Bruce Springsteen encara o fantasma da depressão em autobiografia

Bruce Springsteen encara o fantasma da depressão em autobiografia

No próximo dia 27, o cantor e compositor Bruce Springsteen lança sua autobiografia intitulada "Born to Run", mesmo título de um de seus maiores sucessos musicais. No livro, Bruce fala de sua luta contra a depressão que o persegue desde os anos 80 e que se acentuou há sete anos. Lamenta que nunca ouviu um "eu te amo" de seu pai e anuncia um álbum solo para o ano que vem.

Carlos de Oliveira

08 de setembro de 2016 | 16h06

Pouco importa se no palco ele cantar Born in the USA, Streets of Philadelphia ou Sociedade Alternativa, de Raul Seixas, em português até que razoável. A entrega e a alta energia serão as mesmas. Sua velha guitarra Fender Telecaster vai soar quase selvagem e a maioria dos espectadores vai deixar o concerto feliz, nas nuvens. Em seu camarim, a realidade poderá será bem outra. Bruce Springsteen, às vésperas dos 67 anos, que completa dia 23, será aquele homem que há anos convive com pelo menos dois fantasmas: a depressão e a relação conflituosa com Doug, seu pai, morto em 1998.

Born to Run”, a autobiografia de Bruce Springsteen a ser lançada dia 27 próximo.

Autobiografia – Aqui e ali, o cantor e compositor norte-americano já abordou esses temas, mas agora ele desce aos detalhes em sua autobiografia intitulada Born to Run, com data de lançamento marcada para o dia 27 deste mês. Em entrevista concedida à revista Vanity Fair e replicada pela Rolling Stone, Bruce Springsteen nada esconde sobre sua luta contra a depressão que o persegue desde 2009, quando completou 60 anos.

Bruce na capa da Vanity Fair, em foto de Annie Leibovitz.

Bruce Springsteen na capa da revista Vanity Fair, em foto de Annie Leibovitz: entrevista reveladora.

“Um dos pontos que eu abordo no livro é que não importa onde ou com quem você esteja, a depressão nunca te deixa. Você nunca chega a conhecer os seus parâmetros. Estive péssimo desde que completei 60 anos e permaneci assim até os 62. Depois, fiquei bem por um ano e caí novamente entre os 63 e os 64, o que não é uma boa estatística”, disse ele.

Em sua autobiografia, Bruce relaciona sua depressão ao pai, a quem descreve “um pouco como um personagem de Bukowski (Henry Charles Bukowski Jr., escritor americano nascido na Alemanha)”, que também padecia de depressão.

Operação na coluna cervical deixou Bruce sem voz durante três meses

Cirurgia na coluna cervical deixou Bruce Springsteen sem voz durante três meses.

Mágoa – Ao longo das páginas de Born to Run, Bruce deixa subentendido sua vontade de reconciliar-se com o pai sem, contudo, deixar de expor suas mágoas. “Nunca ouvi um ‘eu te amo’ espontâneo de Doug. O melhor que eu consegui dele foi eu dizer ‘te amo pops’ e ele me responder ‘ah, eu também’. Mesmo depois que ele teve um derrame, mesmo chorando por causa disso, ele só diria ‘eu também’. Era possível ouvir sua voz cortada, mas as palavras não saiam”.

Bruce Springsteen e sua velha Fender Telecaster

Bruce Springsteen e sua velha guitarra Fender Telecaster

Esposa – A depressão recorrente não impediu Bruce de lançar o álbum Wrecking Ball em 2012, mantendo-se ativo e com uma invejável agenda de longos concertos que podem durar horas. Apesar de toda essa atividade, está lá no álbum a canção This Depression, uma espécie de pretexto para o músico voltar a falar desse seu fantasma. No livro, Bruce admite que foi sua esposa Patti Scialfa quem observou o agravamento de seu estado de saúde e o convenceu a procurar ajuda médica.

Patti lembra que Bruce já havia apresentado episódios de depressão bem antes dos 60 anos, mais exatamente na década de 80, e que não se sente cômoda ao ler essa parte do livro de seu marido. “Mas esse é o Bruce e creio que é genial para ele escrever sobre a depressão, até porque muito de seu trabalho tem origem exatamente nas tentativas que ele faz de superar essa situação”, disse ela.

Ouça Born in the USA:

Ouça Streets of Philadelphia:

Cirurgia – Em 2013, em meio à sua luta contra a depressão, Bruce teve de encarar uma cirurgia que o deixou apavorado. Aos poucos, mas de forma crescente, o cantor passou a sentir um adormecimento no lado esquerdo de seu corpo. Esse mal-estar foi se tornando crônico e já comprometia sua maneira de tocar guitarra. Uma série de exames mostrou que uma vértebra na coluna cervical era responsável pelo pinçamento de determinados nervos, o que provocava o torpor.

A solução teria de ser cirúrgica e, para tanto, os médicos teriam de abrir sua garganta, afastar suas cordas vocais de modo a terem espaço para acessar a vértebra em questão. O pavor de perder a voz só o deixou depois de três meses, quando suas cordas vocais voltaram ao normal e o problema em sua coluna foi solucionado.

Cantor e compositor anuncia álbum solo em 2017.

Cantor e compositor anuncia álbum solo em 2017.

Álbum solo – Para compensar o tempo parado, Além do livro, Bruce anuncia um novo álbum para 2017, o primeiro desde Wrecking Ball. Desda vez ele não estará acompanhado de sua banda, a Street Band. “Será um disco solo, um álbum pop com muitas cordas e instrumentação”. Por ora, a preocupação de Bruce é o lançamento da autobiografia Born to Run (homônima de um de seus maiores sucessos, de 1975), que virá acompanhada de uma trilha sonora que abrange toda a sua carreira, com cinco tema inéditos.