Jimi Hendrix nunca tocou sanfona

Jimi Hendrix nunca tocou sanfona

Muito injustamente, a sanfona, ou acordeão, ou concertina, ou gaita é várias vezes vista com um certo desdém. Esse instrumento movido a ar, palhetas e músicos de primeira linha já frequentou gravações dos Beatles, palcos do rock, do blues e do jazz. É protagonista também de uma fraude fotográfica feita na internet com o guitarrista Jimi Hendrix. Tudo por causa de um comercial veiculado nos Estados Unidos, em 2006.

Carlos de Oliveira

28 de julho de 2014 | 08h50

 

Gênio da guitarra, Jimi Hendrix aparece tocando sanfona (ou acordeão): imagem montada

Faltou pouco para que um dos maiores gênios da guitarra se revelasse ao mundo como um virtuoso sanfoneiro – ou acordeonista, para os mais puristas. Jimi Hendrix foi “salvo” em 1953, em Seatlle, sua cidade natal, por uma escolha um tanto prosaica. Ele preferiu uma Pepsi a uma Coca Cola.

Montagem grosseira, mas que chegou a confundir o mundo do blues e do rock

A história: numa certa manhã, o jovem James Marshall Hendrix deparou-se com uma máquina de vender Pepsi na calçada por onde passeava. Parou a caminhada e viu que do outro lado da rua havia uma máquina semelhante, só que da Coca Cola. Indeciso por um momento, acabou optando pela Pepsi. Pegou a garrafa, abriu-a e ao levá-la à boca viu que acima de seus olhos havia a vitrine de uma loja de penhores exibindo uma linda guitarra Fender Telecaster, na cor “blonde”.

O jovem James olhou novamente para a máquina da Coca Cola, na calçada oposta, e só então pôde notar que atrás dela também havia uma vitrine, a da Bob’s Accordion World. Sem pestanejar, entrou na loja de penhores e saiu com a guitarra nas mãos. Moral da história: a Pepsi deu ao mundo um de seus maiores guitarristas e deixou o acordeão para outros músicos tão respeitáveis quanto Hendrix. 

Claro que essa narrativa não passa de ficção. Ela pertence ao mundo da publicidade, mais especificamente a um comercial da Pepsi, em sua eterna guerra pelo mercado com a Coca. A peça de propaganda foi veiculada em fevereiro de 2006, para patrocinar o Super Bowl XL, disputado no Ford Field, em Detroit, Michigan, no dia 5 de fevereiro daquele ano, entre ocampeão da AFC, o Pittsburh Steelers, e o campeão da NFC, o Seattle Seahawks. Os primeiros venceram por 21 a 10. Veja o comercial:

O comercial, contudo, foi o bastante para que pelos menos duas fotos de Jimi Hendrix já adulto circulassem (e ainda circulem) pelas teias de internet, confundindo seus fãs e o mundo do blues e do rock. Mas não se deixem enganar. Uma olhada mais atenta às imagens vai mostrar que tudo não passa de fraudes, de montagens grosseiras.

Na vida real – Mas é bom lembrar que nem todas as histórias de sanfona no rock são ficção. Os Beatles a utilizaram na gravação de All You Need is Love, tocada por John Lennon. Em outra ocasião, Paul McCartney foi fotografado carregando o instrumento debaixo do braço. O trio liderado por Ian Anderson (ex- Jethro Tull) exibe em sua formação o guitarrista alemão Florian Oparhle e o tecladista/acordeonista John O’Hara. O norte-americano Billy Joel, o piano man, já se apresentou a bordo de um acordeão.

O Ian Anderson Trio: flauta, guitarra e acordeão

Billy Joel, o “piano man”, durante apresentação nos Estados Unidos

Paul McCartney também usava o instrumento

John Lennon em estúdio, durante a gravação de All You Need is Love

Baião, MPB e tango-No Brasil o instrumento se deu muito bem, revelando músicos da categoria de Mário Zan, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Caçulinha, Hermeto Pascoal, Sivuca, Zé do Brejo, Oswaldinho do Acordeon, Renato Borghetti e Robertinho do Acordeon. De Norte a Sul do país o acordeão embala os sons do baião, da MPB, do sertanejo e das sagas gaúchas. Mais ao Sul ainda, vale destacar uma variação do acordeão, o bandonión, e seu mestre maior, Astor Piazzolla. Por isso, que não haja preconceito contra a sanfona nem contra seus parentes próximos.

Astor Piazzolla, o grande mestre do bandonión

Dominguinhos e Sivuca, virtuosos brasileiros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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