Pete Best: a sina de ser um ‘não-beatle forever’

Pete Best: a sina de ser um ‘não-beatle forever’

Mais alguns dias, e Pete Best, o primeiro baterista dos Beatles, demitido pelo empresário Brian Epstein, será novamente notícia. No próximo dia 24, ele completará 73 anos e, muito provavelmente, será questionado sobre o fato de ser um eterno não-beatle. Isso acontece quase todos os anos. Embora diga não ter grandes mágoas pela dispensa ainda mal explicada, Pete sempre se considerou melhor do que Ringo Starr. Hoje, ele excursiona pelo mundo com sua Pete Best Band.

Carlos de Oliveira

07 de novembro de 2014 | 19h11

Os Beatles em Hamburgo. Da esquerda para a direita, Pete Best, George Harrison, John Lennon, Paul McCartney e Stu Sutcliffe, o primeiro baixista da banda.

As meninas se derretiam por ele. Se dependesse apenas delas, os Beatles teriam sido John, George, Paul e Pete. Best podia não ser o melhor, como indica seu nome, mas era o queridinho, o mais bonito, aquele por quem as garotas gritavam.

Sua habilidade com as baquetas não era lá essas coisas. Dizia-se que o primeiro baterista dos Beatles era limitado e, qualquer que fosse a música, fazia sempre a mesma coisa, dava sempre as mesmas batidas, as mesmas “viradas”, a mesma “levada”. Mas há dúvidas sobre isso.

Sua mãe, Mona Best, contudo, era dona do Casbah Coffee Club, que funcionava no sótão da casa da família, na Hayman’s Green Street, número 8, em Liverpool. Era lá que os meninos Pete, John, George e Paul se reuniam para tocar. Há garotos que são donos da bola. Pete era dono do palco. Agora, às vésperas dos 73 anos, que completará neste 24 de novembro, Pete voltará aos noticiários, como sempre volta nessa data.

Pete Best em dois momentos: nos Beatles, no início dos anos 60, e hoje, na Pete Best Band.

Na Índia – Embora seja um típico inglês do norte, de Liverpool, Pete nasceu em Madras, na Índia, no tempo em que o Império Britânico se estendia por vastas distâncias ao redor do mundo. Seu pai era ligado ao boxe, um promotor de lutas.

Durante a Segunda Guerra, o governo inglês o mandou para a Índia, com a missão de cuidar do preparo físico de tropas lotadas naquela então colônia. Lá, o senhor Best apaixonou-se por uma indiana chamada Mona,  uma enfermeira da Cruz Vermelha Internacional, com quem teve dois filhos. Terminada a guerra, a família regressou a Liverpool.

Teste – Em agosto de 1960, os Beatles, adolescentes, não tinham um baterista fixo. Tinham, porém, uma proposta para tocar em Hamburgo, na Alemanha. Muito jovens (George, com 17 anos, ainda era menor de idade), decidiram embarcar nessa aventura, mas antes precisavam convidar alguém para assumir a seção o rítmica da banda. Paul ligou para Pete e fez a proposta, com uma condição: Pete teria de se submeter a um teste musical. Quinze minutos e seis músicas depois, estava aprovado.

Os jovens Beatles embarcam para Hamburgo, onde tocaram por duas temporadas, no início dos anos 60.

Cine pornô – Embarcaram e, por duas temporadas, dividiram quartos insalubres como os do Kino Bambi, um cinema pornô localizado próximo à zona portuária de Hamburgo. Apresentaram-se em clubes noturnos de reputação discutível. Conviveram com plateias sóbrias e bêbadas, fizeram amigos e, sobretudo, ganharam experiência

Por trás dessa maratona de apresentações estava o empresário Bruno Koschmider, um alemão nascido em Gdansk (hoje uma cidade polonesa), que controlava não apenas o Kino Bambi, mas outras casas animadas pelos Beatles, entre elas o Indra Club e o Kaiserkeller. Por dois anos, Pete Best conviveu com isso tudo.

Bruno Koschmider, empresário alemão que levou os Beatles para Hamburgo.

De volta a Liverpool, os Beatles foram tocar no célebre Cavern Club , onde Pete tinha um séquito de admiradoras fanáticas.

Era, literalmente, o darling das mocinhas ligadas no Mersey Beat, um termo usado para definir a música que prosperava naquela época, naquela região do norte da Inglaterra.

Demitido – Brian Epstein já era empresário da promissora banda e por razões ainda hoje mal explicadas, nebulosas, Pete foi demitido dos Beatles. Há quem diga que os executivos da Decca, interessados em chamar o grupo para um teste, não teriam gostado de seu desempenho.

Há ainda uma versão de ciuminhos internos, já que Pete era festejado e até aparecia nos jornais locais. No centro desse suposto  complô movido a ciúmes estaria Paul McCartney, que gostaria de ser  a estrela da banda.

Por último, havia os argumentos (nunca comprovados) de que Pete tocava mal, era desinteressado em relação à banda e que não se encaixava no tipo de mentalidade que mantinha John, Paul e George unidos. Ao longo de sua história, além de Pete, os Beatles experimentaram outra baixa: o baixista original do grupo, o escocês Stuart Fergusson Victor Sutcliffe, mais conhecido como Stuart Sutcliffe ou apenas Stu, morreu em Hamburgo, em 10 de abril de 1962, de um tumor no cérebro.

Choro – A missão de dar a notícia da demissão a Pete foi confiada a Brian Epstein. Os demais Beatles não deram as caras, o que magoou o baterista. Pete contou que, num primeiro momento, não teve nenhuma reação, a não ser sair e tomar umas cervejas num pub próximo. À noite, porém, não dormiu de tanto chorar. Mais: dias depois, ao saber que Ringo Starr, da banda Rory Storm and the Hurricanes, havia sido chamado para ocupar seu lugar, Pete entrou em depressão. Deixou a música e foi ser padeiro por algum tempo.

O jovem George, com 17 anos, e o olho esquerdo roxo depois de uma briga para defender Ringo Starr.

As fãs de Pete estavam desconsoladas e foram às ruas, em manifestações na porta do Cavern. Portavam cartazes com os dizeres “Pete forever, Ringo never”. Houve brigas e, numa delas, tentaram agredir Ringo fisicamente. George correu em sua defesa e ganhou um olho roxo, o esquerdo, por alguns dias.

Ringo Starr à frente da Rory Storm and the Hurricanes, antes de ser chamado pelos Beatles.

Fator Ringo – Se Pete foi demitido, o mesmo quase aconteceu com Ringo. O produtor George Martin, da EMI, considerado o quinto beatle, não gostou nada do desempenho do baterista durante as gravações de Love Me Do, o primeiro single da banda.

Resultado: para a gravação, Ringo foi substituído por Andy White, um músico de estúdio. Para o novo baterista, só restou um pandeiro, que tocou no fundo do estúdio de gravação. “Foi uma humilhação para Ringo”, diria Paul, anos depois.

Paul apenas não disse que ele próprio estava irritado com a dificuldade demonstrada por Ringo para acertar o ritmo da música.

A partir daí, e nos anos seguintes, os Beatles deslancharam rumo ao sucesso, à fama e à fortuna. Em Liverpool, Pete Best amargava um sentimento oposto, de fracasso e de tristeza. Tanto que, em 1965, frustrado e enfrentando dificuldades financeiras, entrou no banheiro de sua casa, vedou todas as frestas, abriu  o gás do aquecedor, deitou-se no chão e esperou a morte chegar. Seu irmão chegou antes e salvou sua vida.

“Eu era melhor” – Em meados dos anos 80, Pete disse à BBC que não guardava grandes mágoas, embora sentisse que os demais Beatles deveriam ter falado com ele no momento da demissão. “Deveriam ter me dado uma razão, pois eu me considerava melhor do que Ringo. Nunca me deram uma explicação, nenhuma palavra. Eu havia evoluído muito nos tempos em que tocamos na Alemanha”, disse.

O tempo passou, os Beatles acabaram e Pete Best continuou com a banda que montou algum tempo depois de ter sido dispensado, a All Stars. Depois, formou a Pete Best Combo e a AfterBeat. Hoje, dona de uma boa agenda de shows, a Pete Best Band se apresenta mundo afora. Se os Beatles, que já acabaram, são forever, Pete Best, que está na ativa, será forever o não-beatle.

Vejam Pete Best, em forma e em grande estilo, com a AfterBeat, na França:

Recentemente, na internet, circularam (e ainda circulam) posts sobre o que seriam os Beatles se Pete Best tivesse continuado na banda. Claro, tudo não passa de uma brincadeira, mais engraçada do que de mau gosto.

Vejam como ficaria Come Together:

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