Monkees, uma jogada maluca que deu certo

Monkees, uma jogada maluca que deu certo

Uma volta pela internet e eis que surge na tela do cumputador a figura de um Mickey Dolenz super ativo aos 69 anos, com uma recheada agenda de shows. Conhecido dos brasileiros, na infância ele foi 'O Menino do Circo'. Pouco depois da adolescência, de 1965 a 1968, fez parte de uma banda ficcional de enorme sucesso: os Monkees, uma jogada de marketing da rede norte-americana NBC para fazer frente ao sucesso dos Beatles na América. Resultado: os Monkees se assumiram como músicos, viraram mania e a série de TV era programa obrigatório na TV Excelsior, o velho canal 9. A banda se separou, um dos integrantes morreu, mas os Monkees continuam por aí, na memória de muitos. Vamos a eles.

Carlos de Oliveira

21 de novembro de 2014 | 17h56

 

Monkees, do nonsense total ao psicodelismo, um sucesso nos anos 60.

David Jones, Peter Tork e Mickey Dolenz (sentados, da esq. para a dir.) e Mike Nesmith:  os Monkees. Do nonsense total ao psicodelismo, um sucesso nos anos 60.

Vejam só quem continua na ativa e fazendo sucesso como cantor, produtor, ator e diretor de filmes. Muitos podem não se lembrar dele. Os mais jovens talvez nem o conheçam. É bem verdade que seu nome não sugere lá muita coisa, mas o fato é que Mickey Dolenz é famoso desde a infância e continua na estrada. Como o objetivo, aqui, não é fazer mistério, vamos aos fatos. Dolenz foi o baterista dos Monkees, uma banda de rock inventada (sim, inventada) em 1965, em Los Angeles, Califórnia, com a ousada missão de fazer frente ao sucesso dos Beatles nos Estados Unidos.

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Na foto do alto, David Jones, Mickey Dolenz, Peter Tork e Mike Nesmith (da esq. para a dir.). dos Monkees, imitam foto original dos Beatles, do filme A Hard Day’s Night.

Na foto do alto, David, Mickey, Peter e Mike (da esq. para a dir.) imitam foto original dos Beatles, no filme A Hard Day’s Night.

A ideia de criar os Monkees partiu da rede NBC. A invasão musical britânica dos anos 60, tendo os Beatles à frente, atormentava o showbiz e a indústria fonográfica norte-americana. De orgulho e bolsos feridos, os executivos da NBC decidiram que tamanha afronta não poderia ficar sem uma resposta. E foram aos jornais. Não para protestar, certamente, mas para colocar um anúncio no mínimo transviado, para usar um termo rebelde da época. A proposta era abrir um concurso para selecionar quatro jovens que, numa série de TV, assumiriam o papel de músicos em uma banda de rock. Uma banda ficcional.

O anúncio colocado nos jornais por executivos da NBC: buscavam quatro loucos para uma nova série, os Monkees.

O anúncio colocado nos jornais por executivos da NBC: buscavam quatro ‘loucos’ para uma nova série, os Monkees.

“Loucos” – O texto do anúncio era sugestivo. Falava da necessidade de a NBC encontrar “quatro loucos entre 17 e 21 anos”. Apresentaram-se 437 candidatos. Foram selecionados David Jones, um jovem ator inglês de Manchester, cuja companhia teatral estava nos EUA representando Oliver; Peter Tork, ator e multi instrumentista; Michael Nesmith, um músico country e Micky Dolenz. Vale lembrar que Peter Tork tocou piano com Stephen Stills (do Crosby, Stills and Nash), na época no Buffalo Springfield. Aliás, foi Stills quem alertou Tork para o anúncio nos jornais. Nasciam os Monkees.

Dolenz aos nove anos: ele era Corky, da série de TV O Menino do Circo.

Dolenz aos nove anos: ele era Corky, da série de TV ‘O Menino do Circo’.

Menino do Circo – Mickey Dolenz vinha de uma família de artistas e tinha uma certa fama na televisão. Entre 1956 e 1958, com 9 anos, foi o protagonista da série Circus Boy ou O Menino do Circo, que no Brasil embalou a imaginação de uma geração de garotos e garotas, no início dos anos 60.

No papel de Corky Wallace, ele interpretava o menino cujos pais acrobatas (Os Falcões Voadores)  haviam morrido depois de caírem do trapézio. Foi adotado pelo palhaço Joey e pelos demais integrantes do circo Burke and Walsh Circus Family.

Corky tinha dois amigos inseparáveis: o elefante Bimbo e o chimpanzé Bobo. Foi um sucesso na antiga TV Excelsior, o velho canal 9.

 Vejam a abertura do seriado e um trechinho de um dos episódios:

Rebelião – Formada a banda, o sucesso veio logo. No início, músicos de estúdio se ocupavam de toda a parte instrumental. Os atores apenas cantavam. Dolenz era bom cantor desde a época de O Menino do Circo. Depois, rebelaram-se contra as determinações dos produtores da NBC e cada um assumiu seu instrumento, inclusive nas gravações, e passaram a fazer apresentações ao viv0.

Dolenz tornou-se um baterista razoável. Nesmith adotou, entre outras, uma guitarra Gretsch semelhante à que George Harrison usava na época. Tork assumiu o baixo e os teclados. Jones cantava bem e se virava com pandeiros e maracas. Os amplificadores, não por coincidência, eram os Vox , os mesmos dos Beatles. Só não havia canhotos na banda.

Na abertura do seriado, a música Hey, Hey, We’re The Monkees, que tocou à exaustão nas rádios brasileiras. Lembram-se?

Com os Beatles – Assim como os Beatles, cujo nome confundia-se com beetles (besouros),  a expressão Monkees poderia sugerir monkeys (macacos, afinal faziam muita micagem) ou algo derivado de monk (monge). O elo com os Beatles era estreito até no sotaque do norte da Inglaterra de David Jones. Famosos na América, conquistaram a Europa, especialmente a Inglaterra. E os Beatles, pessoalmente. Em excursão, visitaram Paul, George, Ringo e John e foram muito bem recebidos. No aeroporto de Londres, uma gritaria de um exército de mocinhas animadas.

Em excursão à Inglaterra, os Monkees tiveram encontros com os Beatles e foram muito bem recebidos. John Lennon os chamou de irmãos.

Dolenz e Tork ouvem George Harrison tocar cítara.

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Nesmith e John Lennon: “irmãos”.

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Dolenz e Paul McCartney

A festa dos Monkees durou até 1968, quando os músicos-atores (ou vice-versa) se separaram oficiosamente. Surreal, a série foi, aos poucos, se tornando psicodélica e os produtores concluíram que o projeto estava moderno demais para o gosto americano.

Nicholson – Antes disso, porém, a série ganhou dois prêmios Emmy. A banda gravou nove álbuns e teve um longa-metragem intitulado Head (no Brasil, Os Monkees Estão Soltos), escrito por Jack Nicholson. Uma nota interessante: diz a lenda que o sucesso de David Jones era tão grande que um outro inglês também chamado David Jones teve de mudar seu nome para David Bowie para seguir carreira sem concorrência.

Os Monkees com o ator Jack Nicholson, durante as gravações do longa Head.

Os Monkees com o ator Jack Nicholson, durante as gravações do longa Head.

O desejo de independência artística dos integantes da banda, cada vez mais em atrito com as normas da NBC, levaram os Monkees a um final oficial, em 1970. Dolenz, Tork e Nesmith seguiram carreiras solo e formaram bandas.

Morte – No fim dos anos 80 foram feitas tentativas de ressuscitar a banda, a ponto de seus álbuns voltarem a fazer sucesso nos EUA. Nos anos 90, reuniram-se para o especial Hey, Hey, We’re the Monkees. Outros dois  encontros ocorreram em 2001 e 2011. Em 2012, vítima de um fulminante ataque cardíaco, David Jones morreu.

Mike Nesmith, Mickey Dolenz e Peter Tork (da esq. para a dir.): os Monkees em 2012, depois da morte de David Jones.

Mike Nesmith, Mickey Dolenz e Peter Tork (da esq. para a dir.): os Monkees em 2012, depois da morte de David Jones.

 

Mickey Dolenz, hoje, na estrada.

Mickey Dolenz, hoje, na estrada.

Hoje, é uma grande surpresa ver um Mickey Dolenz tão produtivo, com uma invejável agenda de shows e muita disposição física do alto de seus quase 70 anos. Ator, cantor, produtor, diretor de filmes, o eterno menino do circo dá sequência às suas aventuras e inspira os saudosistas a inevitáveis divagações e a uma breve viagem no tempo. De alguma forma, os Monkees ainda estão por aí. 

Só falta acrescentar que a banda deixou um rastro de sucessos. Vale recordar alguns deles:

Nem o burrico, do Shrek, resistiu aos Monkees:

 

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