Liverbirds, as meninas de Liverpool que encararam os Beatles.

Liverbirds, as meninas de Liverpool que encararam os Beatles.

Contemporâneas dos Beatles em início de carreira, foram menosprezadas por John Lennon. Para ele, meninas com guitarras jamais dariam certo. Não se intimidaram. As Liverbirds podem não ter feito o sucesso mundial de seus conterrâneos de Liverpool, mas no início dos anos 60 atraíram muitos fãs ao mesmo Cavern Club que celebrou John, Paul, George e Ringo. Por puro machismo foram enganadas na hora de receber o pagamento justo por seus shows. Foram protegidas pelos Kinks e pelos Rolling Stones. Radicaram-se na Alemanha e fizeram sucesso na Europa. Em 1968 separam-se, mas deixaram o caminho aberto para outras artistas.

Carlos de Oliveira

26 de abril de 2016 | 10h18

As meninas do Liverbird: cometentes e vítimas de machismo de John Lennon

As meninas do Liverbird: competentes e vítimas de machismo de John Lennon.

Em tempos de justo empoderamento das mulheres e da promoção da equidade de gênero, Sonoridades recua no tempo, chega a 1963 e fixa sua atenção em cinco meninas que sobem ao palco do Cavern Club, em Liverpool. São duas guitarristas, uma baixista, uma baterista e uma vocalista. Formam uma banda de rock. São as Liverbirds. Na outra ponta da casa, numa atitude machista e preconceituosa, um jovem de nome John Winston Lennon faz uma observação de mau gosto: “Meninas com guitarras? Isso nunca vai funcionar”. Pois o garoto Lennon acabava de perder uma boa oportunidade de ficar calado.

Radicadas na Alemanha, as meninas inglesas do Liverbird fizeram sucesso na Europa.

Radicadas na Alemanha, as meninas inglesas do Liverbird fizeram sucesso na Europa.

As meninas ligaram seus instrumentos e detonaram. Cativaram a audiência com seu rock básico, duro como deve ser o bom rock’n’roll. No palco apertado estavam as guitarristas Valerie Gell e Sheila McGlory, a baixista Mary McGlory (irmã de Sheila), a baterista Sylvia Saunders e a vocalista Irene Verde. A banda era recém-formada e seu nome uma alusão ao pássaro símbolo de Liverpool, o cormorão.

Dedicadas – As garotas eram dedicadas e persistentes. Ensaiavam todos os dias e, a bem da verdade, tocavam melhor do que muitas bandas formadas por meninos de Liverpool  cujo objetivo era competir com os Beatles, já em franca ascensão na Grã-Bretanha. As Liverbirds impressionavam tanto que foram convidadas a integrar as excursões dos Rolling Stones, dos Kinks e dos Rockin’ Berries.

Apesar de serem boas músicas, as meninas passaram a ser descaradamente enganadas na hora de receber seus pagamentos. Repetindo a velha e injusta fórmula mantida até hoje no mercado de trabalho, elas recebiam menos em relação a músicos homens que tocavam nas mesmas excursões e nos mesmos palcos. Essa situação levou a sérias discussões e provocou a saída de Irene Verde da banda, requisitada por outros grupos da cidade.

Contratadas pelo Star Club, de Hamburgo, elas mantinham a casa sempre cheia.

Contratadas pelo Star-Club, de Hamburgo, elas mantinham a casa sempre cheia.

Com os Kinks – Por alguns instantes, tudo levava a crer que o despeito de John Lennon ia se tornar realidade. Mas as Liverbirds foram em frente com uma integrante a menos e prosseguiram a excursão com os Kinks. Na verdade, se as bandas do norte da Inglaterra torciam o nariz para elas, as de Londres as apoiavam, como mostrou Mary McGlory  em uma carta ao Liverpool Beat, em 2014. Eis um trecho do texto:

“Os Kinks nos levaram a Londres para um encontro com o empresário deles. Nos reservaram um hotel e nos pediram para estarmos na manhã seguinte no estúdio de gravação com os nossos instrumentos. Talvez houvesse tempo para tocarmos para o empresário. No dia seguinte, estávamos lá. Foi quando o roadie dos Kinks entrou gritando que as guitarras da banda haviam sido roubadas da van. Pois foi assim que os Kinks tocaram com nossas guitarras na gravação de You Really Got Me“. 

Ajuda – De fato, foram os Kinks que ajudaram as Liverbirds a se manterem unidas depois da saída de Irene Verde. Para ocupar seu lugar, eles sugeriram o nome de Pamela Birch, uma loira vistosa e muito competente para cantar e tocar guitarra. Sua voz forte logo combinou com os vocais de Valerie Gell e a banda de meninas conquistou de vez o sucesso no Cavern Club, enfrentando os Beatles de frente. Passado algum tempo, Larry Page, empresário dos Kinks, e Brian Epstein, dos Beatles, quiseram assinar contrato com as Liverbirds.

Topless? – As meninas, porém, optaram pela Alemanha e assinaram contrato com Manfred Weissleder, dono do Star-Club, em Hamburgo, onde começaram a tocar em 28 de maio de 1964, sempre com casa cheia. Tocaram com Chuck Berry em Berlim e chegaram a ser convidadas a acompanhar o roqueiro americano aos Estados Unidos. Manfred Weissleder, com medo de perder a audiência em sua casa e o lucro garantido, disse às meninas que os americanos queriam levá-las para Las Vegas só para vê-las tocando em topless. Weissleder blefou e as meninas optaram por permanecer na Alemanha.

O som das Liverbirds era típico dos anos 60. Neste vídeo, elas tocam Peanut Butter no Star-Club, em Hamburgo, já com a nova cantora Pamela Birch:

Valor – Fizeram sucesso com Peanut Butter, Too Much Monkey Business, Loop-de-Loop e Diddley Daddy. As Liverbirds tocaram por toda a Europa até 1967. A banda gravou dois álbuns e quatro singles pelo selo Star-Club e participou de muitos programas de televisão. Em 1968, no auge de uma excursão ao Japão, a banda se desfez. Pamela Birch morreu em 2009. A banda de meninas pode não ter recebido a publicidade merecida nem ter feito sucesso mundial. Mas, de alguma forma, rivalizou com os Beatles e abriu caminho para outras artistas que souberam se impor e mostrar seu valor.