‘Get Back’, a face xenófoba dos Beatles? Não, foi tudo ironia.

‘Get Back’, a face xenófoba dos Beatles? Não, foi tudo ironia.

Um número inesgotável de verdades e lendas ronda a história dos Beatles. Uma delas voltou à tona agora, depois dos recentes atentados terroristas em Paris. Em janeiro de 1969, durante ensaios de 'Get Back' para o álbum e o filme 'Let it Be', Paul McCartney improvisou versos no mínimo xenófobos contra os paquistaneses. Tudo porém, como ele mesmo explicou, não passou de uma ironia contra um discurso racista pronunciado meses antes pelo político conservador Enoch Powell.

Carlos de Oliveira

16 Janeiro 2015 | 11h23

Os atentados terroristas contra o jornal Charlie Hebdo e contra um mercado de comidas judaicas, em Paris, trouxe à tona uma ironia que os Beatles fizeram, em 1969, contra um político inglês xenófobo.

Os atentados terroristas contra o jornal Charlie Hebdo e contra um mercado de comidas judaicas, em Paris, trouxe à tona uma ironia que os Beatles fizeram, em 1969, contra um político inglês xenófobo.

Os últimos dias foram de violenta intolerância. Poucas vezes “o outro” foi tão citado, quer para solidarizar-se quer para condená-lo. Conviver com “o outro” nunca foi tão difícil. Por isso, de repente, quase todo mundo virou Charlie. Dias radicais banhados a sangue, suor e lágrimas. Mas neste espaço fala-se apenas de música. E o que a música tem a ver com a intolerância?

Uma rápida viagem de volta no tempo nos leva àqueles 17 dias de janeiro de 1969, durante os quais os Beatles ensaiaram nada menos do que 59 diferentes versões de Get Back, uma delas com pitadas de intolerância, xenofobia e discriminação racial. Ou tudo não passou de ironia? Vamos aos fatos.

Lennon e McCartney durante as gravações do álbum e do filme Let it Be, em janeiro de 1969: 59 versões de Get Back, uma delas

Lennon e McCartney durante as gravações do álbum e do filme Let it Be, em janeiro de 1969: 59 versões de Get Back, uma delas “xenófoba”.

Os ensaios no Twickenham Studios não iam nada bem. Paul queria que os Beatles voltassem aos velhos tempos e até tocassem ao vivo de novo, como no início da carreira. Ninguém mais, porém, se animava com essa ideia. George Harrison, depois de um desentendimento sobre um riff de guitarra, abandonou a banda por algumas semanas. Foi nesse clima, então, que se deram as primeiras sessões de gravação do álbum e do filme Let it Be.

“Volte – Uma dessas sessões foi a de Get Back que, de certa forma, já nasceu meio preconceituosa, no mínimo agressiva: Get back to where you once belonged… ou algo como volte para o lugar de onde veio.

Pensou-se que a música era uma pequena maldade de Paul McCartney com Yoko Ono, japonesa, a mulher de John Lennon. Os experts em Beatles da época garantiam que no filme Let it Be Paul cantava o refrão da música olhando diretamente para Yoko. Esqueceram-se, porém, de dizer que num dos ensaios anteriores, ainda nas suas versões provisórias, Paul cantou Get Back de maneira bem mais ofensiva. Não a Yoko Ono, mas aos paquistaneses, sobrando até para porto-riquenhos.

O texto – Durante o ensaio (não registrado em vídeo, apenas áudio), Paul canta os seguintes versos:

Don’t dig no Pakistanis, taking all the people jobs…

Get back to where you once belonged… 

E foi em frente em seu improviso:

(…) was a Puerto Rican working in another world.

Want it thrown around, Say Puerto Rican, livin’ in the USA.

Get back…

Get back…

Back to where you once belonged… 

Pretty Ado Lamb was a pakistani living in another world,

Want it thrown around, don’t dig no pakistanis taking all the people jobs.

Get back…

Get back…

Back to where you once belonged…

Numa tradução livre, os versos significam:

Não curta os paquistaneses, que tiram os empregos de todo mundo.

Volte para o lugar de onde veio.

 (…) era um porto-riquenho trabalhando em outro mundo.

Quer se livrar dele, diga porto-riquenho nos Estados Unidos.

Volte para o lugar de onde você veio.

Belo Ado Lamb era um paquistanês vivendo em um outro mundo.

Quer se livrar dele, não curta paquistaneses que tiram os empregos de todo mundo.

Volte para o lugar de onde você veio.

Fora de contexto, os versos são xenófobos, racistas, intolerantes, de muito mau gosto.

Ouçam a gravação do ensaio:

O contexto – No dia 20 de abril de 1968, ou seja, nove meses antes das gravações de Let it Be, e, consequentemente, da versão ‘xenófoba’ de Get Back , o ex-ministro da Saúde Enoch Powell, do Partido Conservador no Parlamento Britânico, que na época ocupava o cargo de Shadow Defence Secretary, faz um longo (e, para muitos, odioso) discurso contra a onda de imigração que, segundo ele, ameaçava a Grã-Bretanha.

Enoch Powell, político conservador inglês que em 1968 proferiu discurso contra a imigração da Grã-Bretanha.

Enoch Powell, político conservador inglês que em 1968 proferiu discurso contra a imigração da Grã-Bretanha.

O discurso de Powell chegou a atrair muitos adeptos, uma parcela da população inglesa contraria às políticas de imigração da época. Houve quem propusesse Powell para primeiro-ministro.

O discurso de Powell chegou a atrair muitos adeptos, uma parcela da população inglesa contraria às políticas de imigração da época. Houve quem propusesse Powell para primeiro-ministro.

Não faltaram manifestações favoráveis ao discurso xenófobo pronunciado por Enoch Powell.

Não faltaram manifestações favoráveis ao discurso xenófobo pronunciado por Enoch Powell.

O libelo racista recebeu o nome de Rio de Sangue, embora essa expressão não constasse do texto lido por Powell.  Na verdade, o título foi dado à revelia, numa referência à Eneida, do poeta latino Virgílio.

Demitido – Foi um pronunciamento que chocou os mais liberais, mas o suficiente para gerar uma onda de manifestações de caráter racista no Reino Unido. Houve confusão, gente contra, gente a favor e, no fim, Enoch Powell foi demitido de seu cargo.

Ouça a versão oficial de Get Back, em cenas do filme Let it Be, com a participação de Billy Preston no teclado:

Defesa – A bem da verdade, a versão ‘xenófoba’ de Get Back foi comentada posteriormente por Paul McCartney, que a chamou de “uma ironia contra os racistas”. A favor de seu argumento, vale lembrar que dias antes os Beatles estavam trabalhando (mas acabaram abandonando) uma canção chamada Commonwealth, em protesto contra uma proposta do Partido Conservador de limitar o súbito afluxo para a Inglaterra de milhares de imigrantes indianos e paquistaneses aos quais havia sido negado o direito de trabalhar no Quênia, uma ex-colônia britânica.

Imagine – A reputação dos Beatles estava, finalmente, salva. O tema só voltou à pauta agora, depois dos atentados em Paris, quando, mais uma vez, ficou evidenciado o radicalismo de certas interpretações do Islã, o racismo e os riscos de quaisquer outras radicalizações. Talvez uma simples música pudesse ter evitado isso tudo. Em  Imagine, John Lennon vislumbrou um mundo sem religiões.

Era mesmo um sonhador.