O acorde inicial de “A Hard Day’s Night” ainda reverbera: no piano de George Martin.

O acorde inicial de “A Hard Day’s Night” ainda reverbera: no piano de George Martin.

"Sonoridades" desta semana será breve, um complemento do post da semana anterior sobre o acorde inicial de 'A Hard Day's Night', música gravada pelos Beatles em 1964. Depois de 52 anos, uma nota de contrabaixo e dois acordes de guitarras foram decifrados. Mas restou um elemento a ser considerado. Um elemento essencial: um acorde de piano feito pelo produtor e maestro George Martin. Desvendamos mais esse mistério. Será? Só o tempo dirá.

Carlos de Oliveira

22 de maio de 2016 | 20h04

Na semana passada, Sonoridades publicou um longo e ilustrado texto sobre o acorde que abre ‘A Hard Day’s Night’, sugerindo que, finalmente, estaria decifrado o mistério que há 52 anos envolve daquele som com aura de magia. Afinal, o guitarrista canadense Randy Bachman e o produtor Giles Martin, filho do produtor George Martin, estudaram a fundo as fitas master dessa gravação dos Beatles, feita em 1964.

Os Beatles em 1964, durante as gravações do álbum A Hard Day's Niaght, nos estúdios de Abbey Road.

Os Beatles em 1964, durante as gravações do álbum A Hard Day’s Night, nos estúdios de Abbey Road.

Depois de horas e horas de decupagem nos estúdios de Abbey Road, em Londres, lá estavam dois acordes de guitarra e uma nota de contrabaixo.  Um Ré sus4 feito por John Lennon numa Rickenbacker 325 de seis cordas, um Fá add9 com baixo no Sol na Rickenbacker 360 de 12 cordas de George Harrison e uma nota no baixo Hofner de Paul McCartney. E ponto final.

George Martin em 1964 e o piano Steinway, com o qual gravou o acorde inicial de 'A Hard Day's Night'.

George Martin em 1964 e o piano Steinway, com o qual gravou o acorde inicial de ‘A Hard Day’s Night’.

O mesmo piano hoje em dia, no estúdio 2 de Abbey Road, em Londres.

O mesmo piano hoje em dia, no estúdio 2 de Abbey Road, em Londres.

Mais notas – Ponto final ou apenas uma vírgula? Quem respondeu uma vírgula acertou. Havia mais coisas. Mais notas. Muito mais notas reverberando, ecoando, preenchendo o som das guitarras. Havia ali o toque do gênio. Um acorde que valeu por muitos, executado pelo produtor e maestro George Martin em um grand piano (piano de cauda) Steinway, que ainda hoje está em Abbey Road.

Com o pedal de sustain do piano (o primeiro à direita) acionado, Martin montou um acorde com cinco notas: Ré2, Sol2, Ré3, Sol3, Dó4. O pedal de sustentação acionado permitiu que diversas outras notas soassem por simpatia, criando overtones ao acorde inicial. Como mestro, músico de formação clássica, Martin sabia que esse seu acorde no piano “conversaria” perfeitamente com o acorde de Harrison na guitarra de 12 cordas.

George Harrison em 1964 com sua guitarra Rickenbacker 360, de 12 cordas.

George Harrison em 1964 com sua guitarra Rickenbacker 360, de 12 cordas.

Doze cordas – Vale lembrar que uma guitarra de 12 cordas é composta de seis cordas geralmente afinadas em Mi, Si, Sol, Lá, Mi e mais seis cordas na mesma afinação, só que uma oitava acima. Ou seja, os agudos predominantes na guitarra de Harrison soam como se ele também estivesse tocando uma segunda guitarra uma oitava acima.

Tudo isso para concluir que a abertura de uma simples música reuniu muitos sons, muitas notas, muita técnica e muito conhecimento teórico advindo da experiência de George Martin (formado na Guildhall School of Music and Drama) com a arte da regência e, sobretudo, com a gravação de orquestras nos estúdios da EMI, em Abbey Road.

Rickenbacker 325...

Rickenbacker 325…

...ou Gibson J-160e? O mistério nunca acaba.

…ou Gibson J-160E? O mistério nunca acaba.

Longe do fim – Agora, um último dado. Há quem garanta que John Lennon gravou ‘A Hard Day’s Night’ com sua icônica guitarra Rickenbacker 325. O site Beatles Bible, um dos mais completos sobre a banda, não hesita em afirmar que o instrumento usado por John foi o não menos icônico violão Gibson J-160E, de seis cordas, eletrificado de fábrica com um captador P-90. Tudo indica que o mistério em torno do acorde mágico está longe de acabar.