Hey Jude, não fale palavrões.

Hey Jude, não fale palavrões.

Não é viagem, não é chute, não é lorota. Há um palavrão em "Hey Jude", um dos principais hinos do pop, gravado pelos Beatles em agosto de 1968. Lá pelo fim da música há um "f***ing hell", dito por Paul McCartney, ao errar uma nota em um acorde de piano. Há versões de que o palavrão tenha sido dito por John Lennon. Geoff Emerick, ex-engenheiro de som da banda e autor do livro "Here, There and Everywhere", esclarece que o boca-suja foi mesmo Paul. Não é fácil, mas pode ser divertido tentar ouvir o impropério. Ele estará lá para todo o sempre.

Carlos de Oliveira

25 de novembro de 2015 | 11h16

O fim dos anos 60 foi pródigo em mensagens cifradas, escondidas, subliminares. Apenas alguns iniciados conseguiam compreendê-las. Mais do que isso: apenas alguns conseguiam ouvi-las, se é que as ouviam mesmo. Diziam que quem conseguisse tocar a última faixa do álbum Sgt. Peppers de trás para frente iria ouvir claramente a frase “Paul is dead”Estava na moda dizer que Paul McCartney havia morrido anos antes e que um tal Billy Shears, um sósia perfeito, era seu substituto.

No Brasil, a ditadura endurecera e o tropicalismo foi encarado como ameaça. Caetano Veloso e Gilberto Gil, principais arautos do novo movimento musical, estético e até político, pagaram pela ousadia. Foram presos e exilaram-se em Londres. Por aqui corria a lenda de que uma certa música de Gil, numa determinada altura, se tocada de trás para frente, reverberaria um “abaixo a ditadura”. Foi um tempo de muitas viagens. Algumas forçadas, para salvar a pele. Outras foram apenas coloridas.

Os Beatles, o produtor George Martin e um engenheiro de som durante as sessões de gravação do Álbum Branco e do single Hey Jude.

Os Beatles, o produtor George Martin e um engenheiro de som durante as sessões de gravação do Álbum Branco e do single ‘Hey Jude’.

Provas – A história que se segue, porém, não é lenda, não é delírio, não é desbunde (como se dizia naquela época). É verdade, com certificado de autenticidade e tudo. Quem garante é Geoff Emerick, engenheiro de som dos Beatles em boa parte de seus álbuns. A prova está na página 340 de seu livro Here, There and Everywhere e no último verso da canção, um pouquinho antes de começar os na na na). Há um palavrão em Hey Jude. Um palavrão feio pronunciado por Paul McCartney, meio longe do microfone. Há quem jure que o palavrão foi dito por John Lennon, mas foi Paul.

Partidário do bom jornalismo e desconfiando sempre das primeiras versões, Sonoridades armou-se de alguma tecnologia e foi ouvir palavra por palavra de Hey Jude. Bingo! Lá está. No último verso, imediatamente antes do coro, ouve-se um Paul McCartney praguejante, soltando um mal educado f***ing hell! Teria errado uma nota num acorde de piano. O palavrão está em volume bem baixo. É quase um flash sonoro, mas suficientemente audível para quem se dispuser a ouvi-lo. Foi deixado de propósito na gravação final, com a cumplicidade de John Lennon.

Os Beatles e George Martin: apesar dos sorrisos, clima era de tensão.

Os Beatles e George Martin: apesar dos sorrisos, clima era de tensão.

Brigas e biscoito – Emerick conta a história. Segundo ele, o clima entre os quatro Beatles não poderia estar pior durante as gravações do Álbum Branco. Brigas, egos inflados, cada um por si. John e Yoko haviam sofrido um acidente de carro na Escócia e, convalescente, a namorada do beatle foi acomodada em uma cama de casal instalada no meio do estúdio de gravação, em Abbey Road. Nada mais constrangedor.

Os ânimos estavam de tal maneira exaltados que George Harrison, tido como o “beatle quieto”, num certo momento, teve uma rara explosão de raiva. Os Beatles estavam na sala de controle, situada em um cômodo superior, de onde era possível ver o estúdio abaixo. De repente, de olhos arregalados, Harrison grita: “Essa vadia”. Pela janela de vidro o beatle viu Yoko levantar-se da cama, caminhar até seu amplificador, pegar seu pacote de biscoitos digestivos, abri-lo, tirar um e voltar comendo para a cama.

Yoko Ono em cama instalada no estúdio onde os Beatles gravavam o Álbum Branco.

Yoko Ono em cama instalada no estúdio onde os Beatles gravavam o Álbum Branco.

A explosão de Harrison, zeloso de seus biscoitos, gerou imediata reação de Lennon em defesa da namorada. Para Harrison, se Yoko podia sair da cama e roubar-lhe um biscoito, poderia também levantar-se de vez e ir com sua cama para longe de Abbey Road. Como se vê, não eram tempos fáceis para ninguém. Cansado de tanta desavença, Emerick jogou a toalha e abandonou o posto de engenheiro de som da banda.

Desastre técnico – Semanas depois, de volta aos estúdios, o engenheiro, agora trabalhando no turno diurno, ou seja, longe dos Beatles, que varavam madrugadas, cruzou com o produtor George Martin num dos corredores da gravadora. “Geoff, você pode me fazer um favor”? Antes que pudesse dar uma resposta, o técnico foi levado até a pequena sala de controle. Ao entrar, Emerick viu os quatro beatles atônitos em torno da mesa de som e um outro engenheiro tentando salvar uma música nova de Paul. Era Hey Jude. A gravação original havia sido feita no Trident Studios e estava um desastre técnico. George Martin queria que Emerick salvasse a canção.

Ouça Hey Jude. Aos 2 minutos e 58 segundos da gravação, o palavrão: baixo volume, quase um flash sonoro.

Paul McCartney sempre disse que 'Hey Jude' foi composta para consolar Julian Lennon, filho de John com Cynthia, que haviam se divorciado. O título original era Hey Jules, depois alterado para Hey Jude).

Paul McCartney sempre disse que ‘Hey Jude’ foi composta para consolar Julian Lennon (em seu colo), filho de John com Cynthia, que haviam se divorciado. O título original era ‘Hey Jules’, depois alterado para ‘Hey Jude’.

“Está lá “ – Foi uma tarefa árdua. No trabalho final de mixagem da gravação, no último verso da música, pôde-se ouvir claramente Paul praguejando fora do microfone: f***ing hell, para delírio de John Lennon. John Smith, técnico da EMI lembra-se: “Paul havia errado no piano e disse um palavrão”. Lennon insistiu em manter o palavrão ali mesmo onde estava, só que em volume bem mais baixo. “A maioria das pessoas nunca perceberá, mas nós saberemos que está lá”, argumentou o beatle.

Quem estiver curioso, tiver tempo e paciência é só colocar o disco para tocar. Quem conseguir ouvir não receberá prêmios, sua vida não vai mudar e tudo seguirá como sempre seguiu. Terá apenas testemunhado mais uma história do rock.

Vai encarar?

 

 

 

 

 

 

 

 

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