Há 60 anos, Elvis enfurecia os quadris e a América puritana.

Há 60 anos, Elvis enfurecia os quadris e a América puritana.

Carlos de Oliveira

10 de junho de 2016 | 12h56

Acaba de fazer 60 anos que Elvis Presley enlouqueceu dois tipos de público com seu rebolado frenético: os jovens americanos, que aprovaram sua dança sensual, e a imprensa conservadora,  que viu nela um sinal de degradação da sociedade dos Estados Unidos. Naquele junho de 1956, uma música boba chamada Hound Dog (que pode ser simples sinônimo de cachorro – mas também de canalha ou coisa do tipo – deu um grande impulso na carreira do cantor, então com apenas 21 anos. Viveria mais 21 e morreria com 42. Será? Talvez nem tenha morrido.

De pé, em frente a um microfone preso ao pedestal, um jovem Elvis Presley , com apenas 21 anos, sem seu tradicional violão Martin D-28. Atrás dele, uma banda modesta, mas competente: Scotty Moore com sua enorme guitarra Gibson L-5, Bill Black no contrabaixo e D. J. Fontana na bateria. O local é Los Angeles. O dia, 5 de junho de 1956. A emissora de TV é a NBC e o programa é o Milton Berle Show, de alcance nacional. Dois minutos e trinta segundos depois, quem gostava de Elvis passaria a amá-lo. Quem não gostava, passaria a odiá-lo.

Elvis Presley no Milton Berle Show, em 5 de junho de 1956: quadris em fúria.

Elvis Presley no Milton Berle Show, em 5 de junho de 1956: quadris em fúria.

A América profunda e puritana da época, não muito diferente da atual, mostraria seus dentes ao que chamou de apresentação escandalosa, para dizer o mínimo. Já os mais jovens viram em Elvis não apenas uma estrela em ascensão, mas algo que o público branco poderia consumir sem correr o risco de ferir a odiosa e arraigada cultura do preconceito e do racismo. Um ano antes, em 1955, o genial Litlle Richard já havia gravado Tutti-Frutti, um dos hinos mais conhecidos do rock’n’roll.
Fiasco – A história, para ter um ponto de partida, começou em abril de 1956, durante uma excursão de duas semanas, com apresentações de Elvis e sua banda no salão Venus do Frontier Hotel. Nada mais decepcionante. O garoto nascido em Tupelo, no Mississippi, não agradou e foi considerado um fiasco pelo público e pela crítica locais. Decidiu, então, ver o que se passava em outros hotéis.
Em um deles, entusiasmou-se com Freddie Bell and the Bell Boys e a versão que a banda deu à música Hound Dog, composta por Jerry Leiber e Mike Stoller e gravada por Willa Mae “Big Mama” Thornton e sua voz poderosa, em 1952. A letra original fora modificada e Elvis achou que ali estava uma boa canção para fazer sucesso. A tal música, a bem da verdade, bem bobinha, ficou na cabeça de Elvis.

Freddie Bell and the Bell Boys: inspiração para Elvis.

Freddie Bell and the Bell Boys: inspiração para Elvis.

40 milhões – Terminada a turnê, ele incorporou a canção a seu road show e entre os dias 13 de maio e 3 de junho fez 17 apresentações pelo país. Em 4 de junho a banda chegou a Los Angeles onde ensaiaria para, no dia seguinte, apresentar-se no Milton Berle Show. Grande expectativa, uma grande oportunidade já que o programa de televisão tinha uma audiência estimada em 40 milhões de espectadores.
No dia 5 de junho, às 20h, Elvis e sua banda entram no palco e começam a tocar Hound Dog. Algo está diferente. O cantor está sem seu violão de sempre, o belo Martin D-28 com capa de couro. Ordens de Milton Berle. “Filho, quero que todos te vejam”, disse. De pé, apenas com o microfone e a irreverência de seus 21 anos, Elvis arrasou. Chacoalhou o corpo de todas as maneiras, em todas as direções. Torceu os quadris, agitou os braços. No dia seguinte foi idolatrado (pelos jovens). E massacrado (pela imprensa conservadora e por pais horrorizados).
Veja Elvis no Milton Berle Show, cantando Hound Dog, em junho de 1956:

Veja a versão original de Hound Dog, com ‘Big Mama’ Thornton, gravada em 1952:

Nos jornais – Uma pesquisa rápida nos jornais da época e sites especializados mostra bem esse massacre.

Vamos a ele:

“O senhor Presley não tem grande talento para cantar. Para os ouvidos ele é aborrecido. Sua única especialidade é um forte movimento de corpo só apoiado por um grupo de loiras em um espetáculo burlesco.” (The New York Times).

 

“Ele compensa as deficiências vocais com a mais estranha interpretação de uma dança de acasalamento indígena. Uma exibição de movimento físico primitivo difícil de descrever em termos apropriados em um jornal de família”. (New York Journal).

 

“Ele deu uma exibição sugestiva e vulgar, pintada de um tipo de animalismo que deveria ficar confinado a bordéis.” (The New York Daily News).

 

“Cuidado com Elvis Presley.” (America, um semanário católico).

 

The Pelvis – Como se vê, tinha tudo para dar errado, mas o fato é que a apresentação no Milton Berle Show impulsionou a carreira de Elvis Presley. Agora, ele seria conhecido também como The Pelvis. Elvis, The Pelvis. Quase um mês depois, em 1º de julho de 1956, outra apresentação em rede nacional, desta vez no Steve Allen Show.

 

Avesso a tudo o que fosse ligado ao rock, Allen apresentou a seu público “um novo Elvis”. O cantor entrou vestindo fraque, cartola, luvas e gravatas brancas e seu violão Martin, manequim bem diferente do exibido no Milton Berle Show

 

Sherlock – O melhor (ou pior) ainda estava por vir. Elvis cantou a primeira canção, a romântica I Want You, I Need You, I Love You. Logo em seguida, Allen surge com um cachorro basset hound de nome Sherlock sentado sobre uma mesinhae com uma cartolinha na cabeça. Era a deixa para que Elvis cantasse Hound Dog. E Elvis cantou o tempo todo para o cachorro. “Foi meu momento mais embaraçoso”, diria Elvis mais tarde.

 

Veja Elvis, de fraque, cantando para o cachorro Sherlock, no Steve Allen Show:

 

Controvérsias – De nada adiantou Allen tentar ridicularizar o cantor. No dia seguinte, Elvis finalmente gravou a canção nos estúdios da RCA. Depois de 31 takes, a melhor versão foi escolhida e o disco single foi finalmente prensado. A outra música era Don’t Be Cruel.

 

Demorou um pouco, mas as duas canções subiram ao primeiro lugar nas paradas americanas e Hound Dog tornou-se a música de encerramento de seus shows nos 21 anos seguintes. Elvis morreu precocemente aos 42 anos, consumido pelas drogas. Morreu mesmo? Há controvérsias.

PS. Em Em 1994, o cineasta Robert Zemicks “descobriu” a origem do requebrado frenético do jovem Elvis. Ele foi descaradamente copiado de um menino desajeitado do Alabama chamado Forrest Gump, como pode ser facilmente comprovado em filme de mesmo nome.