Pet Sounds, a obra maior dos Beach Boys, completa 50 anos.

Pet Sounds, a obra maior dos Beach Boys, completa 50 anos.

Pet Sounds, o mais festejado álbum dos Beach Boys completa meio século no próximo dia 16 de maio. Décimo-primeiro disco da banda, ele nasceu do gênio de Brian Wilson, que compôs quase todas as músicas. A ideia do disco surgiu depois que Wilson ouviu Rubber Soul, dos Beatles, e se impôs a obrigação de compor algo melhor, algo superior. Fez Pet Sounds, aclamado até hoje como um divisor de águas na música pop. Ocorre que um ano depois, os Beatles responderam com Sgt, Pepper's Lonely Hearts Club Band. Brian, que sofria de esquizofrenia agravada pelo consumo de drogas, entrou em depressão profunda. Os Beach Boys acabaram, mas Brian Wilson permanece na ativa.

Carlos de Oliveira

02 de maio de 2016 | 19h41

O dia 16 de maio tem um significado especial para a música pop. Nessa data, há exatos 50 anos, os Beach Boys, lançavam sua obra-prima, o álbum Pet Sounds, considerado um dos mais influentes do século 20 no que se costumava chamar de art rock, sunshine pop, pop barroco e rock psicodélico. Se os anos 60 foram pródigos em nomes exóticos para tendências musicais, foram também fecundos em criatividade. Por isso, para entender Pet Sounds é preciso recuar um pouquinho mais no tempo e até admitir algumas lendas.

Brian Wilson e os Beach Boys em 1966, durante a fase de criação do álbum Pet Sounds.

Brian Wilson e os Beach Boys em 1966, durante a fase de criação do álbum Pet Sounds.

Até por volta de 1964/65, os Beatles faziam sucesso com músicas bobinhas que falavam de amores juvenis, de algumas desventuras e de certos machismos. A canção Help! destoou um pouco dessa fórmula e apontou para algum amadurecimento, algo que ficaria mais patente no dia 3 de dezembro de 1966, quando a banda inglesa lançou seu sexto álbum, Rubber Soul, uma espécie de ponto sem retorno em sua carreira.

O álbum Pet Sounds, lançado em 16 de maio de 1966: divisor de águas.

O álbum Pet Sounds, lançado em 16 de maio de 1966: divisor de águas.

Uma resposta – Essa mudança de rumos indicada por Rubber Soul reverberou intensamente na cabeça de Brian Wilson, um dos fundadores dos californianos Beach Boys, até então reconhecidos pelos sucessos com o surf rock. Diz a lenda que Wilson ficou impressionadíssimo com a sonoridade e a temática das músicas que compunham Rubber Soul e sentiu-se na obrigação de dar uma resposta aos ingleses. Os Beach Boys teriam de mudar também. Precisariam evoluir, deixar de ser os garotos da praia e amadurecer musicalmente.

Ocorre que os Beach Boys eram manipulados pela mão-de-ferro por Murry Wilson, pai de Brian (e de Carl e Dennis Wilson, que também compunham a banda, ao lado de Mike Love e Al Jardine), e viviam em excursões pelo mundo. Brian queria compor, queria ficar nos Estados Unidos, isolado, longe de tudo, fazer novas canções e superar os Beatles. Num acordo com a banda, deixou de excursionar, foi para Los Angeles e passou a criar. Para substituir Brian nas viagens, os Beach Boys contrataram e cantor e guitarrista texano Glen Campbell.

Wilson, durante o processo de gravação de Pet Sounds: trabalho solitário para superar os Beatles.

Wilson, durante o processo de gravação de Pet Sounds: trabalho solitário para superar os Beatles.

Criatividade – Temporariamente livre dos interesses meramente comerciais do pai, Brian contratou a Wrecking Crew (um respeitado grupo de músicos de estúdio do qual fazia parte a baixista Carol Kaye, que já foi tema em Sonoridades) e Tony Asher, um criador de jingles publicitários, para ajudá-lo nas composições. Lançou mão de recursos sonoros incomuns para a banda até então, tais como sinetas de bicicletas, sons de animais e instrumentos musicais orientais (George Harrison havia usado a cítara indiana em Norwegian Wood), garrafas de refrigerantes entre outros. O processo de criação foi vertiginoso, entre dezembro de 65 e janeiro de 66. Se os Beatles tinham Lennon e McCartney, os Bach Boys tinha Brian Wilson.

Quando o grupo voltou de sua excursão ao Japão e ao Havaí, encontrou um álbum praticamente pronto e muito diferente de tudo o que já haviam feito antes. Houve resistências internas às letras (mais sofisticadas, reflexivas) e às melodias, distantes do surf rock tão marcante da banda. Apesar disso tudo, Brian impôs sua vontade e os Beach Boys partiram para o processo de gravação.

Brian Wilson em 1966: surdo do ouvido direito, diagnóstico de esquizofrenia e mergulhado no LSD.

Brian Wilson em 1966: surdo do ouvido direito, diagnóstico de esquizofrenia e mergulhado no LSD.

Parede de som – Brian era discípulo do produtor Phil Spector (hoje em prisão perpétua por ter assassinado a esposa), criador da “parede de som”, um recurso que se caracterizava pela utilização de muitas guitarras, baterias ou conjuntos de outros instrumentos tocando a mesma linha melódica de modo a produzir uma espécie de “paredão” sonoro, recurso utilizado poucos anos depois no álbum All Things Must Pass, o primeiro trabalho solo de George Harrison.

Brian Wilson duplicou as linhas de contrabaixo, de guitarras, de teclados, combinando isso tudo com recursos eletrônicos como câmaras de eco e de reverberação, dando mais “peso” às harmonias. Seguindo uma outra norma de Phil Spector, Brian mixou em mono as versões finais de seu trabalho, talvez por ser totalmente surdo do ouvido direito.  Há quem defenda que Brian tenha nascido com esse problema auditivo. Há quem diga que a surdez deveu-se a um violento golpe desferido por seu pai, ainda na infância.

Boa impressão – Em fevereiro de 1966 os Beach Boys foram ao Zoológico de San Diego fazer fotos para a capa do novo álbum. Brian queria homenagear Phil Spector e, por isso, lhe veio à mente o nome Pet Sounds, com as iniciais PS, as mesmas do nome do produtor. Há versões de que o título veio da foto aprovada para a capa, na qual os músicos aparecem alimentando algumas cabras. Seja como for, o disco fez sucesso, mas não tanto quanto Brian Wilson esperava.

Não vendeu muito logo de início, mas causou boa impressão, especialmente na Grã-Bretanha. A crítica musical reagiu bem e, melhor ainda, bandas famosas como o Who, os Rolling Stones e os Beatles. George Martin, o quinto beatle, disse que sem Pet Sound dificilmente teria havido Sgt. Pepper’s. Ainda hoje, Eric Clapton e Elton John não poupam elogios ao trabalho de Brian.

(Ouça Brian Wilson mais recentemente, cantando God Only Knows, música que integra Pet Sounds.  No vídeo, Brian se apresenta em Londres e logo no início deixa claro que trata-se da música preferida de Paul McCartney. A disputa com o beatle parece continuar):

Sgt. Pepper’s – Brian Wilson criou sua grande obra e via Pet Sounds ser reconhecido com um divisor de águas na cena da música pop. Pelo menos até o dia 1º de junho de 1967, quando os Beatles lançaram Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O impacto desse álbum em Brian foi devastador.

Uma outra lenda da época informa que o músico americano entrou em profunda depressão por considerar que o Sargento Pimenta havia superado Pet Sounds e que não seria possível produzir uma obra melhor. Essa situação de desamparo teria agravado sua dependência das drogas e tornado mais agudo o quadro de esquizofrenia.

(Ouça a íntegra do álbum Pet Sounds, dos Beach Boys, que agora completa 50 anos):

Obra antológica – Depois de Pet Sounds, os Beach Boys lançaram o single Good Vibrations. Ao mesmo tempo, debilitado por sua doença, Brian recolheu-se, tornando inacabada, na época, uma outra obra, intitulada Smile. As composições foram elaboradas em 1966, simultaneamente às de Pet Sounds, mas sua confusão mental, associada aos abusos com LSD impediram que Brian conseguisse juntar todas as melodias compostas. Somou-se a isso tudo a dor profunda pela morte de seus irmãos Dennis (por afogamento, em 1983) e Carl (de câncer, em 1998). O álbum Smile só foi concluído e lançado em 2004.

Hoje, Pet Sounds é encarado como uma obra antológica, um marco importante na cena do pop e reverenciado por publicações do quilate da Mojo Magazine, New Musical Express e The Times. Em 2003, foi colocado entre os 500 melhores álbuns de sempre pela Rolling Stone e integra a lista dos 200 álbuns definitivos do Rock and Roll Hall of Fame. Genial para uns, mais um disco para outros, o fato é que muitas vezes é difícil ouvir certas músicas de Pet Sounds e não sentir um certo nó na garganta, uma emoção que brota da beleza quase inocente de certas harmonias.