hofner de Paul McCartney. A junção de todos esses sons resultou no acorde tão famoso (veja as ilustrações abaixo).

Este é o acorde D sus4, feito por John Lennon. Um ré maior com um sol na primeira corda mi.

Este é o acorde  Ré sus4 feito por John Lennon. Um Ré maior com um Sol na terceira casa da primeira corda Mi.

Este é o Fá feito por George Harrison em sua guitarra de 12 cordas, com um sol no primeiro par de cordas mi e um sol no segundo par de cordas mi, acionado com o polegar esquerdo.

Este é o Fá feito por George Harrison em sua guitarra de 12 cordas, com um Sol no primeiro par de cordas Mi e um Sol no segundo par de cordas Mi, acionado com o polegar esquerdo.

A nota ré na quinta casa da corda lá do contrabaixo de Paul McCartney.

A nota Ré na quinta casa da corda Lá do contrabaixo de Paul McCartney.

Ouça o guitarrista Giles Bachman explicar como foi montada a abertura de A Hard Day’s Night:

Agora ouça e veja o guitarrista inglês Keith Smart demonstrando, na prática, os acordes que compõem a abertura de A Hard Day’s Night. Observem a nota sol feita com o polegar no acorde creditado a George Harrison:

George Harrison e sua guitarra Rikenbacker de 12 cordas com a qual gravou 'A Hard Day's Night'.

George Harrison e sua guitarra Rickenbacker de 12 cordas com a qual gravou ‘A Hard Day’s Night’.

John Lennon e sua Rikenbacker ,,,, usada em 'A Hard Day's Night'.

John Lennon e sua Rickenbacker 325 usada em ‘A Hard Day’s Night’.

Paul McCartney e seu contrabaixo Hofner.

Paul McCartney e seu contrabaixo Hofner.

 

Flutuar – Que ninguém se assuste com essa linguagem complicada. Ninguém é obrigado a conhecer teoria musical. Além disso, o blog Sonoridades não tem o objetivo de tornar-se um método de estudo para guitarras e contrabaixo. Muito longe disso. A matéria desta semana vai por outro caminho. Tem outra intenção. Quer apenas mostrar que 46 anos depois de terem se separado, os Beatles continuam nos desafiando com suas músicas, com jogos de computador, com fotos inéditas, biografias, song books, revelações e até estudos de matemáticos renomados sobre um simples (talvez não tão simples) acorde. Felizmente, um bom ouvido e alguma boa vontade bastam para identificar essa certa sensação de “flutuação” oferecida pela abertura da música.

Ouça A Hard Day’s Night, com os Beatles…

… e veja o trailer do filme de mesmo nome (Os Reis do Iê-Iê-Iê no Brasil):

No computador – Antes da revelação de Giles Martin a Randy Bachman, o matemático e professor Kevin Houston, da Universidade de Leeds, na Inglaterra, disse que estava perto de desvendar os sons que compunham o acorde inicial de A Hard Day’s Night. Em 2012, com o auxílio de um software de computador, ele separou o acorde em várias frequências sonoras, de modo a revelar quais eram as notas mais proeminentes.

Estudou, em particular, a guitarra de George e identificou o acorde de acrescido de um Sol, além de uma nota sol mais grave que só poderia estar sendo acionada pelo polegar do beatle, já que os outros dedos estariam ocupados com as demais notas do acorde.  Na mosca.

Dois anos antes, outro professor, o canadense Jason Brown, da Dalhousie University, em Halifax, Nova Scotia, tentou explicar o que chamava de “nota perdida” (o tal sol acionado pelo polegar de Harrison), creditando esse som mais grave ao piano tocado pelo produtor George Martin.

Será? – Ainda hoje, para o professor Houston, o acorde de abertura de A Hard Day’s Night é um mistério e é possível que ninguém nunca venha saber o que exatamente ele é”. Quem sabe agora, com o auxílio de Giles Martin e de Randy Bachman, a equação tenha sido resolvida. Será? A ver.

 

 

 

 

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