Em 1963, George Harrison, o “Elvis da Inglaterra”, fez (algum) sucesso nos Estados Unidos.

Em 1963, George Harrison, o “Elvis da Inglaterra”, fez (algum) sucesso nos Estados Unidos.

No dia 29 de novembro fez 15 anos que George Harrison morreu. O câncer levou o "beatle quieto". Muitas de suas histórias ficaram. Uma delas é sobre sua primeira viagem aos Estados Unidos, sem John, Paul e Ringo. Já era um beatle. Já fazia sucesso na Inglaterra com 'Please, Please Me', mas era um ilustre desconhecido nos EUA. Foi visitar sua irmã Louise, que vivia com o marido na pequena Benton, em Illinois. Impressionou os locais pela maneira de se vestir, pelo sotaque polido e pelos modos gentis. Tocou com uma banda local, fez sucesso com a audiência e comprou uma guitarra. Voltou aos EUA quatro meses depois com sua banda para dividir a beatlemania com o resto do mundo.

Carlos de Oliveira

06 Dezembro 2016 | 21h06

Aquele garoto que recém completara 20 anos vestia calça jeans justa e camisa social branca, impecável. Calçava sandálias e usava um cabelo no mínimo engraçado. Muito gentil, falava baixo, pausadamente, com um acento elegante, não fosse o scouse de Liverpool que vez por outra deixava escapar. Destoava totalmente dos jovens nativos da pacata Benton, no estado de Illinois, num já longínquo 16 de setembro de 1963. George Harrison era o nome dele, o primeiro beatle a pôr os pés nos Estados Unidos, antes da eclosão mundial da beatlemania, apenas cinco meses depois, em 7 de fevereiro de 1964, quando desembarcaram solenemente no aeroporto J.F. Kennedy, em Nova York.

George Harrison com a Guitarra Rickenbacker 425 comprada em 1963, por US$ 400, em Illinois.

Harrison com a Rickenbacker 425 comprada em 1963, por US$ 400.

Desconhecido – Os Beatles já era famosos na Inglaterra, mas os rapazes nascidos na nortista Liverpool e até confundidos com alemães que falavam um inglês razoável estavam isolados do resto do mundo em sua ilha. Já no início de setembro de 1963, Please, Please Me era sucesso absoluto e chegava ao primeiro lugar nas paradas de sucesso inglesas. Nos EUA, Beatles soavam apenas como insetos, como besouros. George era apenas mais um ilustre desconhecido.

George em 1963: sucesso na Inglaterra e ainda desconhecido nos EUA.

George em 1963: sucesso na Inglaterra e desconhecido nos EUA.

Ouça Please, Please Me, com os Beatles, sucesso na Inglaterra em 1963:

O sucesso de Please, Please Me na ilha foi tanto que os Beatles se deram alguns dias de férias. John e a esposa Cynthia foram a Paris. Paul e Ringo foram atrás do sol da Grécia. George e seu irmão mais velho, Peter, foram visitar a irmã Louise “Lou” Caldwell na provinciana Benton, uma cidadezinha de Illinois, para onde havia se mudado com o marido, Gordon, um engenheiro escocês contratado para trabalhar em uma mina de carvão da região. Na 113 McCann Street, George achou que passaria uns dias calmos, longe dos gritos e da histeria que cercava os Beatles na Inglaterra. Acertou. O primeiro beatle a pisar em solo americano passou despercebido.

Livres – George Harrison e o irmão Peter caminharam livremente, anonimamente. Acamparam na Shawnee National Forest e comeram hamburgueres numa lanchonete típica do centro oeste americano, onde George ficou fascinado com belas garçonetes que se moviam graciosamente sobre patins. A irmã Louise apresentou George ao amigo Gabe McCarty, que, à noite, deixava seu trabalho na lavanderia local para tocar na banda The Four Vests. Com a natural cumplicidade que une os músicos, Gabe acompanhou George à única loja de discos de Benton, onde o ainda incipiente beatle comprou o álbum Green Onions, de Brooker T and the M.G.s, álbuns de Bobby Bland e um disco intitulado Got My Mind Set On You, de James Ray, que George regravaria 25 anos depois em seu álbum Cloud Nine, de novembro de 1987. Para testar uma possível popularidade dos Beatles nos EUA, Harrison chegou a perguntar se o dono da loja conhecia a banda inglesa. A resposta não foi além de uma testa franzida.

“Elvis inglês” – Enquanto esteve em Benton, George tocou com a banda de Gabe no Bocchi Club e no Veterans of Foreing Wars onde foi apresentado ao público com o “Elvis da Inglaterra”. Foi, na verdade, um “Elvis” bem comportado, com calça e blazer pretos, camisa branca, sem gravata. Entre outras músicas, tocaram Roll Over Beethoven, Johnny B Goode e Matchbox. A audiência adorou o show. Bateram os pés e as mãos, antecipando em meses gestos que marcariam o dia-a-dia da beatlemania.

Ouça Roll Over Beethoven com os Beatles, música que George cantou quando estava de férias em Benton, com os ‘Four Vests’. Neste vídeo, na bateria está Jimmy Nicol, pois Ringo estava doente:

Um certo senhor, muito amigavelmente, aproximou-se de Harrison ao final do show e disse-lhe em tom profético: “Se mantiver a batida certa, você certamente chegará a algum lugar”. Até entrevista o simpático inglesinho deu. Foi para 0 jornalzinho da high school local. Entre várias perguntas bobinhas, quiseram saber do que George mais gostava. Ele foi sincero: “Loiras baixinhas, dirigir carros, dormir, ovos com batatas fritas e filmes de Alfred Hitchcock”. Nada bobo.

Nova guitarra – Antes de deixar Benton e seguir para St. Louis e Nova York. George viajou cerca de 40 milhas até a Fenton’s Music Store, onde comprou sua segunda guitarra americana (a primeira foi uma Gretsch Duo Jet de 1957, comprada em 1960 de um taxista de Liverpool, por 75 libras), uma Rickenbacker 425 vermelha, por US$ 400. George pediu que o proprietário da loja mudasse a cor do instrumento e a pintasse de preto, o que foi feito a contragosto. O jovem Harrison queria que sua Rickenbacker combinasse com a cor da Rickenbacker de John Lennon.

Capa do álbum Cloud Nine, de 1987. George posa com sua primeira guitarra americana, uma Gretsch Duo Jet, de 1957.

Capa do álbum Cloud Nine, de 1987. George posa com sua primeira guitarra americana, uma Gretsch Duo Jet, de 1957.

As férias de George e dos demais beatles estavam no fim. Era preciso voltar logo a Londres, onde a fama os esperava. Antes de embarcar de regresso, George e o irmão Peter, como bons turistas, passearam por Nova York. Em fevereiro do ano seguinte, apenas cinco meses depois, George, Paul John e Ringo desembarcariam no Aeroporto J.F. Kennedy não mais como uma banda cujo nome remetia a um inseto. Chegava a beatlemania. O sonho estava apenas começando.