Radiografando a foto de Abbey Road

Radiografando a foto de Abbey Road

No dia 8 de agosto de 1969, os Beatles cruzaram a faixa de pedestres que até hoje existe quase em frente aos estúdios de Abbey Road, em Londres. Seis fotos foram feitas pelo fotógrafo escocês Iain Macmillan e a escolhida foi transformada na capa do último disco gravado pela banda, 47 anos atrás, o álbum Abbey Road. No texto abaixo, 'Sonoridades' faz uma radiografia dessa imagem.

Carlos de Oliveira

12 de agosto de 2016 | 16h14

Em agosto de 1969 o clima entre os quatro beatles estava irreversivelmente deteriorado. Mal se falavam. Com muito custo cumpriam contratos. Um deles era gravar mais um álbum, o último de uma história que começara quando ainda eram adolescentes, no fim dos anos 50. Nem nome tinham para esse álbum, embora as gravações já estivessem em curso. Ideias para a capa, nem pensar. No máximo, alguns delírios. Nada além.

A capa do álbum Abbey Road, de 1969, o último gravado pelos Beatles: solução simples e barata.

A capa do álbum Abbey Road, de 1969, último gravado pelos Beatles: uma solução simples.

Everest – Geoff Emerick, engenheiro de som da banda, fumava muito na sala de controle do estúdio dois da EMI, em Abbey Road, Londres. Seus cigarros preferidos eram da marca Everest. De tanto ver seus maços de cigarros sobre a mesa de som, Paul McCartney pensou em batizar o novo álbum de Everest. Para a foto da capa, uma viagem até o sopé da montanha mais alta do mundo, nos Himalaias, ideia que logo foi descartada por ser logisticamente delirante e economicamente cara.

A EMI estava aflita para lançar o novo álbum e nada disposta a gastar grandes somas em super produções. Corre a versão de que Ringo Starr sugeriu, então, que a banda fosse fotografada na própria rua do estúdio. Paul McCartney garante que a ideia foi dele. “Nós nunca gostamos do nome Everest, mas não conseguíamos pensar em nada melhor. Então, um dia eu disse: ‘Já sei: Abbey Road’. É o nosso estúdio e o nome soa um pouco como um monastério”.

Esboço – A foto da capa seguiu minuciosamente um esboço desenhado por Paul, no qual ele esmiuçou a futura foto em vários planos. Para executar o trabalho foi chamado o fotógrafo escocês Iain Macmillan, um conhecido de algum tempo da banda. Marcaram o dia e o horário: 8 de agosto, às 11h30.  Os quatro beatles atravessariam Abbey Road pela faixa de pedestres pintada quase em frente ao estúdio da EMI.

Esboço feito por Paul McCartney e seguido pelo fotógrafo escocês Iain McMillan.

Esboço feito por Paul McCartney e seguido pelo fotógrafo Iain MacMillan.

No dia e na hora marcados um policial especialmente contratado interrompeu o trânsito. Macmillan colocou uma escada portátil no meio da rua, subiu alguns degraus e preparou-se para disparar sua câmera Hasselblad equipada com uma lente grande angular de 50 milímetros. Ajustou a abertura em f22, a velocidade em 1/500 e confiou em seu filme Kodak Vericolor VPL 6013. Fez apenas seis fotos, com os Beatles caminhando para a direita e para a esquerda pela faixa de pedestres.

Vestido azul – Feitas as seis fotos, Macmillan decidiu fotografar uma placa de sinalização na esquina da Abbey Road com a Alexandra Road. Irritou-se profundamente quando, ao disparar a câmera, percebeu que uma garota de vestido azul havia cruzado a frente da objetiva. Mais tarde, foi exatamente essa a imagem escolhida para a contracapa do álbum que, finalmente, recebeu o nome simples de Abbey Road, o último gravado pelos Beatles.

A foto da contracapa, feita na esquina da Abbey Road com a Alexandra ......

A foto original da contracapa, feita na esquina da Abbey Road com a Alexandra Road, ainda sem textos e créditos.

Paul “morto” – O disco foi lançado em 26 de setembro de 1969 e a imagem da capa trouxe consigo uma série de histórias sobre a “morte” de Paul McCartney. Teorias as mais bizarras foram formuladas. Descalço, com o passo trocado em relação aos demais e com o cigarro na mão direita (Paul é canhoto), Paul era o morto. De roupa branca, John Lennon representava o médico ou o luto na tradição oriental. Ringo Starr, de preto, era o agente funerário. George Harrison, de jeans, era o coveiro.

O Volkswagen branco à esquerda traria mensagens terríveis em sua placa LMW 28IF: Linda McCartney Widow (Linda McCartney viúva) e 28 SE (Paul faria 28 anos se estivesse vivo). O furgão preto à direita seria um carro funerário. À frente do Volkswagen, um Triumph Herald 1967 igualmente mal estacionado seria outro sinal de mau agouro. Lendas, apenas lendas.

O Volkswagen com placa enigmática, sugerindo a morte de Paul Mccartney.

O Volkswagen com placa enigmática, sugerindo a morte de Paul McCartney.

Paul Cole, o turista americano que aparece de pé na calçada, junto ao fugão preto.

Paul Cole, o turista americano que aparece de pé, junto ao fugão preto.

Decoradores dos estúdios da EMI, que tiveram de aguardar o encerramento da sessão de fotos para poderem retornar ao trabalho.

Decoradores da EMI, que tiveram de aguardar o encerramento da sessão de fotos para poderem retornar ao trabalho.

De real mesmo, apenas duas imagens: o senhor de pé, parado ao lado do furgão preto, e um grupo de pessoas paradas ao lado ao Triumph. Para ambos os casos há uma explicação.

Turista –  O senhor é um turista americano chamado Paul Cole, cuja identidade foi descoberta anos depois.

Cansado de cumprir o roteiro turístico que lhe foi imposto, Cole preferiu caminhar pela Abbey Road enquanto sua esposa visitava mais um museu londrino.

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Linda McCartney também fotografou os Beatles antes das fotos de MacMillan. Na bolsa em frente a John Lennon as inicias LLE, de Linda Louise Eastman, seu nome de solteira.

Linda McCartney também fotografou os Beatles antes das fotos de MacMillan. Na bolsa em frente a John Lennon as inicias LLE, de Linda Louise Eastman, seu nome de solteira.

Decoradores – O grupo junto ao Triumph era de decoradores do próprio estúdio da EMI. Eles haviam saído para almoçar e não puderam voltar até que a sessão de fotos terminasse. Não precisaram esperar muito, já que tudo não levou mais do que dez minutos. Já o álbum Abbey Road continua a tocar e a ser vendido. A faixa de pedestres virou mais uma das atrações de Londres, para alegria dos turistas e irritação dos motoristas locais, obrigados a parar sempre que um grupo decide imitar o gesto de 47 anos atrás..

 

 

 

 

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