Em “Tomorrow Never Knows” John Lennon quis ser um pêndulo sonoro

Em “Tomorrow Never Knows” John Lennon quis ser um pêndulo sonoro

John Lennon era um tipo estranho, esquisito mesmo. Para obter o melhor som, o melhor tom de voz, era capaz de fazer pedidos malucos que deixavam atônitos os técnicos dos estúdios de Abbey Road. No álbum "Revolver" o beatle superou-se: quis cantar sob a água e fazendo gargarejo. Quis mergulhar um microfone em uma garrafa d'água. Em "Tomorrow Never Knows" quis ser um pêndulo sonoro amarrado pelos pés no teto do estúdio. Ficou de cabeça para baixo encostado em uma cadeira e quis cantar como se fosse o Dalai Lama no alto de uma montanha. Muito estranho.

Carlos de Oliveira

23 Agosto 2016 | 09h23

John Lennon detestava o som de sua voz. A cada gravação demonstrava insegurança e fazia pedidos insólitos aos engenheiros de som da EMI, a gravadora instalada na Abbey Road, em Londres, onde os Beatles produziram grande parte de seus  álbuns. Queria que sua voz soasse diferente do que ela realmente era, missão que deixava os técnicos boas noites sem dormir. Mas como recusar o pedido de alguém que canalizava milhões de libras para a empresa?

Estirado numa cadeira, Lennon tentar cantar

John Lennon tenta cantar “Tomorrow Never Knows” de cabeça para baixo.

Longe da gritaria dos estádios, onde ninguém ouvia ninguém, enfrentar um microfone de estúdio era torturante para o beatle. Ele e Paul McCartney dividiam as funções de front men da banda, já que George pouco cantava e Ringo menos ainda. Paul é um tenor que transita com facilidade por notas graves e agudas. John tinha uma voz bem menor. Nem por isso era um mau cantor. Mas ninguém conseguia convencê-lo disso.

Bizarrices – Embalado por seu caráter gozador e sarcástico, John começou a propor esquisitices aos técnicos. Seus pedidos eram bizarros, vagos, deixando nas mãos do produtor George Martin a missão de adivinhar o que ele exatamente queria com sua voz nesta ou naquela gravação. Os exemplos são vários e, hoje, engraçados. Na época eram uma dor de cabeça para quem tinha de varar madrugadas buscando soluções sonoras  para o beatle inseguro.

Noite de quarta-feira, 1º de junho de 1966. Chega aos estúdios de Abbey Road um grupo de amigos da banda. Amigos malucos em calças de veludo roxas e amigas em minissaias compradas na Carnaby Street, a meca do movimento mod. Entre os malucos estavam Mick Jagger e Brian Jones, dos Rolling Stones; Marianne Faithful, namorada de Jagger e Patti Boyd, mulher de George Harrison. A missão era gravar efeitos sonoros para a música Yellow Submarine, no que seria a primeira sessão do álbum Revolver.

John Lennon com Mick Jagger, dos Stones: o beatle quis cantar

John Lennon com Mick Jagger, dos Rolling Stones, em Abbey Road: o beatle quis cantar “Yellow Submarine” sob a água.

Debaixo d’água – Instrumentos de percussão foram distribuídos a todos. Chocalhos, sinos, bongôs, canudos, copos com água, apitos e toda sorte de coisas que pudessem produzir ruídos. Tudo seria gravado pelo engenheiro de som Geoff Emerick, que mais tarde selecionaria os ruídos a serem aproveitados. Foi então que veio o pedido estapafúrdio de John Lennon: “Geoff, eu quero cantar debaixo d’água”. O que, a princípio, parecia uma piada, virou um pesadelo para Emerick.

John exigiu que um tanque cheio de água fosse trazido para dentro do estúdio. George Martin e os técnicos da EMI, atônitos, tentaram demover John daquela ideia, o que conseguiram depois de algum tempo. O beatle, então, disse que cantaria gargarejando. Pegou um copo com água, encheu a boca e inclinou a cabeça para trás. Começou a gargarejar e, ao tentar cantar, engasgou feio. Foi o suficiente para abandonar essa ideia idiota.

Lennon quis cantar submerso e, depois, fazendo gargarejo.

John Lennon quis cantar submerso e, depois, fazendo gargarejo.

Camisinha –  Argumentou, porém, que Yellow Submarine teria de ser gravada em modo náutico, fosse isso o que fosse. Ordenou que colocassem um microfone dentro d’água. O engenheiro Emerick novamente se viu às voltas com a bizarrice de Lennon, que pensava em transformar a sessão de gravação numa espécie de revival do The Goon Show, um programa de rádio da BBC que foi ar de 1951 a 1960 e que o beatle adorava.

Para satisfação de Lennon, Emerick conseguiu encontrar um microfone pequeno o bastante para passar pela boca de uma garrafa cheia de água. Envolvida em um preservativo conseguido de última hora por Mal Evans, o roadie e o faz-tudo da banda, a engenhoca não funcionou. Muita sorte.

Se tivesse funcionado, é provável que Lennon tivesse morrido bem antes de 1980, assassinado por um debilóide em Nova York. O tal microfone era do tipo phantom power. Ligado a uma corrente de 240 volts, ele poderia ter fritado o beatle. No fim, quem cantou Yellow Submarine foi Ringo Starr. Mas aquela era apenas a primeira sessão de Revolver e John teria outras surpresas para os técnicos da EMI.

Lennon durante a gravação do

Lennon durante a gravação do “single” Paperback Writer, nas sessões de “Revolver”.

Revolver – Pela primeira vez uma Música de George Harrison abriria um álbum dos Beatles. Taxman era uma música de protesto. Não o tipo de protesto que vinha dos Estados Unidos, contra a guerra. Era um protesto britânico, contra a alta carga tributária que pesava sobre os contribuintes. O disco todo apontava para a maturidade  musical da banda.

A Índia e seus instrumentos exóticos, a meditação transcendental, as drogas, os loops sonoros montados em retalhos de fitas magnéticas, todos esses novos elementos passaram a figurar na música dos Beatles. Embora não tenha sido a última música a ser gravada, Tomorrow Never Knows fechou o álbum. A composição de John Lennon foi inspirada no Livro Tibetano dos Mortos, com a base montada em um único acorde de dó maior, mas riquíssima em efeitos.

Dalai Lama – Para gravar a voz, John foi cruel com George Martin e Geoff Emerick. O beatle queria algo que ainda não existia, alguma coisa etérea e resumiu seu desejo com uma frase desconcertante: “Quero que vocês me façam soar como o Dalai Lama cantando no alto de uma montanha e que a canção tenha o som de quatro mil monges tibetanos cantando ao fundo”. Como fazer isso?  Como satisfazer a vontade daquela mina de dinheiro para a EMI?

“Pêndulo” – O próprio John disse o que deveria ser feito, conta o engenheiro de som Geoff Emerick. “John sugeriu que nós o suspendêssemos pelos pés, com uma corda presa a um gancho no teto do estúdio. Um microfone seria instalado no chão. Um de nós lhe daria um empurrão e ele cantaria girando em torno do microfone”.

“Tomorrow Never Knows” foi composta por John Lennon com base em um único acorde de dó maior.

Por motivos óbvios, o “pêndulo de John” foi rejeitado, mas logo o beatle teve outra ideia não menos esdrúxula: cantar de cabeça para baixo. Ele tentaria se equilibrar em uma cadeira, de modo a ficar com os pés para cima e a cabeça perto do chão. John até conseguiu se manter na posição, mas tudo leva a crer que não conseguiu cantar.

Experiências – Para satisfazer as vontades do beatle, a voz de Lennon em Tomorrow Never Knows foi gravada em Automatic Double Tracking (ADT), um sistema criado pelo engenheiro Ken Townsend, da EMI, em 1966, especialmente para os Beatles. Apesar do nome complicado, o ADT foi uma solução relativamente simples. Grosso modo, eram duas máquinas gravadoras, sendo que uma delas podia ter sua velocidade de gravação alterada, de modo a obter-se um delay em relação à primeira maquina.

Ouça ‘Tomorrow Never Knows’, com os Beatles, do álbum ‘Revolver’:

A partir do verso that love is all and love is everyone, uma experiência bem-sucedida dos técnicos. Pegaram uma caixa Leslie, que é um modulador do órgão Hammond, e fizeram uma alteração nos circuitos para que a voz de John passasse pelo alto falante giratório do equipamento. Se a voz de Lennon ficou parecida com a do Dalai Lama cantando no alto de uma montanha não se sabe. Sabe-se apenas que Lennon não reclamou do resultado.