Tom Petty lança biografia. Jeff Lynne reacende a Electric Light Orchestra.

Tom Petty lança biografia. Jeff Lynne reacende a Electric Light Orchestra.

Pela primeira vez, Tom Petty fala abertamente sobre sua (já curada) dependência de heroína. "Tom Petty: A Biography" está pronta e sai agora em novembro. Também no próximo mês será lançado o novo disco da ressuscitada Electric Light Orchestra. Jeff Lynne, seu fundador, passou 18 meses gravando o álbum "Alone in the Universe". Ambos estão ligados desde o tempo do Traveling Wilburys, quando, juntos, tocaram com George Harrison, Bob Dylan e Roy Orbison. O fim de ano será agitado no mundo do rock.

Carlos de Oliveira

25 Outubro 2015 | 10h59

Os dois têm muito em comum, apesar de terem nascido bem longe um do outro. Os dois tiveram bandas de grande sucesso, ambos trabalharam muito de perto com o beatle George Harrison e ambos levaram tombos ao longo de suas carreiras. Agora, estão de volta, dispostos a abrir seus corações. Nos Estados Unidos, Tom Petty lançará no próximo mês uma dolorosa biografia, na qual fala pela primeira vez sobre seu pesadelo com a heroína. Na Inglaterra, Jeff Lynne anuncia um novo disco (e a volta) de sua Electric Light Orchestra (ELO), extinta em 1986.

Tom – Aos 65 anos, natural de Gainesville, na Flórida, Petty conheceu a fama e, bem ou mal, soube cuidar dela, pelo menos até 1997. Sua banda, os Heartbreakers, formada em 1976 com os guitarristas Mike Campbell e Benmont Tench, com o baixista Ron Blair (depois Howie Epstein) e com o baterista Stan Lynch, Petty firmava-se com como um rock band leader. Sua voz anasalada nunca escondeu sua ligação musical e emocional com Bob Dylan e Roger McGuinn, dos Byrds, transitando com facilidade entre o folk e o rock.

Ouça Tom Petty and the Heartbreakers cantando A Face in the Crowd:

Jeff – Em Birmingham, Inglaterra, também em meados dos anos 70, Jeff Lynne lançava sua Electric Light Orchestra com  Roy Wood, Bev Bevan, Rosie Vela entre outros músicos de formação clássica que tocavam cellos e violinos, numa espécie de “rock erudito” ou um “rock de câmara”, se é que isso existe. De qualquer forma, a ELO havia descoberto uma fórmula de sucesso que, apesar das brigas internas, foi sucesso até 1986.

Ouça a Electric Light Orchestra tocando Last Train to London:

Com George – Em 1988 Petty e Lynne iriam se encontrar e tocar juntos no supergrupo formado ainda por George Harrison, Roy Orbison e Bob Dylan. Nascia o Travelling Wilburys, tocando rock, folk e country. A banda surgiu em Santa Monica, Califórnia, num encontro informal no estúdio de Bob Dylan. Tocaram juntos e gostaram tanto do resultado que, em dez dias, compuseram músicas para o álbum Traveling Wilburys Volume 1. O disco esteve entre os 100 melhores no ranking da Rolling Stone e foi indicado ao Grammy do ano.

Os Wilburys eram engraçados. Nenhum dos astros usou seu nome verdadeiro nos poucos álbuns lançados. No Volume 1, George era Nelson, Orbison era Lefty. Lynne era Otis. Petty era Charlie T. Jr. e Dylan era Lucky, todos com o mesmo sobrenome: Wilbury. Nem a morte de Roy Orbison, em dezembro de 1988, impediu os Wilburys de lançar seu Volume 3 (não houve um Volume 2), agora com novos pseudônimos: George era Spike, Lynne era Clayton, Petty era Muddy e Dylan era Boo.

Ouça o Traveling Wilburys, com George Harrison, Roy Orbison, Bob Dylan, Jeff Lynne e Tom Petty, cantando Handle with Care:

Até então, tudo ia bem. A produção de Lynne para o álbum Cloud Nine, que Harrison lançou em 1987, foi um sucesso, embora os ânimos na Eletric Light Orchestra estivessem um tanto exaltados. De seu lado, Petty capitalizava os lucros artísticos trazidos pelos Wilburys. Mas a ELO entrou em curto circuito em 1986. Os Heartbreakes iam levando, apesar das rusgas entre Petty e o baterista Stan Lynch.

Biografia – O ano de 1997 foi a gota d’água para Petty.  O álbum Shes’s the One foi um fracasso. Irritado, demitiu Lynch. Seu casamento de 20 anos acabou de maneira amarga e Petty mudou-se para uma casinha que, de tão pequena, ele a chamava de chicken shack, algo como galinheiro. Veio a depressão. Com ela, a fraqueza de espírito e a heroína. Em pouco tempo estava dependente da droga. Destruído.

“Tentei a técnica do cold turkey (corte abrupto no consumo da droga, com devastadores efeitos colaterais), mas não funcionou. Não iria funcionar”. A frase faz parte da livro Tom Petty: A Biography, a ser publicado em novembro, no qual, pela primeira vez, ele fala aberta e publicamente sobre sua dependência da heroína. O texto, escrito por Warren Zanes, ex-guitarrista do Del Fuegos, é resultado de um acordo com Petty: escrever a verdade nua e crua. Para o autor, a revelação sobre as drogas “está longe de ser o momento mais sombrio do livro”. Para os críticos que já tiveram acesso às provas, Petty: A Biography, é uma das melhores biografias do rock já escritas.

Ouça Learning to Fly com Tom Petty and the Heartbreakers:

Surra – Longe do escritor imparcial, Zanes logo revela sua amizade e admiração por Petty, uma relação que começou em 1986. Essa proximidade ajudou Petty a revelar os capítulos mais doídos de sua vida, numa espécie de regressão até sua infância na Flórida. Aos cinco anos, Petty foi surrado violentamente pelo pai Earl, por ter atirado uma pedra em um Cadilac que passava pela rua. “Fiquei coberto de vergões, com ferimentos da cabeça aos pés. Você não pode imaginar alguém bater uma criança assim? E eu tinha apenas cinco anos.”

Ouça Tom Petty cantando Yer so Bad:

Mágoas – Boa parte do livro é dedicada à saga dos Heartbreakers, suas camaradagens e tensões, especialmente com o baterista. Stan Lynch foi ouvido por Zanes, assim como os demais integrantes da banda. Lynch disse que ficou muito contrariado quando Petty, em 1989, gravou o álbum Full Moon Fever, praticamente sem a presença dos companheiros de banda e com um outro baterista.

Mas Lynch faz uma auto-crítica, o que está longe de ser um pedido de desculpas. Ele disse: “Eu não precisava ser tão barulhento. Se eu pudesse falar com esse cara, eu teria dito: ‘Filho, você é um tolo. Você só não sabe disso ainda. Então, por que você não mantém sua boca fechada e deixe que apenas algumas coisas funcionem na sua vida?'”

Funeral – A mágoa maior de Lynch envolve a morte do ex-baixista dos Heartbreakers, Howie Epstein, vítima da heroína. “Eu nunca perdoei Tom por não estar no funeral de Howie. Não posso. Gostaria de poder.” No livro, Petty rebate Lynch e diz que foi a uma cerimônia fúnebre realizada separadamente. “Stan não sabe o que passamos com Howie. Ninguém sabe. Sinto falta dele o tempo todo. Ouço sua voz em gravações e isso me mata.”

Para os fãs de Petty e dos Heartbreakers resta apenas esperar alguns dias para que possam ter acesso à biografia do loirinho magricelas que nos anos 70 não passava de um ilustre desconhecido, tocando contrabaixo numa banda obscura chamada Mudcrutch.

Energia elétrica – Do outro lado do Atlântico, Jeff Lynne, companheiro de Tom Petty no Travelling Wilburys, também tem planos muito concretos para novembro. Depois de algumas tentativas mais ou menos bem-sucedidas de reacender a Electric Light Orchestra, apagada desde 1986, Lynne aceitou as provocações do DJ da BBC Chris Evans, partiu para o estúdio de sua residência em Los Angeles e gravou, praticamente sozinho, o álbum Alone in the Universe, com data marcada para lançamento: dia 13 de novembro. É seu primeiro trabalho em 15 anos. “Eu fiz tudo, exceto tocar o chocalho e o pandeiro, que meu engenheiro Steve Jay tocou”, disse Lynne.

Anthology – A experiência de Lynne em estúdios é grande. Basta lembrar que em 1995/1996, durante o projeto Anthology, dos Beatles, ele foi o responsável pela montagem de Free as a Bird e Real Love, ambas de John Lennon, gravadas originalmente eu um pequeno gravador cassete portátil com apenas um piano de acompanhamento e absolutamente sem qualquer qualidade técnica. Era apenas um breve registro para que Lennon não esquecesse o tema.

Pois Lynn juntou retalho por retalho, eliminou ruídos, alterou rotações e, em outras palavras, “ressuscitou” John Lennon, que fora assassinado dez anos antes. Esse trabalho foi novamente levado a estúdio, onde Paul, George e Ringo deram cada um sua contribuição com guitarras, baixo, pianos, bateria, percussões e vocais. Nasceram dois singles de muito sucesso. De repente, graças a Lynne, os quatro Beatles estavam juntos novamente.

Ouça Free as a Bird, de 1995, com os Beatles, música co-produzida por Jeff Lynne:

Ouça Real Love, de 1996, com os Beatles, produzida por Jeff Lynne:

 Sem egoísmos – Embora Alone in the Universe tenha sido uma empreitada solo, Lynne não foi egoísta. O resultado final de 18 meses de composições e gravações foi creditado à Electric Light Orchestra. O tema do álbum nasceu da curiosidade de Lynne em relação ao espaço e das impressões causadas pela viagem da sonda Voyager 1, que hoje já ultrapassou os limites do Sistema Solar. “Essas notícia ficavam coçando dentro de minha cabeça. Passei a pensar muito sobre isso e a me perguntar quão sozinho a gente pode estar”.

Agora ouça Jeff Lynne em When I Was a Boy, que integra seu novo trabalho, creditado à Electric Light Orchestra:

O novo album de Jeff Lunne e a Electric Light Orchestra, que sai em novembro.

O novo album de Jeff Lunne e a Electric Light Orchestra, que sai em novembro.

O novo álbum não foi a primeira tentativa de Lynne de ressuscitar a ELO. Em meados de 2001, ele lançou o álbum Zoom, o primeiro desde Balance of Power, de 1986. Apesar dos esforços para promover o trabalho, Zoom deixou a desejar. Agora, quase 15 anos depois, e ajudado pela BBC, que consultou (com resultado positivo) os fãs sobre uma possível volta da banda, Lynne decidiu retornar à estrada. Seu primeiro teste para valer foi em setembro de 2014, com um show para cerca de 50 mil pessoas no Hyde Park, em Londres. A Electric Light Band foi muito bem recebida.

Agora o caminho está traçado e será percorrido com cuidado, “um passo depois do outro”, provavelmente com novos concertos na Inglaterra e, provavelmente, nos Estados Unidos. “Vamos ver o que acontece.Se tudo der certo, vou produzir mais coisas. Vamos esperar que tudo dê certo”, disse Lynne.