Carol Kaye, a primeira heroína do contrabaixo.

Carol Kaye, a primeira heroína do contrabaixo.

Nem sempre os melhores músicos de uma banda são aqueles que estão no palco ou na capa dos CDs. Músicos de estúdio têm grande importância no sucesso de muita gente. Anonimamente eles deram e continuam dando contribuições importantes para grupos reconhecidos. Uma dessas pessoas é a guitarrista e baixista Carol Kaye, hoje com 80 anos e já aposentada. Nos anos 60, como integrante da Wrecking Crew ou em participações solo ela tocou em álbuns de artistas da maior importância, entre eles os Beach Boys, Ray Charles, Joe Cocker, Monkees e Frank Zappa, apenas para citar poucos exemplos. Uma desconhecida de muita gente, mas considerada a primeira dama do contrabaixo.

Carlos de Oliveira

14 de março de 2016 | 10h33

Cite o nome de algum baixista famoso do rock, do pop ou mesmo do jazz. Paul McCartney, dos Beatles. John Entwistle, do The Who. Bill Wyman, dos Stones, Jaco Pastorius, do Weather Report. Tantos outros. A lista é grande. Todos grandes músicos. Alguns pioneiros, outros inovadores, outros ousados. Hoje, entretanto, o objetivo não é incensar esses virtuosos, mas tentar corrigir uma injustiça. Quem já ouviu falar em Carol Kaye? Pouca gente? Normal. Vamos torná-la mais conhecida.

Carol e seu baixo Fender: suporte musical para os grandes dos anos 60.

Carol e seu baixo Fender: suporte musical para os grandes dos anos 60.

Nos bastidores – Você pode não ter ouvido falar em Carol Kaye, mas certamente já ouviu Carol tocando seu contrabaixo em discos dos Beach Boys, da dupla Simon & Garfunkel, dos Monkees, de Joe Cocker, Ray Charles, Frank Sinatra, Lou Rawls, Glen Campbell, Sam Cooke e Frank Zappa entre outros. Com os Beach Boys ela gravou Good Vibrations, Help Me Rhonda, California Girls e Sloop John B (esta última música do antológico álbum Pet Sounds). É dela o baixo em I’m a Believer, dos Monkees, e em Homeward Bound, de Simon & Garfunkel.

Trilhas sonoras – Carol também trabalhou nas produções de Quincy Jones, Lallo Schiffin e Phil Spector, além de assinar a criação de trilhas sonoras de famosos seriados de TV dos anos 60/70, como o Agente 86, Missão Impossível, M.A.S.H, Kojak, Hawaii 5.0, A Família Adams e Bonanza, entre outros.

Em 1958, Carol tocou a guitarra na gravação de La Bamba, com Ritchie Valens.

Em 1958, Carol tocou a guitarra na gravação de La Bamba, com Ritchie Valens.

Carol também é guitarrista. Foi ela que tocou o instrumento na gravação da lendária La Bamba, de Ritchie Valens, em 1958. Foram pelo menos dez mil gravações ao longo de quase 60 anos de carreira.

Carol em estúdio com o ....... nos anos 60:

Carol em estúdio com o Wrecking Crew nos anos 60: “Notas musicais não têm sexo”.

Notas sem sexo – Nos anos 60, não era nada usual uma mulher entrar num estúdio de gravação empunhando um baixo Fender, sentar-se, plugar seu instrumento, ajeitar a partitura e tocar com gente famosa da época. Mas Carol tocava com um competente grupo de músicos de estúdio de Los Angeles. Era o Wrecking Crew, a quem é creditada boa parte do som do rock/R&B/jazz da epoca. “As pessoas me perguntavam se não era difícil para uma mulher tocar em um estúdio de gravação. E eu sempre respondi que não. Notas musicais não têm sexo. Ou você toca bem ou não”, disse Carol.

Boas vibrações – Com 80 anos hoje, Carol parou de gravar, mas não abandonou a música. Escreveu métodos para quem pretende estudar contrabaixo. Participa de wokshops musicais e dá aulas. Até hoje Carol mantém contato com Brian Wilson, líder dos Beach Boys, com quem ela gravou várias vezes.

Ouça e veja o making of de Good Vibrations, dos Beach Boys, em 1996. O contrabaixo foi tocado por Carol Kaye:

Ouça I’m a Believer, com os Monkees, também de 1966. Na gravação, o baixo foi tocado por Carol Kaye:

Carol Kaye também tocou baixo na gravação de Sloop John B, dos Beach Boys, no álbum Pet Sound, de 1967. Ouça:

Professora – Carol Kaye foi pioneira e abriu caminho para outras baixistas, entre elas virtuosas como a americana Esperanza Spalding e a australiana Tal Wilkenfeld, que toca com o guitarrista inglês Jeff Beck. Nesta breve (e, a bem da verdade, incompleta lista) podemos acrescentar Gail Ann Dorsey, que tocava com David Bowie.

Veja agora Carol Kaye por ela mesma, numa entrevista concedida há dois anos a uma TV americana. No vídeo que se segue ela conta de maneira breve um pouco sobre sua carreira e os artistas que acompanhou. Apesar de estar em inglês, vale a pena acompanhar, conhecer e se surpreender com essa incrível musicista.

Para encerrar, um vídeo delicioso. Aos 80 anos, Carol Kaye dá uma aula a Gene Simmons, o baixista do Kiss:

Como se pode ver, não é nada fácil ser aluno de uma pioneira, mesmo sendo um roqueiro famoso. Simmons sofreu para pegar o groove. Carol é um música que sempre atuou nos bastidores, nos estúdios, anonimamente e que merece reconhecimento.