Robert Johnson, o rei do Delta Blues, volta à vida em nova foto.

Robert Johnson, o rei do Delta Blues, volta à vida em nova foto.

Setenta e sete anos depois de sua morte, o rei do Mississippi Delta Blues continua vivo de alguma forma. Sua vida sempre foi envolta em mistérios e tudo indica que assim continuará. Robert Johnson, inspirador de uma geração de roqueiros e de bluseiros como Eric Clapton e os Rolling Stones, tem agora uma nova foto. Até hoje, apenas duas são oficiais. Uma terceira está, digamos, "sub judice". Quem sabe agora o mundo poderá conhecer uma nova face do homem que um dia teria feito um pacto com o diabo. Será que fez mesmo? Mistérios.

Carlos de Oliveira

22 de dezembro de 2015 | 15h17

Malfadada noite em que o jovem Robert Leroy Johnson, no frescor de seus 27 anos, foi até o cruzamento das rodovias 61 e 49, em Clarksdale, no Mississippi, e fez um pacto com o coisa ruim. Está certo que passou a tocar guitarra como ninguém e tornou-se o rei do Mississippi Delta Blues. Mas a que preço! Até hoje, 104 anos depois de seu nascimento e 77 depois de sua morte, seu descanso eterno parece longe de chegar.

Uma novo foto vem reabrir o caso Robert Johnson, o rei do Delta Blues. O homem à esqueda, de chapéu e copo nos lábios, pode ser o bluseiro inspirador de Clapton e dos Stones.

Uma nova foto vem reabrir o caso Robert Johnson, o rei do Delta Blues. O homem à esqueda, de chapéu e copo nos lábios, pode ser o bluseiro inspirador de Clapton e dos Stones.

Sem fim – Ninguém sabe exatamente como ele viveu, como era exatamente seu rosto, como exatamente ele morreu. A vida de Robert Johnson, ídolo inspirador de todos os bluseiros, de Clapton aos Stones, é uma obra inacabada e promete ser assim por muito mais tempo.

Duas são suas fotografias oficialmente reconhecidas. Apenas duas. Existe uma terceira sobre a qual pairam dúvidas. Uns acham que é Johnson. Outros garantem tratar-se de B.B. King ainda muito jovem. Mistérios, como tudo na vida desse personagem nascido em 8 de maio de 1911, em Hazlehurst, no Mississippi.

Esta é uma das duas fotos conhecidas de Robert Johnson e aceitas oficialmente.

Esta é uma das duas fotos conhecidas de Robert Johnson e aceitas oficialmente.

Esta outa foto também é reconhecida como oficial.

Esta outra foto também é reconhecida como oficial.

Há quem identifique Johnson no jovem à esquerda. Outras versões indicam que o homem com o violão na mão é B.B. King ainda muito jovem.

Há quem identifique Johnson no jovem à esquerda. Outras versões indicam que o homem com o violão na mão é B.B. King ainda muito jovem.

O cruzamento das rodovias 61 e 49, em Clarksdale, Mississippi: pacto com o demo.

O cruzamento das rodovias 61 e 49, em Clarksdale, Mississippi: pacto com o demo.

Nova imagem – Agora, um novo ingrediente vem temperar um pouco mais essa história. Uma nova fotografia foi encontrada e especialistas forenses quase juram que a pessoa de chapéu e com um copo nos lábios é Robert Johnson.

Mas como jurar é pecado, tudo o que está sendo dito hoje poderá, de repente, ser desdito amanhã. Ou hoje mesmo. Quem mandou o jovem Robert vender sua alma ao demo? Seja como for, a nova história é boa. Vamos logo a ela.

Leilão – Tudo começou em 2013, durante um leilão em Pensacola, na Flórida. O professor aposentado Donald Roark deu um bom lance e conseguiu arrematar aquela escrivaninha antiga, mas bem alinhada. Nas gavetas, uma imensa quantidade de lixo, de papéis velhos.

A escrivaninha compropa por Donald Rourk em um leilão em Pensacola, na Flórica, onde estaria a nova foto atribuída a Robert Johnson.

A escrivaninha comprada por Donald Roark em um leilão em Pensacola, na Flórida, onde estaria a nova foto atribuída a Robert Johnson.

Dois casais – Ao fazer uma limpeza na peça recém-adquirida, Donald deparou-se com um foto intrigante. Na imagem antiga, amarelada, dois casais sentados junto a uma mesa, todos de frente para a câmera. O homem dà esqueda está de chapéu e um copo junto aos lábios. Para Donald, um rosto familiar, parecido com alguém já visto na capa de um de seus discos. “Eu acho que foi por causa do chapéu. Eu ri e achei que aquele homem tinha o mesmo olhar de Robert Johnson.”

Pronto, começava aí mais um capítulo na história desse músico controvertido. A foto foi enviada para a especialista forense Lois Gibson, uma profissional mais do que habituada a analisar supostas fotos de artistas, especialmente de Robert Johnson. Segundo ela, pelo menos cinco fotos lhe são enviadas todos os meses, na esperança de uma identificação bem-sucedida.

Reflexão – “Em noventa e nove por cento dos casos euolho as fotos, mas não rio delas, apenas desconverso”, disse Lois. No caso específico da foto apresentada por Donald Roark, sua reação foi bem distinta. Premiada pelo Guinness Book of Records como a artista forense mais eficiente em reconhecimentos, Lois disse que ateve-se diante da imagem e passou a refletir mais seriamente.

E não apenas isso. Fez uma série de procedimentos técnicos que, num primeiro momento, associa a nova foto ao rei do blues. Na imagem estão, supostamente, da esqueda para a direita, Robert Johnson (de chapeú e bebendo), Calleta Craft (sua esposa), Estella Coleman (que hospedava o casal desde 1933) e Robert Lockwood Jr. (filho de Johnson). De fato, as várias simulações e comparações feitas por Lois com as duas fotos oficiais disponíveis sugerem que aquele homem de chapéu pode ser mesmo o rei do Delta Blues.

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As comparações feitas pela artista forense Lois Gibson: algumas semelhanças com o verdadeiro Johnson.

As comparações feitas pela artista forense Lois Gibson: algumas semelhanças com o verdadeiro Johnson.

De olhos abertos – Até que outra foto apareça e uma nova discussão venha à tona, a vida e a morte de Robert Johnson continuarão envoltas em mistérios. Teria ele feito mesmo um pacto com o demônio numa encruzilhada? Morreu ao beber whisky envenenado? Morreu vítima da sífilis? Morreu assassinado com um balaço no peito? Ninguém sabe ao certo.

Sabe-se apenas que morreu de olhos abertos, como se não quisesse partir.

Ouça Robert Johnson cantando Crossroad:

Ouça Crossroad, com o Cream, em sua volta em julho 2005, antes da morte de Jack Bruce:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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