George Harrison, o beatle ‘café-com-leite’

George Harrison, o beatle ‘café-com-leite’

Os cabelos estavam muito longos, no meio das costas. Com a barba comprida, em novembro 1970 George Harrison mais parecia um guru indiano. E havia um motivo para isso. Com a religiosidade à flor da pele, George estava prestes a lançar seu primeiro álbum solo, o primeiro de um ex-beatle, repleto de louvor a Deus e de compaixão. "All Things Must Pass" causou grande impacto ao sair. Acondicionados em uma caixa de papelão ilustrada, três LPs, fotos e as letras das canções. Pela primeira vez, George daria vazão a músicas vetadas por Lennon e McCartney durante seu tempo de beatle. Seu indiscutível talento sempre foi podado. O beatle quieto também foi um beatle preterido, meio 'café-com-leite'.

Carlos de Oliveira

24 de outubro de 2014 | 15h53

George Harrison exibe seu primeiro álbum solo, All Things Must Pass, lançado em novembro de 1970.

Ele nem era mau compositor. No início, lá por 62/63, suas músicas bobinhas não eram piores do que as músicas bobinhas de Lennon e McCartney. Baby, baby daqui, I love you dali. Historinhas de amores correspondidos, não correspondidos, remediados, menino triste, menina má e vice-versa. Nada que pudesse comprometer ou diminuir o jovem George Harrison, o mais novo da banda.

O fato, porém, é que, além de beatle triste ou quieto, como se costumava chamá-lo, ele era também o beatle preterido. E foi assim até o fim do grupo, em 1970, quando o eclipsado George emergiu de seu talento e disse a que veio. No próximo dia 30 de novembro, seu álbum All Things Must Pass completa 44 anos e continua atualíssimo. Só não precisava, talvez, das longas faixas de jam session. Mas tudo bem.

Barragem – Lançado em alto estilo poucas semanas depois da separação da banda, foi o primeiro álbum solo de um beatle. E inovou o mercado fonográfico da época, com três LPs, encartes, letras, fotos e, sobretudo, uma grande surpresa musical. Vinha à tona uma sensibilidade até então intuída, mas nunca revelada. O maior volume de sua produção como compositor estava represado por uma barragem intransponível formada por Paul e John, que até o fim travaram uma batalha de egos na qual George não apostava suas armas.

O beatle triste era uma espécie de coadjuvante involuntário, mas conformado. Essa situação ficou evidenciada no filme Let It Be, mais especialmente na cena em que ele e Paul têm uma discussão contida, mas firme, por causa de um riff de guitarra em I’ve Got a Feeling. Paul deixava claro que George estava tocando errado, que não estava fazendo o que ele queria.

“Chamem Clapton” – Resignado, George respondeu que faria tudo o que Paul quisesse. “Eu não me importo. Toco o que você quiser. Se não quiser, não toco nada”, disse, dando a entender que pouco ligava para o resultado da gravação e com o seu destino numa banda já moribunda. E, de fato, não estava interessado. Levantou-se, foi embora e não apareceu para gravar nos dias seguintes.

A reação de John Lennon foi radical. “Se George não voltar até segunda ou terça-feira (13 e 14 de janeiro de 1969), chamamos Eric Clapton para tocar”. George voltou e o álbum Let it Be foi concluído com uma música sua incluída no lado A. Na letra de I, Me, Mine, um sugestivo grito de auto afirmação e um desabafo contra os egoísmos.

Veja a resposta de George a Paul e ouça I, Me, Mine:

 

 

Sem grife – A essa altura, George já trabalhava forte na produção de seu álbum solo, recheado de composições recusadas por Paul e John, consideradas fracas demais para figurar com a grife The Beatles. A amizade com seu ídolo Bob Dylan resultou na parceria em I’d Have You Anytime, música que abre All Things Must Pass. Críticos da época interpretaram essa parceria como uma resposta de George aos anos de ostracismo musical. Se os Beatles não o queriam como parceiro, Dylan, um paradigma para John e Paul, pensava diferente. Anos depois, essa parceria culminaria no Traveling Wilburys, o supergrupo formado por George Harrison, Jeff Lynne, Roy Orbison, Bob Dylan e Tom Petty.

Ao longo dos últimos 44 anos, a capa do álbum foi sendo alterada, registrando a passagem do tempo com montagens interessantes e engraçadas.

All Things Must Pass foi esperado com grande expectativa, já que a responsabilidade de George era enorme. E ele não decepcionou.

Apesar de um processo por plágio, My Sweet Lord foi um sucesso imediato. O álbum triplo reforçou a religiosidade, o lado místico e, às vezes, fatalista, do já então ex-beatle. Aqui e ali, porém, uma evidente pontinha de mágoa. Isn’t it a Pity lamenta a forma como as pessoas se magoam, causam dor umas nas outras. Em Wah-Wah, o aviso de que não precisava do choro de ninguém. If Not For You é uma declaração de amor escrita por Bob Dylan.  A faixa All Things Must Pass é, em certa medida, uma chance ao otimismo.

George em estúdio, nas gravações de All Things Must Pass.

Sempre atual – Depois de 44 anos, vale a pena voltar ao álbum e constatar sua atualidade. Os arranjos são grandiosos e muito se deve ao produtor Harvey Phillip Spector, ou apenas Phil Spector, um nova-iorquino do Bronx, meio gênio, meio louco, que hoje cumpre pena pelo assassinato de Lana Clarkson, uma atriz de filmes B em Hollywood.

Tiro – No dia 3 de fevereiro de 2003, Lana foi atingida por um tiro na boca e caiu morta na entrada da mansão de Spector, situada em um condomínio chamado Alhambra, em Los Angeles. Os dois haviam sido apresentados horas antes em uma boate.

Phil e um George super cabeludo em 1970.

Spector, com cabelo radical, em seu julgamento pelo assassinato de Lana Clarkson.

Phil Spector em foto mais recente, preso.

Conhecido pela técnica da “parede de som”, em suas produções Spector costumava juntar uma grande quantidade de instrumentos tocando em uníssono, de modo a criar um ambiente sonoro muito potente e quase caótico.

Antes de trabalhar com George isoladamente, Spector produziu Let It Be, dos Beatles, um trabalho que Paul McCartney detestou, a ponto de, há não muito tempo, ter sido lançado um CD do mesmo álbum, o Let It Be Naked, sem os arranjos de Spector. Consta que ele também teria arruinado o álbum  Death of a Ladies’ Man, quinto do canadense Leonard Cohen. Spector ainda trabalhou em discos solo de John Lennon, sem grandes reclamações desse ex-beatle.

Paul canta George – Por ironia, muitos anos depois, em 2003, em uma grande homenagem póstuma a George Harrison, organizada em Londres por Eric Clapton, Paul McCartney contou várias músicas de seu “baby brother”. Em seus concertos atuais, Paul sempre inclui Something em sua playlist.

Veja Paul McCartney cantando George Harrison:



 

Ouça George Harrison cantando All Things Must Pass, música que dá nome a seu primeiro álbum solo:

Retrospecto 

Em seu tempo nos Beatles, George publicou apenas 22 canções. Sua primeira aparição como compositor se deu no álbum With the Beatles, de 1963, o segundo  do grupo, com Don’t Bother Me. Depois, só voltaria a figurar na lista de músicas gravadas no álbum Help, de 1965, com I Need You e You Like Me Too Much. Em Rubber Soul, de 1966, George contribuiu com If I Needed Someone e Think For Yourself. Apenas em Revolver, também de 1966, George teria uma música abrindo o lado A do LP. Taxman foi uma dura crítica ao draconiano regime tributário que vigorava na Inglaterra da época.

Mas o privilégio de abrir um álbum dos Beatles teve um preço: o solo antológico de guitarra em Taxman não foi feito por George, o solista da banda, mas por Paul McCartney, o baixista. Ainda no lado A de Revolver, Love You To veio reforçar o comprometimento de George com a música indiana. No lado B, I Want To Tell You.

Em 1967, no conceitual Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band, considerado por muitos a obra-prima de Paul McCartney (e não dos Beatles), George aparece com apenas uma música: a longa, filosófica, existencial e indiana Within You,Without You. No ano seguinte, em Magical Mistery Tour, uma arrastada Blue Jay Way. No Álbum Branco, de 1968, George contribui com quatro canções: a bela While My Guitar Gently Weeps (com solo de Eric Clapton), PiggiesSavoy Truffle e Long, Long, Long. Em Yellow Submarine, coletânea lançada em 1969, o beatle quieto apareceu com Only a Northern Song e It’s All Too Much.

Foi em 1969, em Abbey Road, que George, finalmente, revelou seu melhor até então: Something e Here Comes The Sun. No sombrio Let It Be,  a valsa-rock I, Me, Mine e For You Blue, um “um velho blues de doze compassos“. Em singles, outras duas canções: The Inner Light e Old Brown Shoe. E só.

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