Depois de Otis Redding, a soul music ainda procura um novo rei

Depois de Otis Redding, a soul music ainda procura um novo rei

Otis Redding, o rei do soul, morreu em 10 de dezembro de 1967, e, até hoje, 47 anos depois, ninguém ocupou seu trono. Mais conhecido no Brasil pelo seu sucesso póstumo 'The Dock of the Bay', de 1968, Otis deixou muitos outros, entre eles 'Respect', em interpretação magistral de Aretha Franklin. O cantor norte-americano de origem humilde foi o único representante da soul music a se apresentar no Festival de Monterey, na Califórnia, em 1967. Uma voz inconfundível que se foi cedo demais, aos 26 anos.

Carlos de Oliveira

28 Novembro 2014 | 23h00

Otis Redding morreu precocemente, em dezembro de 1967.

Otis Redding morreu precocemente, em dezembro de 1967.

A morte colheu Otis Redding covardemente, aos 26 anos, num acidente aéreo em Madison, Wisconsin, no dia 10 de dezembro de 1967. Já se vão 47 anos e o soul continua com seu trono vazio. Rei morto não significa, necessariamente, rei posto. Sua voz de timbre único e sua levada quase passional são únicas e ninguém nunca se atreveu a imitá-lo. Só a reverenciá-lo.

Menino da Geórgia – Seu maior sucesso, (Sittin’ On) The Dock of the Bay, lançado postumamente em 1968, inundou as rádios de meio mundo, reafirmou seu gênio e continua atual. Otis nasceu em Dawson, Geórgia, e logo sua família mudou-se para Tindal Heights Housing Project, em Macon,  cidade natal de outra lenda da música, Little Richard, sua primeira influência.

Ouça ‘The Dock of the Bay’, sucesso póstumo de 1968:

Na verdade, como muitos outros cantores negros do sul dos Estados, Otis começou a cantar e a moldar seu estilo no coro de uma igreja. Em seu caso, na Vineville Baptist Church, onde seu pai pregava aos domingos.

Casa pequena – Uma doença recorrente de seu pai somada às dificuldades financeiras do dia-a-dia obrigaram a família a se mudar para uma shotgun house (habitação modesta e tão pequena que, diziam, se alguém desse um tiro na porta, todos os que estavam dentro morreriam). Como se isso não bastasse, um incêndio pôs a casinha dos Redding abaixo.

Para ajudar na sobrevivência, o jovem Otis deixou os estudos e foi trabalhar com os Upsetters, a antiga banda de Little Richard, ganhando US$ 25 por semana. Gladys Williams, músico local que comandava um concurso dominical de calouros, chamou-o para tentar a sorte e Otis foi o primeiro colocado durante quatro meses seguidos, sendo impedido de se apresentar novamente. Para quem queria ser um grande cantor, um concurso local não era mesmo lá grande coisa.

Primeira gravação – Em 1959,  Otis passou a cantar no Grand Duke Club, ainda em Macon. No ano seguinte, deixou a cidade e foi trabalhar de motorista da van que transportava Johnny Jenkins e os Pinetoppers em excursões pelo sul do país. Sempre que podia, cantava. Agradou e passou a ser o crooner da banda. Mas ainda era pouco. Nesse mesmo ano conseguiu fazer sua primeira gravação (Fat Gal e Shout Bamalamajá com sua banda, a Otis and The Shooters.

Em 1962, aproveitando um intervalo de gravação da banda de Johnny Jenkins, Otis gravou These Arms of Mine, escrita por ele e que se tornou um sucesso nas paradas de rithym and blues. O sucesso relativo levou Otis a gravar em Memphis com Booker T. and The MGs ou a banda  The Bar-Kays,o que lhe abriu as portas para apresentação nos Estados Unidos e na Europa.

Respect – São dessa época (de 1965 a 1967), músicas como That’s What My Heart Needs, Pain In My Heart, Chained and Bound e Mr. Pitiful. Ainda em 1965, Otis compõe e grava Respect, que, tempos depois, subiria ao Top Ten americano em interpretação antológica de Aretha Franklin.

Ouça ‘Respect’, com Aretha Franklin, em versão original:

 Otis deixou um imenso rastro de sucessos, entre eles ‘Try a Little Tenderness’. A versão que se segue foi gravada em Cleveland, Ohio, um dia antes de sua morte, em dezembro de 1967:

Veja também a apresentação de Otis Redding no Festival de Monterey, realizado em junho de 1967, na Califórnia:

Monterey – Em 1967, Otis chega ao auge do sucesso e é o único artista da soul music convidado a participar, em junho, do Festival de Monterey, na Califórnia, ao lado de nomes como Jimi Hendrix e The Who. Em dezembro desse mesmo ano, justamente quando sua carreira começou a ser reconhecida pelas plateias de música pop e não apenas de R&B, Otis e os músicos da Bar-Kays morrem em um acidente aéreo. O avião em que viajavam teve uma pane e caiu nas águas geladas do lago Monona. Desde então, a soul music está à procura de um novo rei. Ainda não encontrou. Talvez nem encontre tão cedo.