Lisboa String Trio reforça nova safra da música portuguesa

Lisboa String Trio reforça nova safra da música portuguesa

Nem só dos competentes António Zambujo e Carminho vive a música portuguesa atual. O velho fado resiste firme e agora vem revestido de fraseados jazzísticos, como os do LST-Lisboa String Trio. O grupo acaba de lançar seu segundo CD, intitulado Lisboa. Vai valer a pena ouvi-lo. E surpreender-se.

Carlos de Oliveira

08 de fevereiro de 2016 | 16h18

Na Europa pode até nem ser uma grande novidade, mas por estes lados do Atlântico, o LST – Lisboa String Trio merece ser descoberto. Tocam jazz ou tocam fado? Afinal, que música é essa que José Peixoto, Bernardo Couto e Carlos Barretto tocam? Sugerem que fazem música mestiça, como mestiço é Portugal, cruzamento de culturas, caldeirão de influências, do mouro ao celta, da África negra a muito além da Taprobana, da Pindorama mítica ao sol nascente oriental. Como não ser influenciado por essa longa viagem? Como definir essa música? Se quisermos simplificar, tocam jazz português. Mas seremos sempre simplistas.

O Lisboa String Trio: uma nova abordagem da música portuguesa.

José Peixoto, Carlos Barretto e Bernardo Couto (da esq. para a dir.) formam o Lisboa String Trio: nova abordagem da música portuguesa.

O violão de José Peixoto, a guitarra portuguesa de Bernardo Couto e o contrabaixo de Carlos Barretto mesclam-se de modo a formar uma unidade sonora que, em última análise, não perde o fado como referência, pelo menos para os ouvidos estrangeiros. A Península Ibérica está presente. Mas há pitadas clássicas, passagens que remetem ao medieval, referências a Astor Piazzolla e um jazz subjacente. Música intrigante, alegre, mas nostálgica.

Ouça a música do Lisboa String Trio:

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Lisboa e Matéria: os dois álbuns do LST.

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Surpresas – Virtuosos em seus instrumentos, Carlos Barretto destaca que a improvisação é fator preponderante na música do LST e residiria aí o sotaque jazzístico das composições do grupo. As alusões ao fado são inevitáveis, segundo José Peixoto. Afinal, essa é a música com a qual todos cresceram. Para Bernardo Couto, definir linguagens musicais é sempre complicado. Sua afinidade com a guitarra portuguesa vem da infância, quando estudou com os mestres do instrumento. É dele a responsabilidade de dar ao LST o sentimento lusitano. Jazz, fado ou o que for, talvez o mais importante seja ouvir o LST com vontade de ser surpreendido, o que certamente acontecerá. O grupo tem dois CDs gravados. O primeiro, Matéria, e o segundo, recém-lançado, intitulado Lisboa. Vai valer a pena.

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António Zambujo e Carminho: simbiose com músicos brasileiros.

António Zambujo e Carminho: simbiose com músicos brasileiros.

Nova safra – Na verdade, o LST integra a nova safra de música portuguesa, da qual fazem parte António Zambujo e Carminho, ambos muito conhecidos e respeitados pelo público brasileiro. Antes deles, como pioneiros dessa nova onda, vieram Dulce Pontes, o Madredeus e Teresa Salgueiro em apresentações solo sempre muito concorridas.

Mas houve um tempo em que a música portuguesa no Brasil resumia-se a duas palavras: Amália Rodrigues. Claro, havia aqui e ali os grupos folclóricos que, em trajes típicos, dançavam o vira, num rodopiar sem fim. Mas nada muito além disso.

Por muito tempo, Amália Rodrigues foi a voz de Portugal no Brasil.

Por muito tempo, Amália Rodrigues foi a voz de Portugal no Brasil.

De Amália aos Xutos – Amália reinava absoluta. Ai Mouraria, Uma Casa Portuguesa, Tudo Isto é Fado, Foi Deus são músicas que, de um jeito ou de outro, passaram pelos ouvidos e ficaram na memória de toda uma geração. Cantores e cantoras brasileiras regravaram seus sucessos. Angela Maria emprestou-lhe o acento brasileiro. Em meados dos anos 60, Roberto Carlos, com sua voz pequena, popularizou Coimbra.

Num degrau bem mais baixo em relação ao ocupado por Amália, lá pelos anos 70 apareceu por aqui (e vez por outra reaparece) um certo Roberto Leal, que de Roberto nada tem. Seu nome verdadeiro é António Joaquim Fernandes. Leal caiu no gosto popular com suas músicas ingênuas, de letras fáceis. Parece até que suavizou um pouco o sotaque luso, já que os portugueses falam depressa demais e comem a maioria das vogais, o que dificulta a compreensão pelos brasileiros. Até o rock lusitano passou rapidamente por aqui com a banda Xutos & Pontapés.

Ouça um pouco mais de Lisboa String Trio:

Simbiose – Hoje é difícil dizer se a música portuguesa sofisticou-se, se ela desapegou-se do fado tradicional. Que diferença faz? O fado não morrerá e é bom mesmo que não morra. O certo é que a facilidade de comunicação e uma divulgação bem mais eficiente mostraram que são várias as músicas portuguesas e que a maioria é de boa qualidade.

Ao mesmo tempo, a simbiose com músicos brasileiros como Caetano Veloso, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Lô Borges e Milton Nascimento, entre outros, mostra as ilimitadas possibilidades oferecidas pelo idioma comum. Mostra também que o outrora tenebroso mar-oceano já não assusta ninguém.