Há meio século, Rubber Soul exibia evolução musical dos Beatles.

Há meio século, Rubber Soul exibia evolução musical dos Beatles.

Há meio século, no dia 3 de dezembro, os Beatles lançavam o álbum Rubber Soul. Muitas publicações já fizeram merecidas reverências ao disco. Por isso, Sonoridades vai dar um pouco mais de destaque a algumas historinhas paralelas, mas, nem por isso, desinteressantes. Vamos a elas.

Carlos de Oliveira

07 de dezembro de 2015 | 19h48

No dia 3 de dezembro os Beatles lançaram seu sexto álbum. A músicas são instigantes, diferentes de todas as anteriores. Guitarras mais distorcidas. Belas linhas de baixo. Letras mais maduras, apesar de uma ou outra silly love song e de uma inequívoca manifestação de machismo violento em Run For Your Life. Seja como for, o álbum aponta para uma nova fase da banda inglesa. Tudo indica que a fase infantil dos rapazes de Liverpool acabou.

Quer dizer que os Beatles estão de disco novo? Claro que não. No último dia 3, esse “novo álbum” completou 50 anos. Foi lançado em 1965. Meio século atrás. Mesmo assim, e e continua novo em folha, com a mesma força e carga melódica. Rubber Soul é o nome dele.

A foto original da capa de Rubber Soul, clicada pelo fotógrafo Robert Freeman, em 1965.

A foto original da capa de Rubber Soul, clicada pelo fotógrafo Robert Freeman, em 1965.

A capa de Rubber Soul. Imagem levemente distorcida, sem o nome da banda.

A capa de Rubber Soul. Imagem distorcida.

Historinhas – Muito se falou sobre o álbum nestes últimos dias de 2015. Várias publicações fizeram merecidas reverências a Rubber Soul. Por isso, Sonoridades tentará não ser repetitivo. Até porque há historinhas paralelas muito interessantes a respeito do disco e vale a pena contá-las, a começar pelo título. E o que uma Alma de Borracha tem a ver com aquela fase do pop?  Pois tem muito.

A história oficial diz que tudo começou quando  fotógrafo Robert Freeman exibia uma série de slides com propostas de capa para o novo álbum. Ele fazia a projeção sobre uma cartolina branca recortada no tamanho exato dos antigos LPs. Ao exibir uma das fotos tiradas no jardim da casa de John Lennon, a tal cartolina que servia de tela desprendeu-se e ficou torta. Torta também ficou a projeção. Estava definida a capa. Uma fotografia colorida, levemente distorcida, dos quatro beatles. Nascia Rubber Soul.

“Invasão” – Mas há uma outra explicação mais “científica”, digamos. O pop vivia o auge da chamada ‘invasão britânica’, movimento que levou um imenso número de bandas britânicas ao mercado norte-americano. Beatles, Rolling Stones, Animals, Who, Troggs, Kinks, Dave Clark Five, Gerry & The Pacemakers e muitas outras.

Eram bandas britânicas, mas tocavam música tipicamente americana, inspirada em Elvis, em Chuck Berry, em Bill Halley, mas não apenas neles. Florescia nos Estados Unidos um novo gênero, nascido do gênio musical negro. Nomes como Marvin Gay, Diana Ross, Aretha Franklin, Otis Redding e Al Green, entre tantos outros, cantavam a soul music ou apenas soul.

Funcionárias da gravadora dos Beatles embalam o álbum Rubber Soul.

Funcionárias embalam o álbum Rubber Soul.

Alma de plástico – A musica negra americana, especialmente o blues, era a maior inspiração dos Rolling Stones. Com o soul não foi diferente. O Stones chegaram  gravar um dos mais populares hinos desse movimento: My Girl, composta por Smokey Robinson e Ronald White e lançada em 21 de dezembro de 1964, na interpretação do grupo vocal The Temptations.

Mick Jagger foi tão convincente em sua interpretação, que sua forma de cantar My Girl foi apelidada, maldosa ou jocosamente, de plastic soul ou alma de plástico. Não era o soul puro, negro, americano, mas uma versão com sotaque inglês. A expressão pegou e foi estendida a todas as musicas que, entre 1964 e 1966, marcaram a ‘invasão britânica’, Beatles incluídos nesse pacote.

Novo caminho – Como a carapuça serviu aos Beatles, Paul McCartney se apropriou do apelido de Jagger e dourou a pílula. Quis mostrar que os Beatles haviam entendido o recado do soul e que, não como plástico, como farsa, a banda acatava o novo gênero. Deram-se bem. Rubber Soul mostrou um novo caminho para os Beatles, que pouco tempo depois lançariam Revolver e Sgt. Pepper.

Rubber Soul ultrapassou a fase dos amores idealizados e passou a questionar amores reais. Em I’m Looking Through You Paul disse que estava olhando através de alguém que havia mudando. Esse alguém era Jane Asher, sua namorada naquela altura. A mesma Jane não atendia seus telefonemas, uma queixa explícita em You Won’t See Me.

Disco passa por controle de qualidade.

Disco passa por controle de qualidade.

Tema delicado – Um  suposto caso de adultério foi abordado por John em Norwegian Wood. Tema delicado e bastante incomum na música pop, há meio século. Na mesma canção, George Harrison usou pela primeira vez uma cítara indiana, prenúncio de seu mergulho nos mistérios védicos.

Claro, há uma nota fora de tom no disco. Uma canção machista de Lennon, na qual ele afirma que prefere ver a namorada morta a vê-la com outro homem. É melhor você correr por sua vida enquanto pode/se eu te pegar com outro homem será o fim. Nada mais patético.

Capas – O saldo de Rubber Soul, porém, é positivo. Pode não ter empolgado logo de cara, mas depois de algum tempo foi um sucesso. Para concluir, vale falar um pouco sobre o fotógrafo Robert Freeman. Ele era o preferido dos Beatles, tanto que produziu as capas de quatro discos anteriores da banda, a saber With The Beatles, A Hard Day’s Night, Beatles For Sale e Help!.

O fotógrafo Robert Freeman, o preferido dos Beatles, autor da foto de

O fotógrafo Robert Freeman.

A capa de With The Beatles.

A capa de With The Beatles.

A capa de A Hard Day's Night.

A capa de A Hard Day’s Night.

A capa de Beatles For Sale.

A capa de Beatles For Sale.

A capa de Help!

A capa de Help!

Curioso é que na capa de Help!, os gestos dos quatro beatles não correspondem à palavra help (socorro) na linguagem de sinais. Se essa linguagem fosse observada, a estética da fotografia não ficaria boa, segundo Freeman.

A palavra Help, na linguagem dos sinais, diferente dos gestos dos quatro beatles na capa do álbum Help!

Help, na linguagem dos sinais.

Só rostos – Ao contrário das capas anteriores, a de Rubber Soul não estampava o nome da banda. Supunha-se, com razão, que os rostos dos quatro músicos já eram suficientemente conhecidos.

Jaqueta de camurça marrom, usado por John Lennon na capa de Rubber Soul: US$ 359, mais taxas.

Jaqueta de John Lennon: US$ 359.

Jaqueta – Uma outra curiosidade. Não foram apenas as músicas que fizeram o sucesso de Rubber Soul. A jaqueta de camurça castanha usada por John Lennon na foto virou objeto de desejo e até hoje é procurada em lojas especializadas. Pelo site www.beatlesuit.com é possível encomendar uma réplica da jaqueta por US$ 359 (cerca de R$ 1.350), sem contar as taxas de correio e eventuais impostos.

Aos beatlemaníacos com B maiúsculo fica a sugestão da jaqueta, de preço nada acessível em tempos de crise. Mais interessante, talvez, seja ouvir Rubber Soul e constatar que há meio século os Beatles fizeram música para ser apreciada a qualquer tempo.

Ouçam o álbum Rubber Soul:

 

 

 

 

 

 

 

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