Voyeurismo e nada mais
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Voyeurismo e nada mais

Sheila Leirner

22 Julho 2016 | 12h38

Visitei a exposição fotográfica “No ateliê”, em seu último dia, no Petit Palais. Mais de 400 fotos retratavam estúdios de artistas, desde Ingres, passando por Picasso, Matisse, Bourdelle, Zadkine, Brancusi, até Louise Bourgeois, Bacon, Soulages, Joan Mitchell, Miquel Barceló, Jeff Koons e muitos mais.

Porque deixei para o último dia? Porque esse tipo de manifestação me interessa tanto quanto as exposições “people” ou de moda. No fundo, eu sabia que fora do seu lado anedótico, superficial e vazio – das curiosidades e beleza de certos apanhados – as imagens de ateliês não acrescentam absolutamente nada, ou quase nada, aos processos dos criadores que já conhecemos, de uma forma ou de outra. Apesar de todo o trabalho que os curadores tiveram para juntar e expor este material, nada permitia ao público, como eles pretendiam, “ficar perto do processo de criação” dos artistas. Com efeito, saí da exposição da mesma forma como entrei…

“Minto…”

Minto. Saí com muitas saudades de um artista e um ateliê que visitei, e que estavam lá fotografados e documentados por um vídeo. O grande Paul Rebeyrolle, “l’enragé”. Fiquei pensando como tudo era grande naquele artista pantagruélico de 78 anos que faleceu há pouco mais de uma década. Grande a sua estatura plástica e moral na história da arte francesa. Grandes o talento, provocação, generosidade e o tamanho de seus quadros e esculturas. Grande a bela fundação  que leva o seu nome, e que também visitei, na região francesa que se chamava Aquitânia-Limusino-Poitou-Charentes (mas agora, com a nova nomenclatura, leva o nome de Nova-Aquitânia).

Até mesmo ele, era corpulento. Assistindo ao vídeo de seu ateliê, na exposição, senti como é grande também a sua ausência. E me prometi que um dia escreverei sobre Rebeyrolle, para os leitores deste blog. No entanto, até hoje este artista permaneceu quase marginalizado numa França que prefere se ajoelhar diante do primeiro falso valor que aparece…

“Pelo buraco da fechadura”

Mas, voltando à exposição fotográfica do Petit Palais, verdade que desde o princípio da fotografia, os ateliês fascinam os fotógrafos. Estes, não se cansaram de documentar interiores, fazer o retrato dos artistas em voga, se interessar pelo gesto criador tomando o ateliê como “metáfora do nascimento das imagens”, como se fosse possível haver um tropo para tal experiência. Depois do século 19, a fotografia não parou de entrar pelo buraco da fechadura para explorar os lugares onde as obras de arte são criadas.

Verdade também que jamais uma exposição tratou em tão grande escala, e de maneira tão espetacular, este olhar voyeurista. As 14 fotos que reproduzo abaixo oferecem uma amostra. Mesmo sem ser exaustiva, foi o extenso mostruário de uma fascinação que persiste até os nossos dias.

Até a próxima que agora é hoje e, se a curiosidade e indiscrição não persistissem, o que seria então das redes sociais?