Na enigmática “Bohemian Rhapsody”, os fantasmas de Freddie Mercury.

Na enigmática “Bohemian Rhapsody”, os fantasmas de Freddie Mercury.

Está previsto para o dia 2 de novembro o lançamento do filme sobre a vida de Freddie Mercury, fundador do grupo britânico Queen. Nascido Farroukh Bulsara em Zanzibar, África, o cantor, compositor e pianista escreveu “Bohemian Rhapsody”, música na qual ele revelaria sua orientação sexual, segundo alguns estudiosos da obra do Queen. Freddie viveu pouco, mas intensamente. Morreu em 24 de novembro de 1991, aos 45 anos, por complicações de Aids. O rock perdia uma de suas mais belas vozes.

Carlos de Oliveira

24 Junho 2018 | 21h29

Freddie Mercury, ídolo do rock, terá sua vida mostrada no cinema a partir do dia 2 de  novembro: vida intensa e morte prematura.

Está marcada para novembro a apresentação do filme que conta a vida e o drama de um dos maiores ídolos do rock, Freddie Mercury, líder e fundador do grupo britânico Queen. Porém ninguém precisa esperar até lá para ter uma boa ideia do que foi um turbilhão que levou multidões a estádios e que viveu tão pouco, apenas 45 anos, mas intensamente. Sua obra-prima “Bohemian Rhapsody” é uma espécie de livro aberto sobre suas angústias e amores. Há quem diga que os versos de sua balada operística mesclada com hard rock e muita delicadeza são impenetráveis. Há gente para tudo, afinal. Vamos à rapsódia.

O jovem Farroukh Bulsara, em Zanzibar, filho de indianos zoroastrianos: pianista desde menino.

Há pelo menos quatro anos tenta-se concluir uma ideia genial: contar em filme a vida de Freddie Mercury, desde seu nascimento na distante Cidade de Pedra, em Zanzibar, hoje território da Tanzânia, África. Filho de indianos parsis zoroastrianos, Freddie nasceu Farroukh Bulsara. Pianista, compositor, cantor exuberante, morreu do mal de amor. Sua história deverá ser contada nas telas em novembro. Por ora, vale citar um outro episódio de sua vida: a composição e gravação da dramática e operística “Bohemian Rhapsody”, tão magnífica quanto a apaixonada “Love of my Life”.

Ouça Love of my Life, música inspirada, uma declaração de amor. Freddie e Brian May no violão de 12 cordas:

Origens – A grande verdade é que as origens de “Bohemian Rhapsody” são obscuras ou, pelo menos, multifacetadas. Freddie a teria escrito em sua casa, em Londres, uma versão questionada com doçura por Brian May, o guitarrista astrofísico do Queen. Sim, May é um respeitado astrofísico pelos círculos científicos britânicos. Para ele, a música teria sido composta em estúdio, como a maior parte das demais canções do grupo. Admite, porém, que ela estava na mente de Freddie há muito tempo.

Desde o final das década de 60, afirma Chris Smith, amigo próximo de Freddie. “Ele já dedilhava no piano pequenos trechos que mais tarde se transformariam na Rhapsody. Ele também insinuava sugestivamente no piano a canção Mama, gravada por Roy Orbison em 1962.

Em gestação –Só depois de mais de uma década a música começou a tomar sua forma final. O produtor Roy Thomas Baker disse que Mercury o chamou para mostrar-lhe uma ideia que o perseguia. “Ele sentou-se ao piano e tocou o começo da música. De repente, parou e disse que a partir daquele compasso entraria a seção da ópera. Não disse mais nada. Levantou-se e foi jantar”.

Em 1975, o Queen já era uma banda famosa e seu líder personificava toda a força de um cantor que sabia cantar. Freddie humilhou o esteriótipo do cantor roqueiro de voz rouca e mais nada. Tinha a voz educada, potente, de um alcance quase infinito. Os demais integrantes da banda eram também bons cantores. Além de Brian May, cuidavam dos vocais o baixista John Deacon e o baterista Roger Taylor. Quem se recorda dos vocais de “Somebody to Love”?

Ouça Somebody to Love e a belíssima harmonização vocal do Queen:

A gravação – Apesar de todo esse aparato artístico, a gravação de “Bohemian Rhapsody” levou três semanas e contou com nada menos do que 180 overdubs (novas gravações sobre a gravação original) de vocais de apoio combinados com vários instrumentos: piano acústico, baixo elétrico, guitarras elétricas, bateria e até um imenso gongo chinês. Somente depois de pronta essa “cama” de apoio é que Freddie gravou o vocal principal. A partir daí, o Queen se tornaria a primeira banda de rock a usar elementos de ópera em uma música.

“Bohemian Rhapsody” é uma obra-prima composta por quatro movimentos: a balada do início, a força da ópera no meio, uma enérgica seção de hard rock e um final delicado. Há quem julgue a música confusa, hermética, especialmente a letra. Talvez seja, mas pode haver uma explicação. Antes disso, porém, representantes da indústria da música alertaram a banda que a “Rhapsody” era longa demais e que dificilmente seria um sucesso. Erraram.

Absurdo aleatório” – A princípio,  críticos do New York Times desmancharam-se em elogios, elogiaram a letra, mas deixaram dúvidas no ar quanto ao seu significado. Freddie, irredutível, recusou-se a dar explicações sobre sua composição. Pouco depois, mencionou que a letra refletia relacionamentos, mas logo mudou de ideia e a definiu como “um absurdo rimado aleatório”.

Os demais integrantes do Queen, especialmente Brian May, respeitaram a proteção que Freddie fazia de sua canção, mas sabiam que ela continha referências ocultas a traumas pessoais do cantor.

Fausto – Especulações nunca faltaram, algumas consideradas delirantes, como a que compara a “Rhapsody” à tragédia de Fausto, o médico, mago e alquimista alemão Johannes Georg Faust (1480-1540), que vendeu sua alma a Mefistófolis, o diabo. A figura de Fausto foi resgatada em outras obras, entre elas a de Johann Wolfgang von Goethe, que a escreveu e reescreveu ao longo de quase 60 anos.

Há os que dão interpretações mais mundanas (ou simplesmente mais humanas) à obra. Ao compor “Bohemian Rhapsody”, Mercury estava no ponto de não retorno em sua vida pessoal. Ela havia se separado de Mary Austin, companheira de sete anos e amiga por toda a vida, para viver seu primeiro relacionamento com um homem.

Ouça Bohemian Rhapsody, música na qual Freddie Mercury exporia seus traumas e sua orientação sexual:

A letra –  Versos da “Rhapsody”permitem essa interpretação, ou seja, sua orientação sexual:

Mamãe, acabei de matar um homem / Coloquei uma arma contra sua cabeça / Puxei o gatilho, agora ele está morto / Mamãe, a vida acabou de começar / Mas agora eu joguei tudo isso fora.

Para os que vêem uma ligação com Fausto:

O minha mãe, minha mãe / minha mãe, deixe-me ir / Belzebu deixou um diabo para mim / Para mim / para mim…

Veja a letra completa de “Bohemian Rhapsody”:

s this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality
Open your eyes
Look up to the skies and see
I’m just a poor boy, I need no sympathy
Because I’m easy come, easy go
A little high, little low
Anyway the wind blows, doesn’t really matter to me, to me
Mama, just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he’s dead
Mama, life had just begun
But now I’ve gone and thrown it all away
Mama, ooo
Didn’t mean to make you cry
If I’m not back again this time tomorrow
Carry on, carry on, as if nothing really matters
Too late, my time has come
Sends shivers down my spine
Body’s aching all the time
Goodbye everybody I’ve got to go
Gotta leave you all behind and face the truth
Mama, ooo (anyway the wind blows)
I don’t want to die
I sometimes wish I’d never been born at all
I see a little silhouetto of a man
Scaramouch, scaramouch will you do the fandango
Thunderbolt and lightning very very frightening me
Gallileo, Gallileo,
Gallileo, Gallileo,
Gallileo Figaro – magnifico
But I’m just a poor boy and nobody loves me
He’s just a poor boy from a poor family
Spare him his life from this monstrosity
Easy come easy go will you let me go
Bismillah! No we will not let you go – let him go
Bismillah! We will not let you go – let him go
Bismillah! We will not let you go let me go
Will not let you go let me go (never)
Never let you go let me go
Never let me go ooo
No, no, no, no, no, no, no
Oh mama mia, mama mia, mama mia let me go
Beelzebub has a devil put aside for me
For me
For me
So you think you can stone me and spit in my eye
So you think you can love me and leave me to die
Oh baby, can’t do this to me baby
Just gotta get out just gotta get right outta here
Ooh yeah, ooh yeah
Nothing really matters
Anyone can see
Nothing really matters nothing really matters to me
Anyway the wind blows
Um esclarecimento: por três vezes o Queen usa a palava Bismillah na música. Trata-se de uma fórmula árabe presente em várias situações da vida de um muçulmano. Significa Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.

A grafia árabe da palavra Bismillah, utilizada na música. Trata-se de uma fórmula que significa ‘Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso’, presente no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

 

Expectativa – Quem sabe agora, no filme produzido pela Fox, a história por trás da rapsódia seja revelada. A revista Variety previa o lançamento da obras para 25 de dezembro, mas tudo indica que a vida de Freddie Mercury irá às telas um pouco antes, em 2 de novembro, sem data ainda para estreia no Brasil. No papel de Mercury, Rami Malek, de “Mr. Robot”.