De ‘Abracadabra’ a ‘Revolver’,a gênese de um álbum dos Beatles.

De ‘Abracadabra’ a ‘Revolver’,a gênese de um álbum dos Beatles.

'Rubber Soul' levou os Beatles a 'Revolver', o álbum que decretou a maioridade musical da banda inglesa. É o disco das surpresas melódicas e da maturidade nas letras. Foi lançado há 49 anos, no dia 5 de agosto de 1966. Por pouco ele não se chamou 'Abracadabra', com uma capa bem diferente. Coube ao alemão Klaus Voormann dar a aparência final do álbum.

Carlos de Oliveira

08 de setembro de 2015 | 17h12

O que seria do rock sem suas lendas, algumas delas bem verdadeiras? Muito provavelmente, ele perderia um pouco de seu magnetismo, de seu encanto. Por falar de encanto, essa palavra remete a um dos mais importantes álbuns dos Beatles, aquele em que eles deram o salto rumo à maturidade musical. Revolver nada teve a ver com a arma. Foi, sim, uma palavra para definir o movimento de rotação, nesse caso específico, a rotação de um disco na vitrola. Estávamos em 1966 e as vitrolas estavam em alta.

Acapa de 'Abracadabra', rejeitada pelos Beatles. Em seu lugar surgiria 'Revolver', com capa desenhada pelo alemão Klaus Voormann.

A capa de ‘Abracadabra’, rejeitada pelos Beatles. Em seu lugar surgiria ‘Revolver’, com capa desenhada pelo alemão Klaus Voormann.

Mas e a lenda? Vamos a ela: faltou pouco para Revolver nem existir. O sétimo álbum da banda quase se chamou Abracadabra. O nome, ligado de alguma forma à magia, ao encantamento, até que não estava muito fora da proposta de renovação, de surpresa, perseguida pela banda desde Rubber Soul.

Espiral – Mas era um título meio infantil, meio insosso, e foi recusado. Com o nome foi-se também a capa idealizada pelo brilhante fotógrafo Robert Freeman: uma colagem em espiral, feita com fotos repetidas do rosto de cada beatle.

A capa de Rubber Soul, que antecedeu Revolver: foto de Robert Freeman.

A capa de Rubber Soul, que antecedeu Revolver: foto de Robert Freeman.

Freeman era velho conhecido dos Beatles, autor das fotos de outras capas como With the Beatles, Beatles for Sale, Help e Rubber Soul, além de uma série de outras fotos da banda.

Consumada a recusa de Abracadabra, John Lennon lembrou-se de Klaus Voormann, artista plástico e músico alemão, amigo dos beatles dos tempos em que a banda tocava em inferninhos de Hamburgo, Alemanha, no início dos anos 60.

Existencialistas – Voormann era namorado da fotógrafa Astrid Kirshherr, autora das várias fotos que documentam a passagem dos ainda adolescentes beatles por Hamburgo. Ambos integravam um grupo de artistas orientados pelo existencialismo, os chamados Exis. Rompido o namoro com Klaus, Astrid uniu-se a Stuart Sutcliffe, na época baixista dos Beatles, que morreria pouco tempo depois, em 1962, de um derrame cerebral.

Os esboços de Klaus Voormann para a capa de Revolver: 40 libras de pagamento e um Grammy em 1966.

Os esboços de Klaus Voormann para a capa de Revolver: 40 libras de pagamento e um Grammy em 1966.

Klaus Voormann em 1966 e a versão final da capa de Revolver.

Klaus Voormann em 1966 e a versão final da capa de Revolver.

A foto que serviu de contracapa do álbum Revolver.

A foto que serviu de contracapa do álbum Revolver.

40 libras – A capa do novo disco foi produzida em poucos dias. Voormann fez cinco esboços e o escolhido encaixou-se perfeitamente com a proposta do álbum: ele teria de refletir algo novo, um certo sabor de vanguarda.

Aquele 1966 estava sendo um ano de descobertas, entre elas os tais estados alterados de percepção. Os Beatles haviam entrado na sua fase lisérgica.

Terminado o trabalho (uma colagem mesclando fotos e desenhos), Voormann recebeu 40 libras e o Grammy de Melhor Capa de 1966.

Algumas palavras mais sobre Voormann. Além de artista plástico, o amigo alemão dos Beatles também era baixista. Tocou com a banda de Manfred Mann, com George Harrison no álbum All Things Must Pass, com Ringo Starr e com John Lennon, na fase pós-Beatles.

De volta a Revolver. Se era novidade o que os Beatles queriam, ela surgiu logo na primeira faixa do novo álbum. Pela primeira vez na história da banda, uma composição de George Harrison abria o disco.

Algumas faixas – Taxman foi uma música de protesto. Não a tradicional canção contra a guerra do Vietnam, muito em moda na época, mas contra a absurda carga de impostos que caía em cascata sobre ganhos financeiros numa Inglaterra administrada pelo então primeiro-ministro trabalhista Herold Wilson.

Em 1980, Lennon, em entrevista à Playboy, disse que George chegou a pedir-lhe ajuda com a música. Meio de má vontade (“sempre fomos Lennon e McCartney”), John sugeriu o backing vocal que, além de Herold Wilson, cita Edward Heath, líder conservador. Embora, pelo menos oficialmente, Harrison fosse o guitarrista solista da banda, foi McCartney que fez o antológico solo da música. Taxman continua atual. Nos Estados Unidos, ela é tocada nas rádios e nos noticiários de TV todo dia 15 de abril, data em que as declarações de renda devem ser entregues ao fisco americano.

Eleanor – Quatro violinos, duas violas e dois cellos pontearam a lúgubre Eleanor Rigby – esposa de um certo Thomas Wood, que morreu em 10 de outubro de 1939, aos 44 anos, enquanto dormia. É o que diz a lápide de granito perdida entre tantas outras no Woolton Cemetery, ao sul de Liverpool.  Ainda hoje, ouvidos musicais mais privilegiados (ou delirantes) garantem identificar algum sotaque de Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, no fraseado de cordas que acompanha a desafortunada Eleanor até seu túmulo.

Dó maior – Em Revolver, os Beatles conseguiram acomodar uma melodiosa Here, There and Everywhere com a desconstrutivista, dadaísta até, Tomorrow Never Knows, perturbadora obra proposta por John Lennon, cuja harmonia é um único acorde de dó maior.

Motow – Em Got to Get You Into My Life, a voz forte de Paul foi buscar cumplicidade nos jazzistas britânicos, que comparaceram com três trompetistas (Eddy Thorton, Ian Hamer e Les Conlon) e dois saxofonistas (Alan Branscombe e Pete Coe), que atacaram a faixa com a energia dos gênios negros da norte-americana Motow.

Os Beatles e Revolver devem muito a Geoff Emerick, engenheiro de som da EMI que trabalhava com o produtor e ‘quinto beatle’ George Martin.  A Emerick e a suas subversões são creditadas a riqueza de timbres que emana do álbum. A EMI era uma empresa ortodoxa. Cheia de regras técnicas, não permitia a utilização de microfones junto aos instrumentos e amplificadores. Alegava que os sensíveis equipamentos seriam danificados.

John, Paul, Ringo e George em estúdio, durante as gravações de Revolver, em 1966.

John, Paul, Ringo e George em estúdio, durante as gravações de Revolver, em 1966.

Novo som – Inconformado com tais regras, Emerick aproximou os microfones dos amplificadores, violões, violinos, metais e, principalmente, da bateria. O resultado foi demolidor. O som dos Beatles mudou radicalmente. Para melhor. A EMI detestou e vetou a manobra. Os Beatles adoraram e desafiaram o status quo. Numa reunião tensa com a direção da gravadora, o ultimato: “De agora em diante, esse é o nosso som. Ou será assim ou não será de jeito nenhum”, disse um resoluto Paul McCartney, em nome do grupo.

Como seria mais fácil comprar microfones novos do que descobrir outra mina de ouro como os Beatles, a EMI cedeu. Revolver tornava-se um dos mais espetaculares disco da banda. Hoje, 49 anos depois, ele continua novo, à frente do tempo, surpreendente a cada nota, a cada verso. A um passo de se tornar eterno. Por falar em eterno, vale lembrar que depois de Revolver veio Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

E novas lendas estavam a caminho.