B.B. King, um bluseiro quase irlandês

B.B. King, um bluseiro quase irlandês

A vida de Riley Ben King, ou Blues Boy King, ou B.B. King, o rei do blues, virou filme. Recém-lançado nos Estados Unidos, ele é narrado por Morgan Freeman, com depoimentos de personalidades musicais como Eric Clapton, Ringo Starr, Carlos Santana, Bono Vox e Buddy Guy, entre outros astros. Disponível em DVD na Amazon, o filme é um importante documento sobre a vida e a obra desse incrível senhor de 89 anos, ainda na ativa e que deve seu nome ao patrão irlandês de seu pai.

Carlos de Oliveira

11 de agosto de 2014 | 08h14

“The Life of Riley”, um filme sobre a vida de B.B. King.

B. B. é a abreviatura mais famosa do blues. Só não é da música como um todo porque existe J. S. Bach, é claro. Dois gênios, cada um em seu tempo. Cada um com seu estilo. Melhor não misturá-los. Não daria muito certo. Por isso, vamos falar apenas do primeiro, de Riley Ben King ou apenas B. B. King. Seus dois nomes, o real e o artístico, têm razão de ser. Lucille, o nome de sua guitarra, também. Pois são histórias como essas que embalam o DVD recém-lançado no mercado americano, intitulado The Life of Riley, de Jon Brewer. Narrado pelo ator Morgan Freeman e sem previsão de lançamento no Brasil, o filme está disponível, por exemplo, na Amazon, ao preço de  US$ 15,26 (sem o frete). Trata-se de um documento indispensável para quem se interessa pela história do blues e desse senhor, hoje com 89 anos, ainda na ativa.

Tributo a B.B.

A primeira história é a de seu nome de batismo. Riley nasceu no dia 16 de setembro de 1925, numa plantação de algodão localizada em Itta Bena, próximo a Indianola, no Mississippi. A propriedade era de um irlandês chamado Jim O’Riley, de quem seu pai era muito amigo. Tão amigo que decidiu dar ao filho o nome de Riley Ben King. Já adulto e famoso, B. B., em excursão pela Irlanda, revelou que sempre se sentiu um pouco irlandês. Sua explicação: “O senhor O’Riley e meu pai eram muito amigos. Em homenagem a ele, herdei o nome Riley, mas sem o O’ inicial. Um dia, muitos anos depois, perguntei a meu pai o porquê disso. E ele me respondeu: ‘Você não parecia exatamente um irlandês’ “. Em 1988, o U2, a mais bem sucedida banda irlandesa de pop rock, fez outra homenagem a B. B., com a música “When Love Comes do Town”, no álbum “Rattle and Hum”. Veja vídeo:

Blues Boy – O jovem Riley teve uma infância dura na plantação de algodão. Aos 4 anos seus pais se separaram. Foi criado pela mãe e pela vó. Aos 10 já trabalhava nas colheitas, ganhando US$ 35 centavos por dia. Aos 12 comprou um violão e começou a reproduzir as músicas que ouvia durante o trabalho, aqueles lamentos negros que são a alma do blues. “Era uma guitarra acústica. Não tínhamos eletricidade em casa”. Viu que tinha vocação para a música e, em 1947, partiu para Memphis, Tennessee. Trabalhou como disc jockey em uma rádio local e ganhou o apelido de B. B. (abreviatura de Blues Boy). Juntou ao B. B. seu nome King e começou sua vida de músico de blues. Mas foi um duro começo.

B.B. em 1950: começo difícil.

De início, foi rejeitado por jovens negros, para quem sua música lembrava os duros tempos da escravidão nos campos de algodão. Passou a tocar blues para plateias brancas e acabou influenciando nomes como Eric Clapton, Keith Richards, Johnny Winter, George Harrison e Jeff  Beck, para citar alguns. John Lennon chegou a afirmar que seu maior sonho era tocar guitarra como B. B. King.

Blues Boy King, início de carreira em Memphis.

 

Um jovem B.B. King e sua Lucille, uma Gibson 345 negra e de som inconfundível.

Lucille – Fazia um frio de rachar naquela noite de 1949, na pequena Twist, Arkansas. Como estava muito difícil tocar com os dedos quase congelados, B. B. concordou que se acendesse um barril cheio de querosene no meio do salão de dança. Era para esquentar o ambiente. Entre uma música e outra, B. B., então um garoto de 21 anos e voz poderosa,viu quando dois homens bêbados se atracaram numa briga besta e derrubaram o tambor em chamas. O fogo espalhou-se rapidamente e todos tiveram de sair correndo para não morrer. Já do lado de fora, B. B. se deu conta de que sua guitarra havia ficado no palco. Era um instrumento barato, de US$ 30, mas era seu, e único. Voltou e o resgatou. Dias depois, soube que os dois brigões haviam morrido por causa do amor por uma mesma mulher de nome Lucille. Nascia uma lenda: a disputada e mortal Lucille tornou-se o nome de sua guitarra, uma Gibson 345 negra.

 

B.B. aos 89 anos: sentando, mas ainda na ativa.

Apesar de seus 89 anos, do sobrepeso, do diabetes e de uma inflamação nos joelhos que o obriga a cantar e a tocar sentado, B. B. King não se cansa nem se separa de sua Lucille. É presença constante no Cross Roads Guitar Festival, organizado anualmente por Eric Clapton, com o objetivo de levantar fundos para sua clínica de recuperação de dependentes químicos, na ilha de Antígua, no Caribe. Veio várias vezes ao Brasil com sua banda e chegou a dar uma de suas Lucille ao papa João Paulo II. Por essas e por outras histórias, vale a pena investir no DVD The Life of Riley.

 

 

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