Feliz aniversário, my sweet George.

Feliz aniversário, my sweet George.

George Harrison faria aniversário neste dia 25 de fevereiro. Completaria 72 anos. O chamado 'beatle quieto', na verdade, era falante e gozador. De origem irlandesa, assim como Paul McCartney e John Lennon, não fugia de uma briga. Na adolescência pegou-se a tapas com Paul e ficou de olho roxo ao defender Ringo Starr. Pioneiro, realizou o primeiro show beneficente do rock, o Concerto para Bangladesh, em 1971. Produziu e até fez pontas em filmes. Morreu de câncer em 2001, com dignidade e em paz. Dizia que era apenas um jardineiro.

Carlos de Oliveira

18 de fevereiro de 2015 | 17h45

A vida daquele menino de 12 anos mudaria radicalmente depois de um passeio de bicicleta pela Upton Green Street, em Speke, Liverpool. Era 1955 e da janela de uma daquelas council houses vieram os primeiros acordes de Heartbreake Hotel, saídos de um rádio em alto volume. A voz de Elvis soou como uma epifania. Foi como se a última peça de um quebra-cabeças finalmente tivesse se encaixado no grande painel que há algum tempo vinha se formando na cabeça do pequeno George. Foi como encontrar o rumo.

O jovem George em álbum de família, durante uma viagem de carona pela Inglaterra.

O jovem George em álbum de família, durante uma viagem de carona pela Inglaterra.

Primeiro, ele mudou de lugar e foi sentar-se mais no fundo de sua classe, na Dovedale Primary School. Era bom aluno, mas, em vez de prestar atenção nas aulas, passava o tempo todo desenhando guitarras. Depois, ao ouvir que um amigo havia comprado um violão por três libras e dez xelins, praticamente enlouqueceu. Pediu o dinheiro (muito dinheiro para a família Harrison) emprestado a sua mãe e comprou um Egmond, instrumento meio tosco e de qualidade duvidosa, mas que o fez perder de vez o gosto pelos estudos formais. O menino George Harold Harrison viraria o músico George Harrison.

Os Rebeldes – Tempos depois, conseguiu comprar sua primeira guitarra elétrica, uma Hofner President, alemã. Tomou algumas aulas com um certo Len Houghton, juntou-se ao irmão Peter e ao amigo Arthur Kelly e formou sua primeira banda, batizada de The Rebels. Tocavam skiflle, um tipo de música situada entre o folk, o jazz tradicional e o country, muito popular na Grã-Bretanha dos anos 50.

Era tocada muitas vezes com instrumentos improvisados, entre eles um contrabaixo composto apenas por um cabo de vassoura, uma corda e um recipiente que servia de caixa de ressonância. Podia ser uma bacia ou uma caixa de sabão e estava pronto o tea chest bass.

Com seu primeiro violão, comprado por três libras e dez xelins.

Com seu primeiro violão, comprado por três libras e dez xelins.

 

Em 1956, com seu professor de violão.

Em 1956, com seu professor de violão.

Irlandeses – Nessa época, George já estudava no Liverpool Institute, hoje Liverpool Institute for Performing Arts, e tinha como colega o jovem James Paul McCartney, que tocava em outra banda de skiflle, a Quarrymen, liderada por um rapaz de personalidade difícil, de origem igualmente irlandesa como George e o próprio Paul, chamado John, John Winston Lennon.

Oito meses mais velho que George, Paul apresentou-o a John que, meio a contragosto, aceitou aquele menino de apenas 14 anos em sua banda. Era muito jovem, mas tinha a seu favor um cacife precioso e definitivo: sabia tocar Raunchy, de Duane Eddy, na guitarra.

Formava-se ali um embrião promissor e alguma coisa boa sairia daquele trio ao qual se juntaria Pete Best, Stuart Sutcliff e, posteriormente, Richard Starkey, um tipo narigudo, com uma precoce mecha branca na têmpora direita, um grande anel na mão esquerda e apelidado Ringo Starr. A história dos Beatles já é suficientemente conhecida, mas alguns detalhes sobre George merecem ser considerados.

Em vez de quieto e tímido, um gozador falante.

Em vez de quieto e tímido, um gozador falante.

Falante – Foi o tal ‘beatle quieto’. Ou tímido. Porém quem o conheceu pessoalmente garante que ele era bem-humorado, falante, sarcástico, um gozador ferino. Dizem também que, embora muito calmo, não fugia de uma briga. Na adolescência, chegou a pegar-se a tapas com Paul. “Ele (Paul) é oito meses mais velho do que eu e vai ser sempre oito meses mais velho do que eu”, disse George certa vez, ironizando o fato de Paul sempre tentar ter ascendência sobre ele. Já nos Beatles, ganhou um olho roxo ao entrar numa briga para proteger Ringo Starr no Cavern Club.

O primeiro disco do que um dia viria a se tornar os Beatles foi gravado em 1958, no porão da casa de George. Era um simples acetato de 78 rotações com duas músicas: That’ll Be the Day, de Buddy Holly, e In Spite of All the Danger, uma inusitada (e única) parceria Harrison-McCartney.

Pioneiro – George viveu pouco. Apenas 58 anos. Dizem que só os bons morrem cedo. Pode ser. O fato é que não bastava ser um beatle. George foi um pioneiro. Durante as filmagens de Help, envolveu-se profundamente com a cultura indiana, ajudando a expandi-la no Ocidente. Introduziu no rock instrumentos como a cítara, a tampura e a tabla.

É creditada a George a realização do primeiro show beneficente de rock, o Concerto para Bangladesh, no Madison Square Garden, em 1º de agosto de 1971, em Nova York. Cerca de 40 mil pessoas viram o espetáculo. Dos demais Beatles, já separados, só Ringo participou do evento. Paul recusou o convite, alegando que era cedo demais para os Beatles se reunirem novamente. John não foi porque, segundo ele, o convite não foi extensivo a sua mulher, Yoko Ono.

“Living in the Material World”, filme premiado de Martin Scorsese sobre a vida de George.

Jardineiro – Foi o único beatle a lançar uma autobiografia. Intitulada I, Me, Mine, George falou muito pouco sobre os Beatles e bem mais sobre suas experiências, seus gostos, entre eles a jardinagem. Dizem que John Lennon ficou magoado com o livro lançado em 1980, já que considerou ter sido muito pouco citado por George.  Em 2011, George foi o primeiro beatle a ter sua vida retratada em um documentário. O filme Living in the Material World foi dirigido por Martin Scorsese. Recebeu seis indicações para o 64º Prêmio Grammy e foi o vencedor em duas categorias.

Mecenas – Ao lado de sua paixão pelas corridas de Fórmula-1, George foi também uma espécie de mecenas no campo das artes, em especial no cinema. Com sua produtora Handmade Films, ele produziu e até fez uma ponta em A Vida de Brian, em 1979, do grupo humorístico britânico Monty Python, no papel (não creditado) do Sr. Papadoupolos.

George trabalhou em outras produções do Python, tanto no cinema como nos sketches de televisão. Anos depois, em 1986, produziu o filme Shanghai Surprise, estrelado por Madonna e Sean Penn. Além de compor a música do filme, George atuou como o cantor de um clube noturno.

Dignidade –  Este texto foi escrito para lembrar os 72 anos de nascimento de George Harrison, mas as circunstâncias de sua morte, em 29 de novembro de 2001, às 15h30, também merecem alguma atenção, não pelo lado triste do fato, mas pela serenidade com que encarou o inexorável.

Assim como seu pai Harold, sua mãe Louise e dois irmãos mais velhos (Peter e Harry), George morreu de câncer. A doença foi diagnosticada em 1990, no pulmão. Passou por cirurgias e tratamentos. Em dezembro de 1999, foi atacado e esfaqueado dentro de sua casa, em Londres, por um demente chamado Michael Abram. Esse episódio serviu para afastar George de contatos públicos e contribuiu para deteriorar sua saúde. Em 2001 o câncer voltou sob a forma de metástases e o beatle tornou-se um paciente terminal.

Profundamente espiritualizado, George preparou-se para a morte com serenidade, dignidade e resignação. No início de novembro, estava internado no Staten Island University, em Nova York, quando soube que teria pouco tempo de vida. Decidiu, então, que morreria ao lado de sua família, formada pela mulher Olivia Arias e Dhani Harrison, seu único filho.

Com o olho esquerdo roxo por causa de uma briga para proteger Ringo Starr.

Com o olho esquerdo roxo por causa de uma briga para proteger Ringo Starr.

“Em paz” –  Não quis morrer na Inglaterra natal, mas nos Estados Unidos. Em 17 de novembro foi transferido de Nova York para o UCLA Medical Center, em Los Angeles, Califórnia. Quis falar com sua irmã Louise, de quem estava afastado há bons anos, com Paul McCartney e com Ringo Starr. Chorou ao dizer a Paul que não estaria com ele no Natal que se aproximava e proibiu Ringo de adiar uma turnê já agendada no Canadá. “Não adie, estou em paz”, disse.

No dia 20, devastado pela doença, George foi levado para a casa de seu amigo Gavin De Becker, em Beverly Hills. Ravi Shankar, seu mestre de cítara, foi a única pessoa (além de Gavin, Olivia e Dhani) a estar a seu lado e tocou para ele.  No dia seguinte, George morreu e seu corpo foi cremado no Hollywood Forever Cemetery.

Suas cinzas foram levadas para a Índia e jogadas em um rio sagrado, possivelmente no Yamuna ou no Ganges. George, que conheceu a fama, fugiu dela nos seus últimos anos. Justificou seu isolamento de maneira singela. Disse que era apenas um jardineiro.

 

 

 

 

 

 

 

Tudo o que sabemos sobre:

BeatlesGeorge Harrison