Pelas eternas trilhas sonoras do Natal

Pelas eternas trilhas sonoras do Natal

A poucos dias do Natal, os enfeites coloridos estão nas ruas, os apelos de compras repetem-se a cada instante, há os que vão comemorar a data, há os que vão se isolar. Não importa como, onde ou quem, o Natal virá sempre acompanhado de alguma música. Pois esse é o tema: as canções de Natal. De 'Jingle Bells' a 'Boas Festas', o reflexivo tema de Assis Valente, nos próximos dias a música natalina estará no ar, queiramos ou não. Por isso, é melhor relaxar, entrar no espírito e fazer uma pequena viagem por suas notas e letras. Vai valer a pena.

Carlos de Oliveira

13 Dezembro 2014 | 13h28

Está certo que Natal e Jingle Bells sempre tiveram uma espécie de casamento indissolúvel. Mas é bom que se saiba que essa música, composta por James Lord Pierpont, em 16 de setembro de 1857, nos Estados Unidos, nada, mas nada mesmo, tinha a ver com o Natal. Originalmente, chama-se One Horse Open Sleigh e ganhou o mundo. O mundo cristão ocidental, pelo menos.

Mas antes de retornarmos a essa música, não nos esqueçamos que por aqui, nestas terras abaixo do Equador, um Natal branquinho de neve é só uma ficção, um faz-de-conta, uma cópia ou uma nostalgia do que nunca tivemos nem teremos. Vale lembrar, porém, que um Assis Valente bem brasileiro compôs uma das mais bonitas e realistas canções de Natal, como veremos mais abaixo.

Embalos de Natal – Mas voltando ao Jingle Bells. Quem não associa a data ao som da harpa paraguaia de Luis Bordon, que embalou eventuais compras de fim de ano pelas lojas de rua das cidades ou em velhos magazines como o Mappin, Mesbla, Sears e Clipper? Ainda hoje a harpa de Bordon é ouvida aqui e ali, numa espécie de hino do espírito natalino, o que nos abre a oportunidade de rever outras trilhas sonoras do Papai Noel. Vamos a elas.

Lames Lord Pierpont, compositor, arranjador e organista norte-americano, autor de 'Jingle Bells', em 1857.

James Lord Pierpont, compositor, arranjador e organista norte-americano, autor de ‘Jingle Bells’, em 1857.

João Dias, cantor brasileiro que gravou a versão de 'Jingle Bells', em 1951.

João Dias, cantor brasileiro que gravou a versão de ‘Jingle Bells’ em português,, em 1951.

O paraguaio Luis Bordon, harpista virtuoso.

O paraguaio Luis Bordon, harpista virtuoso.

Em português – No Brasil, em 1951, o cantor João Dias gravou a versão em português de Jingle Bells (…bate o sino, pequenino, sino de Belém, já nasceu Deus menino para o nosso bem…). Se comparada ao original, essa letra não tem nada a ver com Natal. A canção em inglês fala de um passeio pela neve em um trenó puxado por um cavalo (…batem os sinos, batem os sinos, sinos pelo caminho todo! Oh, é divertido passear em um trenó aberto…). Como se vê, realmente nada a ver. Mas virou moda.

Luis Bordon estudou harpa paraguaia desde a infância e tocou em orquestras em seu país. Nos anos 50 mudou-se para o Brasil e em 1960 gravou o disco que o consagraria por aqui:  ‘A Harpa e a Cristandade’, com Jingle Bells e Noite Feliz, outro clássico natalino. Noite Feliz também é uma versão. A canção original, em alemão, veio da Áustria e chama-se Stille Nacht (literalmente, Noite Silenciosa), composta em 1818, na cidade austríaca de Oberndorf.

Ouça Jingle Bells na harpa paraguaia de Luis Bordon:

Assis Valente, compositor baiano autor de Boas Festas, uma das mais belas canções de Natal.

Assis Valente, compositor baiano autor de Boas Festas, uma das mais belas canções de Natal.

Assis Valente – Mas nem só de versões vive o Natal brasileiro. Ao contrário. Em 1933, o ilustrador, protético e compositor baiano Assis Valente criou uma das mais lindas canções natalinas, Boas Festas, de uma poesia tocante, realista e reflexiva, que ganhou versões de Carlos Galhardo ao Pato Fu.

A poesia:

Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar.
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar.
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel.
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.

 

Ouça Boas Festas, de Assis Valente, com Carlos Galhardo:

Suicídio – A letra de Boas Festas certamente traduz um pouco da história desse compositor que não conheceu os pais, fez canções que são sucesso até hoje e depois de duas tentativas fracassadas, suicidou-se tomando formicida com guaraná, num banco de rua, no Rio de Janeiro, atormentado pelas dívidas. Em seu bolso, apenas um bilhete com seu último verso: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo.” Era o dia 6 de março de 1958.

Pelo mundo – Se for para dar um giro pelo mundo, as canções natalinas em inglês têm seus destaques. Em 1945 foi composta Let it Snow, que fez sucesso de Dean Martin a Michael Boublé. O mesmo Dean Martin gravou White Christmas, Frank Sinatra emplacou I’ll be Home for Christmas, José Feliciano lançou Feliz Navidad.

Ouça Let it Snow, com Dean Martin:

E Feliz Navidad, com José Feliciano:

Lennon – Tantos e tantos outros gravaram canções de Natal ao longo dos anos, no Brasil e no exterior. Entre eles, só para citar uns poucos, Bing Crosby, João Gilberto, Roberto Carlos, Celine Dion, Brenda Lee, Britney Spears, Mariah Carey, Beatles. Tantos. John Lennon, cuja morte completou 34 anos no último 8 de dezembro, ainda é obrigatório nas rádios, com a sua Happy Christmas (War is Over), uma chamada geral à consciência, quase sempre negligenciada.

Ouça John Lennon: 

Sting – Mais recentemente, em 2009, Sting lançou um álbum magnífico intitulado If in a Winter’s Night, com canções inglesas e gaélicas que remetem ao Natal. Nesse mesmo ano, na catedral de Durham, no nordeste da Inglaterra, acompanhado de orquestra e de músicos de várias partes do mundo, Sting apresentou o tocante concerto In a Winter’s Night, cuja íntegra se segue:

Certamente, para cada pessoa, o Natal tem um sentido distinto. Seja qual for esse sentido, ele sempre estará associado a alguma música. Eleger uma delas como a preferida não deverá ser uma tarefa muito difícil.