Eles são guitarristas, compositores, cantores e todos quase…surdos.

Eles são guitarristas, compositores, cantores e todos quase…surdos.

Todos dizem que um bom músico tem de ter um bom ouvido. Nada mais discutível. Músicos como Eric Clapton, Sting, The Edge, Pete Townshend e Phil PCollins, entre muitos outros, famosos ou não, padecem de um mal excruciante chamado tinnitus. Trata-se do zumbido no ouvido, que muitas vezes pode levar à surdez. É como ter uma cigarra dentro da cabeça cantando todo dia, o dia todo. Causas? Podem ser muitas, mas a exposição a altas fontes de som é uma delas. Cura? Não tem. O bom é baixar o volume dos fones e dos amplificadores. E o alerta vale para todos.

Carlos de Oliveira

20 Outubro 2015 | 12h18

Eles pouco ouvem. Ou melhor, ouvem: um torturante zumbido. O tempo todo. Um infindável ruído nos ouvidos, dentro da cabeça, que torna sua qualidade de vida perto do miserável. Quase todos são músicos e famosos. Eric Clapton, Eric Johnson, Pete Townshend, Phil Collins, Jeff Beck, Neil Young, Noel Gallagher, Ozzy Osbourne e tantos outros. Todos passaram anos e anos fazendo (e ouvindo) música em altíssimo volume, em estúdios ou em shows. Hoje têm importantes perdas auditivas. Talvez até fiquem surdos. Novos Beethovens.

Beethoven: sofrimento com o tinnitus e a surdez.

Beethoven: sofrimento com o tinnitus.

“Rosnar e estalar” – Ludwig van Beethoven, o genial compositor alemão, nasceu em Bonn, em dezembro de 1770. Viveu 56 anos, e, desde os 26 ou 28, passou a ser atormentado por um zumbido nos ouvidos, que progrediu para uma surdez impiedosa. Seu sofrimento pode ser percebido com clareza a partir de uma carta que escreveu ao amigo e médico Franz Gerhard Wegelr, em junho de 1801, portanto, aos 31 anos. Vale a pena reproduzir dois trechos dessa correspondência.

“Você tem tido notícia da minha situação? Os meus ouvidos nos últimos três anos estão cada vez mais fracos. Frank, o diretor do Hospital de Viena, procurou retonificar meu organismo com tônicos e meus ouvidos, com óleo de Mandorle. Não houve nenhum efeito. A surdez ficou ainda pior. Depois, um asno de um médico me aconselhou tomar banhos frios, o que me levou a ter dores fortes. Outro médico me aconselhou banhos rápidos no Danúbio. Todavia, a surdez persiste. As orelhas continuam a rosnar e estalar dia e noite. Te confesso que estou vivendo uma vida bem miserável. Há quase 2 anos me afastei de todas as atividades sociais, principalmente porque me é impossível dizer para as pessoas: Sou surdo!”

E prosseguia:

“Se minha profissão fosse outra, talvez poderia me adaptar à minha doença, mas no meu caso a surdez representa um terrível obstáculo. E se os meus inimigos vierem a saber? O que falarão por aí? Para te dar uma ideia desta estranha surdez, no teatro eu tenho de me colocar muito perto da orquestra para entender as palavras dos atores. A uma certa distância não consigo ouvir os sons agudos dos instrumentos e do canto. Surpreendentemente, nas conversas com as pessoas, muitos não notaram minha surdez. Acreditam que eu sou distraído. Muitas vezes posso ouvir o som da voz, mas não entendo as palavras. Mas se alguém grita eu não suporto! O doutor Vering me disse que certamente meu ouvido melhorará. Se isso não for possível, tenho momentos em que penso que sou a mais infeliz criatura de Deus”.

“Audição arruinada” – Muito tempo depois, o depoimento sucinto de Eric Clapton não difere muito em dramaticidade do de Beethoven: “Minha audição está arruinada. Se paro para escutar, ouço uma espécie de assovio constante em meu ouvido. Provavelmente, toquei muito tempo diante de amplificadores com 100 watts de potência. Foi uma loucura”.

Ouça Eric Clapton tocando Cocaine a todo volume:

Além da genialidade, o que esses músicos têm em comum? Eles sofrem de uma doença chamada tinnitus. E não apenas eles, mas cerca de 17% da população mundial. Desse total, 20% podem desenvolver a forma mais severa e progressiva da moléstia, muitas vezes com irreversível perda da audição. Não é regra, mas músicos estão entre os mais afetados. Pesquisas com músicos de orquestras sinfônicas mostram que dentre os instrumentos de maior risco para a audição estão os metais, os de madeira e a percussão, com níveis de até 100,6 decibéis, equivalentes ao barulho feito por uma britadeira ou pela bateria de uma escola de samba.

Fones de ouvidos podem levar ao tinnitus se usados em volume muito alto.

Fones podem levar ao tinnitus se usados em volume muito alto.

Muitas causas – Claro, este não é um blog sobre medicina e saúde e qualquer aventura nesse campo pode levar a erros grosseiros. O fato, porém, é que impressiona o número de músicos que se queixam de zumbido nos ouvidos, já que uma das causas do tinnitus seria mesmo a exposição prolongada a altos níveis de ruídos. Também não significa que todos os músicos terão tinnitus e ficarão surdos. A doença (que para alguns médicos é apenas o sintoma de algum outro mal) pode ter várias causas, entre elas o estresse, desvios de coluna, alterações cardiovasculares, diabetes, disfunções da articulação da mandíbula e consumo excessivo de cafeína, álcool e tabaco.

Ouça Phil Collins: zumbido nos ouvidos obrigou o cantor a parar de se apresentar.

De volta aos músicos, o tinnitus é responsável por baixas no meio artístico e é uma das causas da já anunciada aposentadoria de Clapton. Phill Collins é outro que parou de se apresentar em razão do mesmo problema. Collins teve importante perda auditiva em seu ouvido esquerdo e os médicos recomendaram cautela, caso contrário ele perderia totalmente a audição. “O zumbido foi a coisa mais alta que já ouvi na minha vida”, disse o músico.

Veja Eric Johnson, um virtuoso da guitarra, quase surdo, que toca com um “paredão” de amplificadores.

“Quinto beatle” – Pete Townshend, do The Who, sofre de surdez parcial e desde 1989 trabalha para manter a Hearing Education and Awareness for Rockers (HEAR), uma organização que divulga a prevenção de distúrbios auditivos entre músicos. Ao mesmo tempo, foi buscar alívio em tratamentos alternativos e naturais. Eric Johnson passou a tocar com protetores auriculares para não agravar sua doença.

O produtor George Martin, o “quinto beatle”, é outro que foi forçado a retirar-se dos estúdios, uma vez que sua audição afetada pelo tinnitus prejudicaria a qualidade de seu trabalho. Jeff Beck, lendário guitarrista do Yardbirds, admite que tem uma forma particular de tinnitus no ouvido esquerdo, que lhe causa, além do zumbido, muita dor. A lista é enorme e envolve nomes como o do guitarrista The Edge (do U2), Sting e Al Di Meola. O ex-beatle George Harrison também desenvolveu problemas de audição.

Risco aos fãs – O som em alto volume não afeta apenas os artistas. Os fãs que vão aos shows correm os mesmos riscos e o caso prático mais claro é o da cantora escocesa KT Tunstall. Em 2008, aos 33 anos, ela sentiu os primeiros sintomas do tinnitus e credita o zumbido constante nos ouvidos a um show das Spice Girls. “Fiquei muito perto dos alto-falantes. No início, eu não sabia o que era. Só esperava que aquilo tudo fosse embora, mas não foi e o zumbido passou a me enlouquecer”, disse. Como ouvir ou não ouvir também é a questão, não importa estar no palco ou na plateia. Todos correm os mesmos riscos e o importante é proteger-se. Volume mais baixo e protetores auriculares não fazem mal a ninguém.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais conteúdo sobre:

BeethovenTinnituszumbido