Beatles nos EUA: nunca tantos críticos erraram tanto naquele 1964.

Beatles nos EUA: nunca tantos críticos erraram tanto naquele 1964.

Notáveis críticos musicais da imprensa americana cometeram grandes injustiças com os Beatles, quando a banda fez sua primeira turnê pela América, em fevereiro de 1964. Para eles, além de "horrososos" os quatro rapazes não sabiam tocar, eram uma onda passageira e, pior, ficariam todos carecas. Erraram feio. Mais uma entre muitas histórias do rock.

Carlos de Oliveira

09 de abril de 2015 | 18h42

Um pesadelo, uma grande piada, horrorosos, um engodo, dissonantes e futuros carecas foram algumas das expressões utilizadas por críticos musicais dos mais influentes veículos da imprensa norte-americana sobre a primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos, há 51 anos, em fevereiro de 1964. O mundo ocidental, ainda convalescente dos estragos da Segunda Guerra, era novamente sacudido. Dessa vez, pelos acordes de músicas estranhas, mas irresistíveis, como She Loves You e I Want to Hold Your Hand.

Nos EUA, muita inveja e dor de cotovelo. Aqueles quatro inglesinhos de uma Liverpool operária e pouco sofisticada, com cabelos parecendo “tigelas de pudim”, vestindo terninhos “dândi eduardianos-beatnik” eram os novos queridinhos num país que tinha Frank Sinatra e Elvis Presley como ídolos. Difícil engolir aquela invasão. Os ataques vieram de todos os lados, de todas as formas, mal humorados, mas o tempo revelou um dado irrefutável: foram todos inócuos.

Passaporte – No dia 13 de janeiro I Want to Hold Your Hand começou a ser tocada nas rádios americanas. Em apenas quatro dias, 1,5 milhão de cópias foram vendidas e os Beatles assumiram o alto das paradas de sucesso. Menos de uma semana depois, o álbum Meet the Beatles foi mais do que uma mera apresentação. Foi o passaporte para a primeira turnê da banda na América.

Em 7 de fevereiro, o aeroporto de Nova York foi paralisado por cerca de três mil jovens histéricos e, sobretudo, histéricas. Ao colocar os pés em terras americanas, os quatro rapazes, apesar de todas as críticas negativas, consolidaram a beatlemania.

Dois dias depois, foram recebidos no concorrido Ed Sullivan Show e, com uma apresentação de apenas dez minutos, garantiram uma audiência de 13 milhões de espectadores. Não houve crimes naquela noite em Nova York. No dia 11, o concerto no Coliseu de Washington. O som dos gritos era tão alto que poucos conseguiram ouvir as músicas executadas. Um dia depois, o show no Carnegie Hall, em Nova York. Para acomodar tantos fãs, os organizadores colocaram cadeiras até no palco.

Veja a apresentação dos Beatles no Ed Sullivan Show, em 9 de fevereiro de 1964, em Nova York:

Crueldades – Como ninguém consegue agradar a todos o tempo todo, grupos conservadores colocaram-se à porta da casa de espetáculos e provocaram com cartazes do tipo “Beatles go home” e “DDT kills Beatles”. Cruéis, muitos jornalistas fizeram coro a esses grupos. Nunca erraram tanto em suas análises. Ou agressões?

Vejam o que eles disseram:

1) Theodore Strongin

New York Times

10 de fevereiro

A qualidade vocal dos Beatles pode ser descrita como uma voz rouca incoerente, sem o mínimo necessário para comunicar seus textos esquemáticos. Há duas teorias para explicar a popularidade dos Beatles. A primeira: nós não temos um ídolo há vários anos. Os Beatles são diferentes e nós temos que nos livrar de nosso excesso de energia de alguma forma.  A segunda: quanto mais os pais se indignarem com isso tudo, mais suas crianças irão gritar histericamente.

2) Los Angeles Times

11 de fevereiro

Com suas cabeleiras bizarras, os Beatles são, obviamente, o sonho de algum agente de imprensa. Nem mesmo suas mães afirmariam que eles cantam bem. A pelagem emaranhada que eles pretendem tornar memorável projeta um certo charme  pueril  que os impulsiona a um primitivo, digamos, macaco.

3) George McKinnon

Boston Globe

16 de fevereiro

Não deixe os Beatles incomodá-lo. Se você não pensar neles, eles irão embora. Em mais alguns anos eles provavelmente estarão carecas . E os adolescentes, que sigam em frente e aproveitem a sua beatlemania. Não vai ser fatal e em alguns anos ela vai render-lhes boas risadas.

4) Hartford Courant

23 de fevereiro

Os Beatles vão passar! A pergunta é: o que virá depois?

5) Newsweek

24 de fevereiro

Visualmente eles são um pesadelo. Apertados , com jeito de dândis em terninhos eduardianos-beatnik e cabelos como grandes tigelas de pudim. Musicalmente são um desastre. Guitarras e tambores batendo de forma impiedosa acabam com o ritmo, com a  harmonia e com a melodia. Suas letras (pontuadas por gritos de iê, iê, iê) são uma catástrofe, uma miscelânea absurda de sentimentos românticos , típicos de cartão de Dia dos Namorados. A grande questão no mundo da música, no momento é: será que os Beatles vão durar? É difícil imaginar qualquer outro campo em que eles possam aplicar seus talentos. Assim, as chances são de que eles vão desaparecer.

6) Donald Freeman

Chicago Tribune

29 de fevereiro

Os Beatles devem ser uma grande piada, uma piada maluca, um gigantesco engodo. Estão vendendo 20 mil perucas beatle por dia  em Nova York, a US$ 2,98 cada. Então, eu acho que todo mundo quer compartilhar essa piada. E seus lucros.

7) Science Newsletter

29 de fevereiro

Os Beatles seguem uma linha de figuras glamourosas que despertou gritos apaixonados e desmaios profundos. A figura mais proeminente na década de 1940 foi Frank Sinatra. Na década de 1950, Elvis Presley. Essas glórias são passado. Ficaram velhos demais para serem ídolos de adolescentes. O mesmo vai acontecer com os Beatles. Entretanto, há duas maneiras de lidar com essa situação: ou sorrir e aguentar ou relaxar e aproveitar.

8) Alan Rinzler

The Nation

2 de março

A reação no Carnegie Hall não foi uma resposta real para um verdadeiro estímulo.  A casa cheia foi constituída nomeadamente de jovens senhoras da classe média alta, elegantemente vestidas, cuidadosamente maquiadas, trazidas para a cidade por carros particulares ou ônibus suburbanos para uma noite de uivos, para gritar, bater, torcer e agarrar-se em êxtase lá fora, junto aos holofotes, para que todos possam ver e com as bênçãos de todas as autoridades. Pais indulgentes, empresários aproveitadores, mídia nacional alegre, até mesmo a polícia. Mais tarde, todos irão para casa e crescer como suas mamães. Por ora, essa é a chance de tentar uma espécie segura e muito particular de êxtase.

9) William F. Buckley Jr.

Boston Globe

13 de setembro

Um crítico respeitável  escrevendo para National Review depois de ver Presley se contorcer em um dos shows no Ed Sullivan Show, sugeriu que os futuros artistas passem a lutar com polvos vivos caso queiram entreter o público americano. Os Beatles não terão necessariamente de fazer isso. Mas há quem gostaria de vê-los assim…e o polvo vencer a luta.  Os Beatles não são apenas horríveis. Eles são tão incrivelmente horríveis, tão terrivelmente dissonantes, tão dogmaticamente insensíveis à magia da arte que acabam se qualificando como as cabeças coroadas da anti-música, como papas impostores que entrarão para a história como os anti-papas.

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