Entre lendas e sortilégios, Robert Johnson caminha para 104 anos de mistérios.

Entre lendas e sortilégios, Robert Johnson caminha para 104 anos de mistérios.

Robert Johnson, o rei do Delta Blues, talvez seja o personagem mais misterioso da música popular do século 20. Endeusado até hoje por nomes como Eric Clapton e Keith Richards, ninguém sabe ao certo quando ele nasceu, como viveu e como morreu. Poucos, porém, com apenas 29 músicas gravadas e três fotos conhecidas, influenciaram tanta gente. A caminho dos 104 anos de seu nascimento (caso ele realmente tenha vindo ao mundo em 1911), talvez seja bom que continue envolto em mistérios. Pode ser que esse seja seu maior legado.

Carlos de Oliveira

17 de abril de 2015 | 20h59

Ele nasceu no dia 8 de maio de 1911. Faria 104 anos no mês que vem. Mas pode ter nascido em 1909 ou 1912. Ninguém sabe ao certo. Viveu pouco, sempre envolto em mistérios e supostos sortilégios. Morreu não se sabe exatamente como, em 16 de agosto de 1938. De tiro, esfaqueado, envenenado, de pneumonia? Dizem que em seus momentos finais uivava como um lobo ferido em seu quarto de pensão barata, em Greenwood, Mississippi, o mesmo Mississippi  onde, em Hazlehurst, nascera de família camponesa negra e pobre, 26, 27 ou 29 anos antes. O suspense sempre lhe caiu bem. Sua curta história virou lenda. Seu nome é reverenciado. Virou rei. Robert Leroy Johnson, o rei do Mississippi Delta Blues. Seu nome do meio, Leroy, vem do francês le roi, o rei. Misterioso.

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As três únicas fotos de Robert Johnson. A terceira foi revelada apenas em 2007 pela Vanety Fair. John segura seu violão ao lado do bluseiro Johnny Shines.

As três únicas fotos de Robert Johnson. A terceira foi revelada apenas em 2007 pela Vanity Fair. John segura seu violão ao lado do bluseiro Johnny Shines.

Ele certamente não inventou o blues, mas sem Robert Johnson talvez não tivesse havido Muddy Waters, Son House, Elmore James, BB King, Rolling Stones, Eric Clapton, Led Zeppelin e tantos outros. Talvez os 12 compassos desse gênero musical nem estivessem consolidados. O fato é que uma pessoa até hoje obscura, que gravou apenas 29 músicas e, até 2007, ser conhecido por apenas duas fotografias amareladas, até que a Vanity Fair publicou uma terceira, influenciou muita gente.  Um ícone em forma de dúvidas.

Três fotos – Como conhecer alguém por  apenas três fotos, 29 músicas e 27 anos de vida? A tarefa é mais ou menos como juntar peças, montar um quebra-cabeças, tatear no escuro, torcer para não errar. Mas por tal personagem vale a pena correr riscos. As imagens mostram que fumava e usava chapéu. Tinha pelo menos dois. Gravata estreita e lenço no bolsinho do paletó lhe conferiam algum estilo.

O que mais impressiona nas fotos são seus dedos. Finos e longos, ideais para um guitarrista. Eric Clapton disse que costuma olhar os dedos de Johnson e imaginar como ele tocava. Se era alegre ou triste é difícil saber. Suas expressões têm uma certa neutralidade e podem enganar. No rosto só um esboço de sorriso.

Teria trabalhado na roça até os 16 anos, numa região marcada por preconceitos e conflitos raciais. Achava que se caísse no mundo tocando gaita e violão sua vida seria melhor. Tocou e cantou nas mais variadas espeluncas, bares, prostíbulos e, principalmente, nas ruas do sul dos Estados Unidos. É provável que suas viagens mais longas tenham sido feitas a San Antonio e a Dallas, ambas no Texas, onde,entre 1936 e 1937, gravou suas 29 músicas.

Ouça todas as músicas gravadas por Robert Johnson:

Ainda no lendário Cream, Eric Clapton canta Crossroads, em novembro de 1968:

O pacto – Tocava seu violão Gibson L-1 com destreza e fazia riffs hipnóticos que se repetem até hoje. Quando pegava seu instrumento, todos paravam para ver como ele manejava os dedos. Por trás dessa habilidade, uma história de arrepiar. Son House, outro bluseiro, seu amigo, foi responsável pela propagação da lenda de que Johnson fez um pacto com o diabo para ser um músico insuperável. Em outras palavras, Robert Johnson vendeu sua alma em troca de talento com o violão.

Dizem que era uma noite sem lua, mas há quem diga que era lua nova. Meia-noite, é claro. Ninguém venderia a alma em outro horário. Johnson pegou seu violão, sentou-se numa encruzilhada em Dockery’s Plantationmais exatamente no ponto onde hoje as rodovias 61 e 49 se cruzam em Clarksdale, no Mississippi. Além do violão, levou uma garrafa de uísque batizado e começou a arranhar alguns acordes. Lembrem-se de que até então Johnson era um guitarrista medíocre.

RJ

A representação da encruzilhada onde Johnson vendeu sua alma e o atual cruzamento da 61 com a 49, em Clarksdale, Mississippi.

A representação da encruzilhada onde Johnson vendeu sua alma e o atual cruzamento da 61 com a 49, em Clarksdale, Mississippi.

O encontro – Nisso, do nada, surge um homem, que todos sabemos não era um homem. Era o coisa ruim. Pediu o violão a Johnson e passou a afiná-lo. Quando julgou que o instrumento estava bem afinado, começou a cantar. De repente, calou-se, devolveu o instrumento com um sorriso no rosto e desapareceu. Estava consumado o pacto. Johnson passou a tocar seu violão como um mestre, mas empenhara sua alma. Dizem que passou a tocar de costas para o público, com medo de que algum outro bluseiro copiasse suas habilidades.

Era a grande atração das juke joints, pequenas e modestas casas de música e dança, onde trabalhadores das plantações iam se divertir e, muitas vezes, brigar por muito pouca coisa. Durante esses seus momentos de escasso reconhecimento, Johnson talvez se esquecesse por instantes de sua vida dura desde a infância. Era filho de uma filha de escravos, Julia Major Dodds. Ela foi casada com Willie Willis, separou-se e teve um envolvimento com Noah Johnson, pai de Robert.

A vida – Ainda menino, Robert Dusty, como era conhecido então, abandonou a escola por causa de uma catarata precoce. Passou a tocar violão e gaita. Cresceu, casou-se, perdeu a esposa no parto de seu filho. Viajou pelo sul, voltou à sua cidade natal,casou-se novamente e separou-se.

Johnson teria gravado parte de suas músicas com o rosto virado para uma parede do quarto 404 do Hotel Gunter, em San Antonio, Texas.

Johnson teria gravado parte de suas músicas com o rosto virado para uma parede do quarto 414 do Hotel Gunter, em San Antonio, Texas.

Entre 1936 e 1937 gravou suas 29 músicas conhecidas, num total de 42 takes, já que algumas delas foram gravadas duas vezes. A primeira sessão foi realizada no quarto de número 414 do Hotel Gunter, em San Antonio, Texas. Dizem que gravou de frente para uma parede, bem próximo dela. Foi para Dallas e concluiu as gravações ao longo de dois dias de sessões. Essas 29 músicas se multiplicaram em apenas 11 LPs de 78 rotações, embora há quem diga que foram gravadas em rotação bem mais acelerada. Se de fato foram, não sabemos como era a verdadeira voz de Robert Johnson.

A morte – Vamos agora ao mistério final, à cortina final, muito embora o Three Forks, um juke joint de Greenwood, no Mississippi, não tivesse cortina alguma. Johnson chegou com outro bluseiro, o gaitista Sonny Boy Williamson. Mulherengo, foi logo se engraçando com a mulher do dono. Três dias depois, estava morto. Há três versões para o desenlace: 1) bebeu uísque envenenado com estricnina, oferecido pelo marido ferido em seus brios, 2) foi apunhalado pelo marido ciumento e 3) foi morto com um tiro disparado pelo mesmo marido.

O Three Fork, onde Johnson teria sido envenenado por um marido ciumento.

O Three Fork, onde Johnson teria sido envenenado por um marido ciumento.

O mais provável é que tenha sido envenenado. Dizem que agonizou por três dias, que uivava como um lobo e que corria de quatro pelo quarto de aluguel. Lendas à parte, o veneno deve tê-lo levado ao coma e, debilitado, contraiu a pneumonia que o matou. Para saber a verdade sobre esse e outros mistérios que envolvem a vida de Robert Johnson, talvez seja necessário fazer algumas perguntas a alguém, em alguma encruzilhada. Quem se habilita?

 

 

 

 

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