Abbey Road volta ao primeiro lugar nas paradas inglesas. Fita inédita mostra que a intenção da banda era gravar outro álbum.

Abbey Road volta ao primeiro lugar nas paradas inglesas. Fita inédita mostra que a intenção da banda era gravar outro álbum.

Há 50 anos, John Paul e George discutiram a produção de um 'single' natalino e de um novo álbum sem a mística Lennon & McCartney. Cada autor assinaria sua composição.

Carlos de Oliveira

09 de outubro de 2019 | 11h10

Os Beatles são para sempre. Como duvidar dessa afirmação cunhada há tantos anos? Mais do que nunca, Beatles are 4ever. Dois fatos comprovam essa máxima. Cinquenta anos depois de seu lançamento, o álbum Abbey Road volta a ocupar o primero lugar nas paradas britânicas, especialmente agora, com o relançamento da obra em edição de luxo, totalmente remixada, faixas extras e brindes. Mais: o biógrafo e arquivista do Beatles, Mark Lewisohn, de 61 anos, acaba de trazer a público uma fita gravada há 50 anos, na qual Paul McCartney, George Harrison e John Lennon discutem a realização de um álbum pós-Abbey Road. Os Beatles queriam continuar juntos. Vamos aos fatos.

Mark Lewisonh: biógrafo e arquivista dos Beatles tem um dos maiores acervos de informações sobre a banda. Há pouco dias ele presentou ao ‘The Guardian’ uma gravação inédita na qual John, George e Paul discutiam a produção de novos discos depois de ‘Abbey Road’.

Sobre as paradas britânicas, pouco importa se  Abbey Road não repita o recorde de 1969, quando ocupou o primeiro lugar em vendas por longas 17 semanas. O que chama a atenção é a perenidade do fenômeno e as gerações que já conquistou. Paul McCartney, em boa parte o idealizador de Abbey Road, não escondeu sua surpresa. “É difícil acreditar que Abbey Road ainda se mantenha firme depois de tantos anos. Mas, novamente, é um álbum muito legal (“it’s a bloody cool album”), disse o ex-beatle ao Guardian.

Um single e um álbum – Sobre a intenção de os Beatles continuarem a produzir depois de Abbey Road, Mark Lewisonh, provavelmente a pessoa que mais reúne informações sobre a banda na Inglaterra, fez uma revelação bombástica ao repórter Richard Williams, também do Guardian. No dia 8 de setembro de 1969, logo após o encerramento das gravações e antes de seu lançamento em 26 de outubro, Paul, John e George reuniram-se na sede da Apple, na Saville Row, Londres, para discutir a produção de um novo álbum e de um single que aproveitasse a época de Natal, que se aproximava. O single de Natal sempre foi uma estratégia comercial utilizada pela banda.

Gravador – John trouxe um gravador portátil, colocou-0 sobre a mesa e iniciou o registro do encontro. Sua primeira frase foi; “Ringo, você não pode estar aqui, mas o gravador é para que você possa ouvir o que estamos discutindo”. De fato, logo após as gravações de Abbey Road, Ringo Starr foi hospitalizado para tratar de problemas digestivos crônicos. Quando criança, o baterista teve uma peritonite e por pouco não morreu. A partir daí, sequelas nunca mais o abandonaram. Para encarar as crises, Ringo alimentava-se quase que exclusivamente de feijões em lata com torradas.

John queria mais – Segundo Mark Lewisonh, a fita recém-descoberta é uma revelação. “Os livros sempre nos disseram que Abbey Road seria o fim dos Beatles. De fato, foi, por motivos comerciais. O que a fita nos mostra, do ponto de vista meramente artístico, é que três deles estavam dispostos a continuar. Sempre se afirmou que Lennon queria a separação do grupo. Contudo, quando ouvimos a fita percebemos que a intenção não era exatamente essa, o que de certa forma reescreve a história e o que pensávamos que sabíamos”, disse Lewisonh.

O repórter do Guardian dá seu testemunho: “Lewisonh liga o gravador e ouvimos John Lennon a sugerir que cada um deles apresente músicas candidatas ao single. Propõe ainda uma nova fórmula para compor um próximo álbum. Seriam quatro músicas de Paul, quatro de John, quatro de George e duas de Ringo, ‘se ele quiser'”.

A capa antológica de Abbey Road: John, George e Paul chegaram a discutir novas produções e que cada um assinasse suas própria canções, derrubando-se a mística Lennon & McCartney.

Fim da mística – E John foi bem além. Ele quis derrubar o que chamou de “mito Lennon & McCartney”, propondo que a partir daquele momento as músicas da banda fossem creditadas unicamente a seu autor e não mais a uma entidade., a uma “parceria socrossanta”. Paul, em tom de voz relaxado, mas sempre arrogante, diz que “agora George tem a mesma posição de compositor que eu e John. Até este álbum pensava que as músicas de George não eram tão boas”, ignorando sucessos como Taxman e While My Guitar Gently Weeps.

Paul disse que não gostava das músicas de George. “Uma questão de gosto”, rebateu George.

“Questão de gosto” – Irritado, George interrompe o discurso de Paul e diz “Isso é uma questão de gosto. No final das contas, as pessoas gostaram de minhas músicas”.

John sai em defesa de George e diz que ninguém do grupo gostou de Maxwell Silver Hammer e que poderia ser uma boa ideia se Pauldesse esse tipo de música a artistas externos nos quais ele tinha interesse em promover, caso da cantora folk galesa Mary Hopkin. E Paul respondeu: “Gravei Maxwell porque gostei dela”.

Espetáculo teatral – Esses e outros detalhes sobre a vida e a carreira dos Beatles (e não apenas sobre o momento pós-Abbey Road) estão na palestra/espetáculo teatral intitulado Hornsey Road, produzido por Lewisonh, e em cartaz desde setembro com espetáculos itinerantes até dezembro pela Grã-Bretanha e Irlanda. Sobre sua chegada ao Brasil não existem informações. Na palestra o biógrafo exibe a fita gravada na Apple, fotos raras, novas mixagens de músicas, objetos pessoais e muitas histórias sobre a banda. Beatles para sempre.

 

 

 

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