John Lennon, a morte do sonho e do sonhador

John Lennon, a morte do sonho e do sonhador

Neste dia 8 de dezembro, a morte de John Lennon completa 34 anos. Por volta das 22h desse dia, em 1980, aos 40 anos, o beatle foi assassinado com quatro tiros nas costas, na portaria do edifício Dakota, em Nova York, onde morava, por um supostamente louco de nome Mark Chapman. Com Lennon se foi o que restava do sonho de paz e amor proposto nos anos 60. Sua morte emocionou boa parte do mundo e transformou o ídolo em lenda.

Carlos de Oliveira

05 Dezembro 2014 | 10h04

John Lennon autografa a capa do álbum Doble Fantasy para Mark Chapman. Horas depois seria assassinado com quatro tiros nas costas.

John Lennon autografa a capa do álbum ‘Double Fantasy’ para Mark Chapman. Horas depois seria assassinado por ele com quatro tiros nas costas.

Arrogante, ingênuo, genial, irascível, imprevisível, briguento, carinhoso, engraçado, perseguido. John Winston Ono Lennon foi um pouco disso tudo até a noite do dia 8 de dezembro de 1980. Dos cinco tiros disparados por Mark David Chapman, quatro acertaram as costas do ex-beatle, no momento em que ele chegava ao portão de entrada do edifício Dakota, em Nova York, onde morava com sua esposa Yoko e seu filho Sean.

A portaria do edifício Dakota, em Nova York, onde John Lennon foi assassinado em 8 de dezembro de 1980.

A portaria do edifício Dakota, em Nova York, onde John Lennon foi assassinado em 8 de dezembro de 1980.

Fim do sonho – Foi nesse momento que o sonho realmente acabou. E definitivamente. Além de John, então com 40 anos, os tiros mataram a utopia de uma geração que passou anos pregando a paz e o amor. Morto, John Lennon virou lenda, mito, uma entidade perene que em alguma emissora de rádio, certamente estará cantando Happy Christmas (War is Over). 

Lennon, com os demais beatles a seu lado, finge estar morto: uma brincadeira bem próxima da realidade.

Lennon, com os demais beatles a seu lado, finge estar morto: uma brincadeira bem próxima da realidade.

Quanta ironia. John sempre brincou com a morte. Talvez nunca tenha se curado do trauma causado pelo acidente que matou sua mãe, Julia, atropelada bestamente por um motorista bêbado, em uma rua de Liverpool.

Em She said, She said, do álbum Revolver, alguém, uma mulher, lhe dizia saber exatamente o que era estar morta. Em Yer Blue, do Álbum Branco, ele dizia “…estou sozinho, quero morrer…se eu ainda não morri, você sabe o porquê…“.

Uma outra vez, posou para uma foto de certo mau gosto, mas, de alguma forma, profética. Deitado numa rua, rodeado pelos demais beatles, fingia estar morto.

Tempos depois, deixou sua Inglaterra natal e mudou-se para Nova York. Foi morar no Dakota, que serviu de cenário para o filme O Bebê de Rosemary, de 1968, um clássico do terror adaptado pelo diretor polonês Roman Polanski.

Falsa segurança – Nada disso abalava a vida do músico e ativista político engajado na causa pela paz. Certa vez, ao comentar sua mudança para Nova York, Lennon disse que lá ele podia andar pelas ruas sem ser assediado.

“No máximo me pedem um autógrafo, me sinto seguro, não sou perseguido”. Ingenuidade ou ironia, o fato é que Lennon sempre foi vigiado muito de perto pelo FBI, a polícia federal norte-americana, empenhada em expulsá-lo do país, principalmente por sua postura crítica ao governo americano durante a gestão de Richard Nixon (1969-1974).

O dia seguinte à tragédia foi marcado pela incredulidade. Com a voz grave, Cid Moreira abriria o Jornal Nacional, da TV Globo, com a seguinte frase: “O mundo acordou hoje com uma notícia trágica. John Lennon, um dos Beatles, morreu assassinado”.

Elis – A extensa matéria sobre o assassinato exibiu depoimentos, entre outros, de Pelé (falou sobre um encontro recente que haviam tido no Japão), de Gilberto Gil (disse alguma coisa confusa) e de Elis Regina. Um cara que tinha como arma uma guitarra, papel e lápis, canções e letras, o sorriso e a brincadeira, ser assassinado dessa forma?”, questionou uma atônita Elis, que morreria dois anos depois, vítima de uma overdose de cocaína.

Veja a reportagem do JN:

“Idiota” – O assassino Mark Chapman foi descrito por um policial como “um idiota”. Natural do Texas, ele se dizia fã de Lennon e dos Beatles. Horas antes de puxar o gatilho de seu revólver calibre 38, Chapman já havia abordado Lennon na entrada do Dakota. Pediu-lhe um autógrafo na capa do álbum Double Fantasy e foi atendido. John e Yoko seguiram para o estúdio onde preparavam um novo disco. Chapman ficou por perto do edifício. Só voltaram a se encontrar por volta de 22h, pela última vez.

Ouça o álbum Double Fantasy:

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Mark Chapman, definido por um policial como “um idiota”, foi preso e condenado à prisão perpétua.

Difícil precisar os reais motivos do crime. Chapman, na época com 25 anos, disse que ouvia vozes, o que poderia sugerir um nunca comprovado distúrbio mental grave. Depois de preso e condenado à pena de prisão perpétua, Chapman disse que queria apenas notoriedade, ser alguém, ser famoso, e que Lennon foi a vítima de mais fácil acesso. Na verdade, de sua lista de vítimas constavam os nomes da atriz Elizabeth Taylor e do apresentador de TV Johnny Carson.

“Blasfemo” – Confirmando o diagnóstico feito pelo policial citado acima, Chapman ainda alegou que matara Lennon por este ser um blasfemo e ter dito que os Beatles eram mais famosos do que Jesus Cristo. Disse que a canção Imagine negava a Deus e propunha que paraíso e inferno não existem. Por fim, disse ter se identificado com Holden Caulfield, o jovem e atormentado personagem central do livro O Apanhador no Campo de Centeio, de  Jerome David Salinger.

Preso há 34 anos, Chapman teve negados oito requerimentos de liberdade condicional, o último em agosto deste ano. Até hoje, os responsáveis pelo presídio de Attaca, no estado de Nova York, cuidam para que o assassino fique o mais resguardado possível de outros presos, já que estaria jurado de morte por seu crime.

Covarde – Idiota ou não, Chapman foi calculista, cruel e covarde. Por duas vezes, a primeira em outubro daquele ano, deslocou-se de sua casa no Havaí e foi para Nova York com o intuito de matar Lennon. Desistiu. Retornou dois meses depois. Dessa vez, decidido a executar seu plano. Na noite de 8 de dezembro, depois de horas de espera e usando um grosso gorro de lã, Chapman viu se aproximando o carro que trazia John e esposa de volta para casa. Ambos desceram e caminharam rumo à portaria. Chapman aguardou pela passagem de Yoko. Em seguida, pela de Lennon.

No hospital, Yoko Ono teve uma crise de nervos e precisou ser amparada.

No hospital, Yoko Ono teve uma crise de nervos e precisou ser amparada.

Da calçada junto à portaria do Dakota ele gritou:

_ Mister Lennon…

O beatle não teve tempo de se virar. Foi atingido por quatro dos cinco tiros disparados. O primeiro acertou uma janela.  Três atravessaram seu corpo. O último dilacerou sua aorta. Com hemorragia severa, John perdeu 80% de seu sangue e morreu a caminho do hospital Saint Luke’s-Roosevelt. Não faltaram especulações de que a CIA ou o MI6, o serviço de inteligência britânico, estivessem por trás do assassinato. Improvável. Nada nunca foi comprovado.

Durante seu depoimento à polícia, Chapman disse que quando apertou o gatilho não sentiu nenhuma emoção, apenas ouvia uma voz que repetia “do it, do it, do it”  (faça isso). Estático na cena do crime, nem tentou fugir. Foi preso em flagrante.

Daily Mirror anunciando a morte de John Lennon 1980

Na capa do britânico Daily Mirror, a morte de um herói.

Pesar – Tão logo a notícia se espalhou, um misto de dor e estupefação se apoderou de multidões que, não apenas em Nova York, mas em várias cidades do planeta, fizeram vigílias à luz de velas, fotos, cartazes e canções de Lennon. Perplexidade e lágrimas.

Jornais estamparam a notícia em suas capas e os demais beatles, separados havia já dez anos, emitiram notas de pesar. Dos três, apenas Ringo Starr foi a Nova York abraçar Yoko pessoalmente. O corpo de Lennon foi cremado e o pote com suas cinzas ainda está com Yoko Ono.

Sonhador – John Lennon morreu jovem, com sua obra ainda inacabada, sem dizer suas últimas palavras. Se tivesse tido a oportunidade, talvez repetisse o verso de Imagine, no qual se dizia um sonhador.

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