Há 40 anos, o Steely Dan entrava em estúdio para gravar Aja, uma obra-prima indiferente ao tempo.

Há 40 anos, o Steely Dan entrava em estúdio para gravar Aja, uma obra-prima indiferente ao tempo.

Faz já 40 anos que Donald Fagen e Walter Becker, dois rapazes de Nova York, entraram nos estúdios do Village Recorder, em Los Angeles, para dar início às gravações do álbum mais importante do Steely Dan: Aja. A banda, que por falta de melhor definição de seu estilo musical, toca jazz/rock, é, na realidade essa dupla de perfeccionistas que enlouquece os técnicos de gravação e os muitos músicos de apoio, contratados ao sabor das necessidades de cada composição. Exigem nada mais do que a perfeição. Na ativa até hoje, Fagen e Becker, já a caminho dos 70 anos, mantém a agenda de compromissos do Dan sempre cheia. Estudados, mestres em músicas, tiraram o nome da banda do romance Naked Lunch, de William S. Burroughs, publicado em 1959. Steely Dan é um brinquedo sexual.

Carlos de Oliveira

02 Janeiro 2017 | 11h49

Há exatamente 40 anos, em Los Angeles, Califórnia, dois músicos estranhos, soturnos, sarcásticos, arrogantes, exigentes e donos de um senso de humor muito próprio entravam em estúdio para dar início às sessões de gravação de seu álbum mais festejado. Seria o sexto da dupla que começara como uma banda bem maior.

Aos poucos, talvez por causa de suas esquisitices, sobraram apenas Donald Fagen e Walter Becker. Do antigo grupo conservaram o bizarro nome: Steely Dan. A missão: gravar Aja, um disco com apenas sete músicas que se esgotam em somente 39 minutos e 58 segundos. Cada nota em seu lugar, versos de rara inteligência. Não esperem historinhas  bobas, boys & girls in love ou finais felizes. O humor é cru e muitas vezes não vai além de um esboço de sorriso. Às vezes um soluço explode na garganta.

Capa do álbum Aja, do Steely Dan, de 1977. Obra-prima da banda americana, que começou a ser gravado em janeiro daquele ano.

Capa do álbum Aja, do Steely Dan, de 1977. Obra-prima da banda norte-americana, que começou a ser gravado em janeiro daquele ano.

O Steely Dan no início dos anos 70, quando a banda era formada por cinco músicos.

O Steely Dan no início dos anos 70, quando a banda era formada por cinco músicos.

Walter Becker (esq) e Donald Fagen em 1977, durante as gravações de Aja.

Walter Becker (esq) e Donald Fagen em 1977, durante as gravações de Aja.

Donald Fagen e Walter Becker e foto recente.

Donald Fagen e Walter Becker já perto dos 70 anos, em foto recente.

Para a empreitada, Fagen e Becker contrataram um grande grupo de músicos e deles exigiram o máximo e um pouco mais. Lá estavam, entre outros, os guitarristas Larry Carlton e Danny Dias, os bateristas Steve Gadd e Jim Keltner, o saxofonista Wayne Shorter e o cantor Michael McDonald.

Faltava saber o que significava a palavra Aja. Alguém, alguma coisa? Fagen explicou. Aja era o nome de uma coreana casada com o irmão de um de seus amigos da escola secundária. A mulher perfeita idealizada por um Fagen adolescente. Na foto da capa do disco a modelo japonesa Sayoko Yamaguchi.

Perfeccionistas – Foram nove meses de trabalho árduo, quase neurótico, até o lançamento do álbum em 23 de setembro de 1977. Fagen e Becker enlouqueceram os músicos e as equipes do estúdio com seu perfeccionismo louco e inegociável.

O resultado foi um álbum à frente de seu tempo, atual até hoje, tanto do ponto de vista técnico das gravações quanto do nível musical. Um disco de rock ou de jazz/fusion, jazz/rock, blues/jazz, blues/rock, white funk, blue eyed soul ou tenha esse estilo o nome que tiver. A verdade é que ninguém participou da construção de Aja impunemente.

Lenise xxxxx, engenheira-assistente, quis abandonar gravações.

Lenise Bent, engenheira-assistente de som, quis abandonar gravações.

Seis horas, duas palavras – Numa das várias madrugadas passadas em claro, a engenheira-assistente de som Lenise Bent entrou na sala de Dick LaPalm, um dos executivos do estúdio Village Recorder, e entregou os pontos.

_ Dick, preciso conversar com você, disse.

Debruçada sobre a mesa, Lenise continuou.

Well-the, well-the, well-the…

_  Sobre o que você está falando?

_  Dick, eu tenho de cair fora das gravações de Aja. Eles estão trabalhando há seis horas nas palavras “well, the”, da música Home At Last. Tudo o que eles fizeram até agora foi trabalhar sobre essas duas palavras só para encontrar o melhor som. Eu realmente tenho de deixar as gravações de Aja.

Dick LaPalm deixou Lenise livre para decidir, disse que arrumaria outra engenheira-assistente, mas que ela deveria ficar, porque o disco seria um grande sucesso e que ela teria seu nome creditado nele. Lenise pensou por alguns instantes e resolveu ficar.

O disco foi um sucesso enorme. Chegou ao terceiro lugar nas paradas americanas e ao quinto no Reino Unido. Foram vendidas cinco milhões de cópias e Aja ganhou o Grammy de melhor gravação não clássica em 1978. Em “Os 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos”, da revista Rolling Stone, Aja está no 145º lugar. Em 2010, a Library of Congress incluiu Aja no United States Recording Registry, com base em sua importância cultural, artística e histórica.

Ouça a música Aja, do álbum de mesmo nome, que o Steely Dan começou a gravar em janeiro de 1977. O solo de sax tenor é de Wayne Shorter:

Os estúdios Village Recorder, em Los Angeles, onde o Steely Dan gravou o álbum Aja.

Os estúdios Village Recorder, em Los Angeles, onde o Steely Dan gravou o álbum Aja.

Wayne Shorter – Donald Fagen e Walter Becker só não enlouqueceram um músico: o saxofonista Wayne Shorter, um nome já consagrado do jazz, tendo tocado com Miles Davis de 1964 a 1970. Fagen e Becker sonhavam com um solo de Shorter na faixa título do disco. Falaram com o produtor Gary Katz e este com Dick LaPalm, amigo de Shorter. O estúdio Village Recorder era, por sua vez, famoso e já havia recebido bandas famosas do rock como os Rolling Stones, o Fleetwood Mac e o Supertramp. Um telefonema talvez convencesse Shorter a aceitar o convite .

Wayne Shorter em foto de 1977. Hoje o saxofonista está com 80 anos.

Wayne Shorter em foto de 1977. Hoje o saxofonista está com 80 anos.

O famoso saxofonista certamente não conhecia o Steely Dan. Por isso, a conversa ao telefone foi, até certo ponto, engraçada:

_ Wayne, você estaria disponível para dar um pulo até o Village Recorder e gravar um overdub esta semana no estúdio A? É onde gravamos nossos melhores artistas.

_ Qual é o grupo?

_  Não me lembro, mas você vai adorar a música.

Quando?

_ Você escolhe.

_ Que tal sexta-feira à 1h da manhã?

_ Fechado.

Ao contrário das usuais e descuidadas camisetas, naquela noite de sexta-feira Donald Fagen vestia uma elegante camisa branca com listras azuis. Na hora marcada, Shorter chegou, mas não foi logo apresentado à dupla Fagen e Becker. Discretamente, o saxofonista dirigiu-se a LaPalm e perguntou:

_ Posso ouvir a música?

LaPalm levou-o ao estúdio C, onde Shorter ouviu Aja com atenção e inteirou-se dos compassos reservados a seu solo. Voltaram ao estúdio A e foi finalmente apresentado a Fagen, Becker e demais músicos e técnicos. Pegou seu sax tenor e depois de apenas seis passagens, ao longo de 35 minutos concluiu sua participação. Cada uma das notas emitidas por Shorter foi aproveitada na edição final da música, segunda faixa do álbum.

Anos depois, entrevistado para um documentário sobre o making of de Aja, Wayne Shorter confessou que conversou com Miles Davis pouco antes de aceitar fazer o solo e recebeu um conselho.

_ Vá, mas não dê muito a eles.

Ouça Deacon Blues, que faz parte do álbum Aja, de 1977:

Sucesso e plágio – De lá para cá, o Steely Dan é cultuado como a grande banda do jazz/rock, ainda que a cada apresentação ou a cada disco seus integrantes mudem ao sabor da preferência de Fagen e Becker, seus fundadores e membros cativos. É bom lembrar, porém, que Fagen teve de enfrentar, e perdeu, um processo por plágio: a introdução em piano e sax da música Gaucho, de 1980, é perturbadoramente semelhante a  Long As You Know You’re Living Yours, de Keith Jarret, lançada em 1974. Fagen perdeu a causa e Jarret passou a ser co-autor da música.

O talento de Donald Fagen e Walter Becker, porém não chegou a ser arranhado e extravasou os limites do Steely Dan. Ambos têm carreiras solo, com obras de muito bom gosto. Em 1980, Fagen lançou The Night Fly, uma quase ópera na qual confirma sua nostalgia pelos anos 50. Em 1993, lançou o álbum Kamakiriad, um fantástico carro com o qual fez uma longa viagem musical por lugares de noites geladas, pinheiros risonhos, praias ensolaradas e dunas de solidão.  Em 2006, ainda sofrendo com a paranoia imposta pelo atentado contra as Torres Gêmeas, apresentou Morf the Cat. Seis anos depois, lançou Sunken Condos, sua mais recente produção. A carreira solo de Walter Becker é mais modesta. Em 1994, lançou 11 Tracks of Whack. Em 2008, Circus Money.

Agenda cheia – O Steely Dan foi formado oficialmente em 1972, em Nova York, com Fagen, Becker e Denny Dias, um guitarrista de incrível velocidade nos dedos. Juntaram-se a eles Jeff  “Skunk” Baxter, David Palmer e Jim Hodder e gravaram seu primeiro álbum, Can’t Buy a Thrill. Ao todo, o Steely Dan lançou dez álbuns, o último deles em 2003, intitulado Everything Must Go. Donald Fagen está hoje com 68 anos e Becker com 66. O Steely Dan, conforme informa sua newsletter, continua de agenda cheia.

E caso tenham tempo e/ou interesse, vejam este documentário. Trata-se do making of de Aja, apresentado por Donald Fagen e Walter Becker. As legendas da tradução não são das mais confiáveis, mas vale a pena ver:

P. S. No início do texto foi dito que o nome da banda, Steely Dan, é um tanto bizarro. Ele foi pinçado do livro Naked Lunch (Festim Nu, em Portugal; Almoço Nu, por aqui), de William S. Burroughs, publicado em 1959. Trata-se de um dildo, um brinquedo sexual que aparece de relance no romance de leitura dolorida sobre um certo William Lee, narrador com  várias alcunhas que viveu todos os pesadelos impostos pela droga. No fundo, o próprio Burroughs.