Abbey Road, a travessia de uma rua que já dura 46 anos.

Abbey Road, a travessia de uma rua que já dura 46 anos.

Há 46 anos, no dia 8 de agosto de 1969, o fotógrafo escocês Iain Macmillan fez a foto da capa do álbum 'Abbey Road', o último gravado pelos Beatles. Neste sábado, turistas de todo o mundo e ingleses nostálgicos, como sempre acontece, vão repetir o gesto dos quatro rapazes e atravessar a rua que dá nome ao disco.

Carlos de Oliveira

07 de agosto de 2015 | 21h09

É sempre assim. No dia 8 de agosto alguma coisa muito especial acontece no distrito de Camden, no  centro-norte de Londres. Dezenas de turistas e de nativos se aglomeram numa esquina da Grove End para repetir um gesto que neste sábado (08/08) completa 46 anos. Todos querem atravessar a Abbey Road.

A cada do álbum Abbey Road: quinta de seis fotos tiradas no dia 8 de agosto de 1969.

A capa do álbum Abbey Road: quinta de seis fotos tiradas no dia 8 de agosto de 1969. Delírios e mensagens cifradas sobre a “morte” de Paul McCartney.

Ícone – Ela seria uma rua como muitas outras da capital inglesa, não fosse os Beatles terem cruzado aquela faixa de pedestres. A ação dos quatro músicos não levou mais do que dez minutos e apenas seis fotos foram feitas. Uma foi escolhida e se transformou na mais icônica capa de disco até hoje produzida: Abbey Road, lançado em 1969, o último da banda.

Verdades e delírios – Atravessar uma rua em fila indiana. John à frente, Ringo, Paul e George. Foram, voltaram, foram de novo. Seis clics. Nada mais banal. Nada mais simples. Nada mais genial. A capa do álbum Abbey Road revela um trabalho musical espetacular e, ao mesmo tempo, esconde um punhado de historietas, algumas verdadeiras, outras delirantes. Vamos, primeiramente, às verdadeiras.

Os Beatles vinham de uma desastrada experiência: a gravação do álbum Let It Be, que era para se chamar Get Back. (Aqui uma rápida explicação. Embora, comercialmente, Let It Be tenha sido lançado depois de Abbey Road, sua gravação se deu algum tempo antes. Então, do ponto de vista cronológico, Abbey Road foi  último álbum gravado pelos Beatles, sua obra derradeira).

Everest – A banda decidira voltar ao estúdio, gravar novas músicas, superar divergências, acalmar egos e, quem sabe, absorver a imagem de Yoko Ono, cada vez mais presente. Os Beatles ainda eram uma banda, embora, cada vez mais, atuassem individualmente. Precisavam de um nome para o novo trabalho. O engenheiro de som Goeff Emerick fumava um horroroso cigarro de marca Everest. Pronto, esse seria um bom nome para o álbum. Everest, sugerindo algo alto, imponente, como o monte dos Himalaias. Pensaram até em contratar um avião, mais provavelmente um helicóptero, que levasse os quatro beatles ao alto de uma montanha (certamente não o Everest), onde seriam fotografados.

Esboço – Uma boa ideia, não fosse uma logística complicada demais, altos custos e a pressão para que o disco fosse concluído o quanto antes. Ringo Starr, o beatle das boas e oportunas tiradas, sugeriu que fizessem algumas fotos por ali mesmo, nos arredores do estúdio da EMI, em Abbey Road, a velha “casa” da banda. Rapidamente, Paul McCartney fez, a lápis, o esboço do que poderia ser a foto e lá foram eles, apressados, especialmente John Lennon.

Esboço da foto feito às pressas por Paul McCartney.

Esboço da foto feito às pressas por Paul McCartney: foto da capa do disco seguiu suas indicações.

“Fotos idiotas ” – “Vamos tirar essa foto e sairmos logo daqui. Deveríamos estar gravando o disco e não posando para fotos idiotas”, disse um John irritado. Naquele 8 de agosto de 1969, por volta de 11h, o fotógrafo escocês Iain Macmillan, amigo de John e Yoko, só conseguiu fazer seis fotos. O quinto fotograma foi escolhido por McCartney e virou a capa do disco. Bem, essa foi a história, digamos, verdadeira.

Sósia – Agora vamos aos delírios. Eles ficaram por conta do boato de que Paul McCartney havia morrido e substituído por um sósia. E toda essa trama estaria explicada na capa de Abbey Road. Lennon, de branco, representaria um religioso. Ringo, de jaquetão preto, seria o agente funerário. Paul, descalço, seria o defunto. George, de jeans, seria o coveiro.

O Fusca branco: sua placa indicaria uma Linda McCartney viúva e um Paul que não havia completado 28 anos.

O Fusca branco: placa indicaria uma Linda McCartney viúva e um Paul que não chegaria aos 28 anos.

Viúva e turista – O Fusca branco de placa LMW-28IF, estacionado à esquerda, era outra mensagem. As três letras iniciais significariam Linda McCartney Widow (Linda McCartney Viúva). Interpretar o 28IF exigia uma dose extra de imaginação: 28 (anos) se (IF) Paul estivesse vivo.

Paul Cole, turista americano em Londres,

Paul Cole, turista americano em Londres, “promovido” a motorista de carro fúnebre: “Nunca ouvi Abbey Road. Prefiro os clássicos”.

Claro, havia o “carro de transportar defuntos”, estacionado à direita, cujo motorista estava postado ao lado do veículo. Anos mais tarde, ao se deparar com o álbum Abbey Road, o suposto motorista era apenas Paul Cole, um turista americano que aguardava sua esposa, perdida em algum museu da região. Delírios típicos dos anos 60.

Longa travessia – Hoje, agosto de 2015, 46 anos depois da foto, Paul está muito vivo. Ringo idem. John e George já se foram, mas o Beatles vão durar para sempre, assim como sua atravessia da Abbey Road.

 

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