Trigger, os fiéis companheiros de Roy Rogers e Willie Nelson.

Trigger, os fiéis companheiros de Roy Rogers e Willie Nelson.

O que poderia haver em comum entre o cavalo de um cowboy e o violão de um cantor country? Em primeiro lugar, o nome: Trigger. Mais importante do que o nome, a fidelidade. Trigger, o cavalo, viveu 31 anos e morreu em 1965. Era o mais fiel companheiro de Roy Rogers, o velho mocinho dos seriados da TV. Trigger, o violão de Willie Nelson, caminha para os 50 anos e, apesar de profundamente marcado pelo tempo, continua na estrada, ao lado de seu parceiro inseparável. Mais uma historinha para quem gosta de violões, de guitarras, de cowboys. E de cavalos.

Carlos de Oliveira

16 Novembro 2015 | 17h23

É bem provável que os mais jovenzinhos nunca tenham ouvido falar em Trigger. Pois Trigger era o nome de um imponente cavalo palomino de longas crinas platinadas, o mais fiel companheiro de um cowboy heterodoxo chamado Roy Rogers. Seus filmes, que prendiam a atenção de crianças e adultos lá pelo fim dos anos 50, misturavam os inevitáveis tiroteios entre mocinhos e bandidos, assaltos a diligências, um absurdo jipinho chamado Nellybelle, ônibus e até aviões, num dos mais inverossímeis westerns da história do cinema. Em tempo: Rogers, que tinha um cachorro chamado Bullet, era casado com a dócil (mas nem tanto) Dale Evans.

Willie Nelson, 82 anos, ídolo 'country' e seu fiel violão Trigger: uma homenagem ao cavalo do'cowboy' Roy Rogers.

Willie Nelson, 82 anos, ídolo country e seu fiel violão Trigger: uma homenagem ao cavalo do cowboy Roy Rogers.

Trigger, como o cavalo de Roy Rogers, é o velho e fiel companheiro de Willie Nelson

Trigger, mesmo nome do cavalo de Roy Rogers, é um velho, surrado e fiel companheiro de Willie Nelson.

Talento country – E mais uma vez a velha pergunta. O que o seriado do cowboy que subvertia a história do Velho Oeste e seu fiel cavalo tem a ver com música, o objeto principal de Sonoridades? Muito. Roy Rogers era metido a cantor e dedilhava seu violão, geralmente encostado na cerca de algum curral.

Mais ou menos nessa mesma época, anos 50, William Hugh Nelson, ou Willie Nelson, texano de Abbot e de voz anasalada, mostrava seu talento para a música country. Cowboy, cavalo, violão, música caipira. Tudo combinava. Em Nashville, Nelson emplacou o primeiro de seus muitos sucessos: Hello Walls. Na TV, Roy Rogers e Trigger distribuíam justiça pela América profunda.

Nova ‘persona’ – Tempos depois, em meio a incursões não só pelo country tradicional, mas pelo country rock, pelo outlaw country e pelo country alternativo, Nelson estava à procura de um novo estilo e, quem sabe, de uma nova persona. Em 1969, por conta de um acidente, seu violão, um velho Guild, espatifou-se. Pouco depois, sua casa em Nashville pegou fogo. Essa era a hora de recomeçar. De voltar às origens. Partiu rumo a Austin, Texas. A barba ruiva antes sempre raspada cresceu. O cabelo comportado desceu pelos ombros e dividiu-se em duas longas tranças.

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Willie Nelson em dois momentos: o cantor bem comportado e sua nova persona.

Willie Nelson em dois momentos: o cantor bem comportado dos anos 50 e hoje, em sua nova persona.

Novo Trigger – Para dar sequência a sua carreira, Nelson precisava de um novo instrumento. Mas não de um qualquer. Ele tinha um sonho: conseguir um violão que soasse como o de Django Reinhardt, guitarrista de origem cigana nascido na Bélgica e que brilhou na cena do jazz francês dos anos 30 aos 50, mais ou menos. O que mais se aproximou do timbre perseguido foi um Martin N-20, com cordas de nylon. Comprou-o e implantou-lhe um captador. Lembrou-se de Roy Rogers e deu a seu novo violão o nome de Trigger. Desde então, nunca mais se separaram. Uma nova parceria

Roy Rogers e seu cavalo Trigger: exemplo de fidelidade e inspiração para Willie Nelson.

Roy Rogers e seu cavalo Trigger: exemplo de fidelidade e inspiração para Willie Nelson.

Fiéis para sempre – Hoje, Nelson e Trigger estão bastante marcados pelo tempo. O artista icônico chegou aos 82 anos. Trigger tem sulcos profundos e irreversíveis em seu tampo sólido de maple, madeira usualmente utilizada na confecção de violões. Mais do que sulcos, há um rombo imenso bem junto ao cavalete. Seja como for, o tempo só apurou as qualidades de Nelson e de Trigger. Formam uma única entidade. Funcionam perfeitamente. Fiéis para sempre.

Nelson e o

Nelson e o “Serrador”, violão que ganhou de prisioneiros condenados à morte em penitenciária texana.

A  cumplicidade de Nelson e Trigger é tamanha que, recentemente, o cantor e compositor ganhou um presente especial: um violão novo cuja história é um tanto insólita. Ele foi construído por prisioneiros que ocupam (ou ocupavam) o “corredor da morte” da Polunski Unit, considerada a mais terrível prisão de segurança máxima do Texas, situada em Livingston.

O instrumento recebeu o nome sugestivo de Sawyer (serrador). “Eu sei que provavelmente você nunca tocará com ele, mas do fundo do coração quero dizer que fiz o melhor trabalho que me foi possível fazer”, disse o prisioneiro identificado apenas como Keltch. Willie Nelson gostou do presente e, sincero ou apenas diplomático, chamou-o de “obra de arte”.

Seja como for, nada indica que o velho Trigger será aposentado, já que tem sido visto nos braços de seu dono em suas mais recentes apresentações pelos Estados Unidos.

Trigger, o violão de Willie Nelson, tem uma longa história que ele mesmo gosta de contar. Veja e ouça seu depoimento (e de amigos), dado recentemente à revista Rolling Stone:

Em 1973, numa canção nostálgica, o inglês Elton John gravou uma homenagem ao cowboy Roy Rogers. Ouça: