‘Falso’ Paul McCartney é ídolo há 48 anos

‘Falso’ Paul McCartney é ídolo há 48 anos

O rock é feito de astros e de lendas. Uma delas conta a morte de Paul McCartney, há 48 anos, no dia 9 de novembro de 1966, em um acidente de carro. O boato nasceu em uma rádio FM de Detroit, em 1969, e virou uma bola de neve. As letras e as capas dos discos dos Beatles estariam repletas de dicas fúnebres. No lugar do desafortunado Paul, um sósia. O brilhante Billy Shears, incorporado à banda no auge de sua história. Um sósia muito competente, por sinal. Tão bom ou até melhor que o original. Uma história saborosa, inocente, mentirosa e bem documentada. Uma lenda do rock'n'roll.

Carlos de Oliveira

10 de outubro de 2014 | 08h31

Morreu ou não morreu? A dúvida que deu mais visibilidade aos Beatles.

Todos sabem que Paul McCartney morreu. Dentro de exatamente um mês a tragédia vai completar 48 anos. Tudo aconteceu às 5h05 da manhã do dia 9 de novembro de 1966, uma quarta-feira.

…wednesday morning at five o’clock, as the day begins…

O beatle bonitinho voltava do que hoje chama-se balada. Em alta velocidade, não respeitou o sinal vermelho e avançou o cruzamento. A batida foi forte demais e Paul morreu instantaneamente. Tragicamente. Sem cabeça.

…he blew his mind out in a car… he didn’t notice that the lights had changed…

Pouco sobrou do carro em que Paul teria perdido a cabeça

No auge da fama, os Beatles tinham acabado de lançar seu sétimo álbum, Revolver. Uma carreira pela frente, contrato milionário com a Capitol, campanhas de publicidade, concertos agendados, paradas de sucesso. O que fazer? O show tinha de continuar. E continou. Com um sósia: o anglo-escocês William Campbell Shears ou Billy Shears, que já havia trabalhado como dublê de Paul nos filmes A Hard Day’s Night e Help. No álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1º de junho de 1967, a apresentação oficial logo na música de abertura.

…so let me introduce to you the one and only Billy Shears…

Em 1966, a metamorfose do anglo-escocês Billy Shears em Paul MacCartney  só foi possível após algumas cirurgias plásticas.

Fortuna – Depois de algumas cirurgias plásticas, Shears ficou a cara de Paul. Mas não apenas isso. Revelou-se um artista completo. Compositor inspirado, multi instrumentista, cantor virtuoso, de sucesso mundial. Tornou-se um dos homens mais ricos da Inglaterra, com fortuna estimada em 710 milhões de libras esterlinas. Para se ter uma ideia dessa soma em reais, basta multiplicá-la por três.

Desde que se juntou aos Beatles, Shears foi determinante na criação dos álbuns Sgt. Pepper’s, Magical Mystery Tour, Álbum Branco, Yellow Submarine, Abbey Road e Let it Be.

Em sua carreira solo lançou 51 álbuns, entre gravações de estúdio e apresentações ao vivo, indo do folk ingênuo ao clássico mais elaborado. Ao Brasil, Shears veio três vezes e tem nova turnê agendada para o próximo mês. É um ídolo mundial.

Billy Shears na África, durante seu processo de transformação em Paul McCartney.

Metamorfose – Até que não foi difícil encontrar um substituto para Paul. Tão logo se soube da morte do beatle, os responsáveis pela carreira do grupo abriram uma espécie de concurso nacional para buscar um sósia.

Shears, um velho conhecido, foi o vencedor. Mas seriam necessários alguns “ajustes”.

África – Coube a Mal Evans, amigo de infância e roadie dos Beatles, levar Shears para uma longa viagem pela África, onde o sósia passou por cirurgias, principalmente para aparar seu nariz.

De volta à Inglaterra, Mal Evans foi direto à casa do beatle e demitiu seu mordomo de longa data, George Kelly, para que não houvesse possibilidades de a farsa ser um dia descoberta.

De lá para cá, Shears, que nasceu no dia 15 de novembro de 1943, desfrutou de uma vida de astro do rock e pôde revelar ao mundo seus refinados atributos musicais. Casou-se três vezes e teve filhos. Deixou para trás sua vida muito modesta em Liverpool, onde dividia a pequena casa com os pais e sete irmãos.

Bola de neve – Seria uma belíssima história, não fosse isso tudo uma mentirinha que começou com ares de verdade e virou uma bola de neve. No dia 12 de outubro de 1969, o disc jockey Russ Gibb, da rádio WKNR-FM, de Detroit, Estados Unidos, recebeu um telefonema de um ouvinte alertando-o para estranhas e macabras mensagens contidas nas músicas e nas capas dos discos dos Beatles, dando conta da morte de Paul. Como já vimos algumas dessas “dicas” no texto sobre os 45 anos do álbum Abbey Road, vamos em frente.

Gibb pôs uma lista de dicas fúnebres no ar e os jornais locais levaram as “mensagens” a sério. Em poucos dias, os Estados Unidos haviam embarcado na morte de Paul McCartney. De férias na Escócia, o beatle veio a público e disse que estava bem vivo. Tarde demais. Uma historinha boba havia virado uma lenda do rock. Lenda como a de que Elvis e Michael Jackson estão vivos. Para quem gosta de lendas, Paul está morto. Viva o novo Paul.

Boca estranha – Bem, mas este texto não pode acabar assim. Com razão, alguém vai cobrar um pouco de pé no chão, um pouco de realidade. Então, de real mesmo, apenas um acidente de moto que valeu a Paul um dente quebrado e um corte (e, depois, uma cicatriz) no lábio superior. Nada que lhe tenha ameaçado a vida. O resultado desse acidente pode ser visto nos clips de Paperback Writer e Rain, nos quais o beatle aparece com uma boca estranha, um dente maior que o outro e uma cara de convalescente. Vejam os vídeos:

Paperback writer:

Rain:

 

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