50 anos sem John Coltrane, eterno santo, um arauto da felicidade.

50 anos sem John Coltrane, eterno santo, um arauto da felicidade.

Há 50 anos, em 17 de julho de 1967, com apenas 40 anos, morria John Coltrane, o maior saxofonista que o jazz já produziu.Tinha na música a sua religião, seu amor a Deus, em quem ele acreditava com devoção. Queria a felicidade das pessoas. Conseguiu.

Carlos de Oliveira

18 Julho 2017 | 09h19

Um presente para Deus. Aquilo que poderia ser interpretado como uma suprema pretensão, foi, na verdade, fruto de um supremo amor, de uma religiosidade a toda prova. Não falamos de um sacerdote, pastor, profeta ou o que seja, mas de um músico, do maior sax tenor da história do jazz. De John Coltrane. Pois foi com a intenção de dar um presente a Deus que Coltrane compôs, em 1964, sua obra mais primorosa, intitulada A Love Supreme (Um Supremo Amor), suite dividida em quatro movimentos, um clássico do jazz. Em 1966, poucos meses antes de morrer de câncer no fígado, com apenas 40 anos, Coltrane respondeu com uma frase mística à pergunta sobre o que esperava da década que se aproximava: “Vou tentar virar um santo”. No dia 17 de julho de 1967 Coltrane foi para o céu e há 50 anos vivemos apenas de sua saudade.

Coltrane disse um dia que queria virar um santo com a missão de alegrar as pessoas. Morreu há 50 anos, aos 40.

Em transe – “Virar santo”, ele dizia. Não havia blasfêmia, soberba ou ironia em sua vontade, apenas uma tentativa de ligar-se mais ao divino, ao transcendental, por meio da música. Exagero ou não, ele achava que a música – o jazz em particular – poderia salvar a humanidade, falando ao íntimo das pessoas, às suas almas. Foi o principal arauto do movimento avant-garde no jazz e acreditava firmemente em Deus, não necessariamente no Deus cristão.

Muitos críticos afirmam que Coltrane, com suas digressões por escalas modais e visitas às melodias étnicas (como as ragas indianas), fazia música religiosa. Vale assinalar que ele foi amigo pessoal e admirador musical de Ravi Shankar, musico clássico indiano, guia do beatle George Harrison nos mistérios da cítara e das ragas. Daí os solos longos que permeavam os temas centrais de suas composições e os registros mais agudos de seu saxofone, que pareciam chamados à conversão de seus ouvintes. Nos palcos era sério, um feiticeiro, um homem em transe. Um improvisador inesgotável que exauria a tessitura de seu instrumento. Difícil falar de Coltrane sem se deixar levar pela emoção, pela paixão.

“A Love Supreme”, a obra máxima de Coltrane, um presente a Deus e aos homens.

Expansão – Mas até onde teria chegado Coltrane, ou apenas Trane, se a morte não o tivesse colhido tão cedo? Difícil saber. Mas os músicos gostam de expandir sua música. Nessa medida, um certo concerto na Temple University dá algumas pistas.

Naima, uma composição de 1959, lançada em 1960 no álbum Giant Steps, tinha originais 4 minutos e 21 segundos. Pois na Temple ele a executou em 16:28. Crescent, do álbum de mesmo nome, lançado em 1964, tinha 8:41. No concerto em Filadélfia, 26:11. Expandir era a meta, mas poucos o entenderam naquele 11 de novembro distante. Tanto que parte da audiência fez menção de abandonar o teatro da Temple, segundo escreveu o crítico de jazz Francis Davis, uma das testemunhas dessa reação.

Ouça Naima, do álbum Giant Steps, de 1960: ode ao amor, à delicadeza:

Intuição – Em vez de se intimidar, Trane foi em frente e fez solos imensos para Leo (21:29) e My favotithe Things (23:18). E foi além. Explorou a percussão, utilizou um pandeiro e a voz. Mais tarde, pesquisadores como o neurologista Andrew Neher e o psicólogo Barry Bittman afirmaram que “os rituais musicais têm um impacto tangível sobre as pessoas que deles participam. As ondas cerebrais se alteram, a química do corpo é transformada e até mesmo a contagem de células brancas do sangue melhora. Estudos científicos e antropológicos concordam que a música deve incluir bateria (para o seu efeito pleno ser sentido) e deve durar pelo menos dez minutos”. Coltrane parece ter intuído essa fórmula com anos de antecedência.

Um músico sem fronteiras e sem preconceitos, aberto às mais variadas influências, com mergulhos nas ragas indianas.

Elevação – O crítico Ted Gioia, em artigo recente no Daily Beast, site nova-iorquino de reportagens, opinião, política e cultura pop, com mais de 17 milhões de leitores mensais, fez uma análise interessante de um Coltrane com 50, 60 ou mesmo 88 anos. “É difícil para mim imaginar um Coltrane entrando na onda fusion e do rock, que varreu o mundo do jazz nos meses que se seguiram à sua morte. Mas  posso facilmente imaginá-lo em 1971, se apresentando no Concerto para Bangladesh, ou em outros eventos beneficentes. Não consigo imaginá-lo participando do movimento jazz retro dos anos 80, mas posso vê-lo orientando jovens músicos ou engado na luta por mudanças positivas na África, na Ásia ou em outros lugares onde seus instintos musicais, espirituais e políticos teriam encontrado terreno fértil para a elevação e a transformação do homem”.

Ouça My Favorite Things, de 1961, um hino à alegria:

Heroína – Chegar a esse ponto exigiu de Trane um aprendizado longo e cruel, tendo se dobrado aos efeitos devastadores da heroína e do álcool. No início da carreira, no fim dos anos 40 e início dos 50, tocou com Dizzy Gillespie. Foi expulso de sua primeira banda por causa da heroína. Em 55 passou a tocar no quinteto de Miles Davis, mas foi novamente expulso por conta de seu vício. Em 1957, por seu suposto contato com o islamismo, apresentado a ele por Naima Grubb, sua esposa convertida ao Islã, Trane venceu seus vícios. A partir daí, ateve-se ao transcendental.

Sua suposta conversão ao islamismo o teria ajudado a ser livrar da heroína e a retomar sua música com mais entusiasmo até sua morte em 1967.

Despertar – “Durante o ano de 1957, eu experimentei, pela graça de Deus, um despertar espiritual  que me guiou a uma rica, abundante e produtiva vida. Em gratidão, eu humildemente pedi que me fossem dados os meios e privilégios de fazer os outros felizes através da música”, disse em entrevista. E prosseguiu: “Eu gostaria de levar para as pessoas algo como a felicidade. Eu gostaria de descobrir um método que, se eu quisesse que chovesse, chovesse imediatamente. Se um de meus amigos estivesse doente, eu gostaria de tocar uma certa música e curá-lo.” Toda sua música, contudo, não foi suficiente para curá-lo do câncer que o matou.

Mesmo assim, depois de A Love Supreme, seu presente a Deus, fica um pouco mais fácil entender seu desejo de virar santo. Não para gozar os privilégios da santidade, mas para assumir seu ônus. Talvez esteja perto disso… ou até já tenha alcançado a graça.