Neil Young: nada segura esse velho cavalo doido.

Neil Young: nada segura esse velho cavalo doido.

Às vésperas dos 70 anos, o canadense Neil "Crazy Horse" Young anuncia novo disco. Ativista político desde os anos 60, foi crítico feroz do governo Richard Nixon. No dia 16 de junho chega às lojas o álbum "Monsanto Years". Trata-se de um protesto contra a gigante multinacional da agricultura e biotecnologia. Sua luta atual é contra os alimentos geneticamente modificados. Nada parece tirar o ânimo e a inspiração do velho cavalo doido.

Carlos de Oliveira

27 de abril de 2015 | 09h56

Há pouco menos de dois anos, em sua autobiografia Wild Tales: A Rock & Roll Life, Graham Nash, do lendário super trio Crosby, Stills & Nash, disse que Neil Young, o eventual quarto elemento da banda, era o seu amigo mais estranho. E contou uma história no mínimo incomum e engraçada sobre essa estranheza.

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Neil Young, às vésperas dos 70 anos: o mesmo rebelde dos anos 60, agora em campanha contra a Monsanto.

Na juventude, com o Crosby, Stills & Nash.

Na juventude, com o Crosby, Stills & Nash. Neil Young era o eventual quarto integrante da banda.

Veja Neil Young às voltas com suas gaitas e cantando Heart of Gold, em 1971:

Era 1972 e ambos estavam no rancho de Young, ao sul de San Francisco. Nessa época, o Crosby, Stills, Nash & Young estava na estrada. Mergulhado nas drogas, David Crosby definhava. O clima entre eles era ruim e Neil parecia mais interessado em seu álbum solo Harvest, recém-gravado, mas ainda inédito.

_ Quer ouvir meu novo disco?, perguntou Neil a Nash.

_ Claro, vamos lá, respondeu Nash.

_ Só que você vai ouvi-lo naquele barquinho, no meio do lago, disse Neil a um Nash surpreso.

O rancho de Neil Young era de difícil acesso e uma viagem de jipe dos anos 50 por uma estrada sacolejante era a única ligação entre a rodovia e a casa principal da propriedade. À direita dela, um espaçoso e típico celeiro norte-americano. Bem em frente, um grande lago e um barquinho a remo amarrado na margem.

Ouça Neil Young cantando All Along the Watchtower, de Bob Dylan, com a Crazy Horse e Willie Nelson:

Muito som – Nash pensou que Neil lhe daria um fone de ouvido acoplado a algum tipo de gravador portátil, mas isso não aconteceu. Seguiram remando para o centro do lago e pararam. Aí veio a surpresa. De repente, da terra firme, veio um som altíssimo, bem balanceado e de muito bom gosto. As músicas de Harvest, o álbum mais festejado de Neil Young, saíam do ineditismo de uma forma pouco usual.

Para essa audição no meio do lago Neil tranformou sua casa inteira no alto-falante esquerdo de um gigantesto stereo sound system. O celeiro foi transformado no alto-falante direito. Muito som. Dias antes, ao mostrar esse mesmo esquema a seu produtor, Neil foi protagonista de uma cena não menos engraçada. No barquinho, no meio do lago, ele ouvia sua obra, assim como Nash acabara de fazer. De pé na margem, o produtor gritou para Neil:

_ Está tudo bem com o som?

E Neil respondeu, gritando:

_ Mais celeiro!

Realmente, um sujeito estranho.

Rebelde – Neil Percival Kenneth Robert Ragland Young ou Neil “Crazy Horse” Young ou apenas Neil Young é um canadense de Toronto. Músico desde a juventude, passou a ser conhecido no cenário folk e rock depois de mudar-se para Los Angeles e juntar-se ao multi instrumentista, cantor e compositor  Stephen Stills.

Juntos eles integraram o Buffalo Springfield. Mais tarde, com David Crosby (dos Byrds) e com o inglês Graham Nash (dos Hollies) formaram o acima citado Crosby, Stills, Nash & Young, um misto de alta competência musical e incontrolável briga de egos. Calado, solitário e rebelde, Young logo incorporou o protesto político ao reportório da banda, com críticas ácidas ao então governo Richard Nixon.

Ambientalista – Ao longo do tempo experimentou vários estilos. Vai do folk ao rock com facilidade e ainda mantém um relacionamento sério com o grunge (ou com o que restou dele) ao lado da banda Crazy Horse, de quem herdou o apelido e com quem ainda se apresenta. O tempo passou, mas a militância política do fim dos anos 60 e princípio dos 70 continua a mesma. Aliás, só aumentou.

Já faz tempo que Neil agregou a causa ambientalista às suas preocupações. Nem mesmo o derrame cerebral que quase o incapacitou lhe tira o entusiasmo.  Na ativa e a poucos meses de completar 70 anos, prepara-se para lançar no dia 16 de junho o álbum The Monsanto Years.

Parceria – Trata-se de uma parceira entre Young e a banda Promise of the Real, de Lukas e Micah Nelson, filhos do cantor folk/country Willie Nelson, contra a Monsanto, gigante multinacional de agricultura e biotecnologia, e suas experiências com alimentos geneticamente modificados.

Há poucos meses, Young também liderou uma campanha de boicote à rede de cafés Starbucks, a quem acusa de ser aliada da Monsanto no processo judicial sobre o estatuto de utilização de ingredientes transgênicos no estado norte-americano de Vermont. A Starbucks nega essa ligação.

Ouça Old Man, em apresentação ao vivo, em Londres, nos anos 70:

Indomável – Algumas músicas do novo disco já foram apresentadas por Young e os irmãos Nelson em um concerto mais intimista em San Luis Obispo, na Califórnia. Um documentário vai acompanhar o lançamento oficial do álbum. Neil, que nunca teve a mais afinada das vozes e sempre gostou de guitarras distorcidas no volume máximo, garante que na gravação de Monsanto Years não utilizou o auto tune (um programa que não deixa ninguém desafinar) e que “nenhum ouvido foi ferido na realização desse trabalho”.

O velho cavalo doido do Canadá está de volta à estrada e, ao que tudo indica, ninguém nunca vai conseguir domá-lo. Que o diga seu velho companheiro Stephen Stills. Recentemente, numa turnê que ambos faziam pelos Estados Unidos, Neil simplesmente o abandonou sem qualquer motivo aparente ou explicação. Dias depois, em um telegrama a Stills, Neil se manifestou: “Engraçado como algumas coisas que começam espontaneamente acabem desse jeito. Coma um pêssego. Neil”.

Realmente, um sujeito muito estranho.

 

 

 

 

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