Uma Marianne judia para a França
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Uma Marianne judia para a França

Sheila Leirner

18 de fevereiro de 2019 | 10h48

No último sábado, dia 16, em plena manifestação dos coletes amarelos em Paris, o ataque antissemita sofrido pelo filósofo Alain Finkielkraut, membro da Academia francesa de Letras, foi intolerável. Este ataque seguiu vários outros, entre os quais na semana passada a violação do retrato de Simone Veil, que foi marcado com a suástica nazista. Em consequência, os membros do partido Agir propuseram que o busto de Marianne, efígie da República francesa, tome o rosto de Veil – magistrada, cientista política, e política sobrevivente do Holocausto, que pertenceu à Academia francesa de Letras e exerceu vários cargos, entre eles o de ministra da saúde.

“Marianne”, a efígie da França com o rosto de Simone Veil.

Ao contrário do que se diz, e segundo especialistas, o antissemitismo não “aumentou” na Europa ou em outro continente. O que progrediu foi a “liberação da palavra”, os governos e ideologias de extrema-direita e extrema-esquerda, os nacionalismos, populismos, etc. É o que dá vazão a esta aversão abjeta aos judeus que sempre existiu em maior ou menor surdina, mas agora tornou-se a expressão aberta dos racistas.

Na França, embora nem todos os coletes amarelos estejam do lado do mal –  muitos nem sabem o que desejam e grande parte quer apenas viver dignamente do seu trabalho – o fenômeno trouxe manifestações de hostilidades racistas, xenofobia, homofobia, ódio e violência, provocando fraturas em várias camadas da sociedade. Em geral, por trás de todas as explicações sócio-políticas ou históricas, e além da instrumentalização dos partidos extremistas (os quebradores da ultradireita e ultraesquerda não têm nenhuma exigência além de semear o caos), o evento parece ser o resultado do agrupamento de pessoas ressentidas, azedas e infantis que culpam o próximo, jamais a si mesmos, pelo próprio fracasso. Nas declarações a que se assiste, o ódio que parece nascer de uma inveja desmedida contra aqueles que tiveram sucesso na vida, às vezes sobrepuja as vagas e difusas reinvindicações.

No último sábado, dia 16, em plena manifestação dos coletes amarelos, o ataque antissemita sofrido pelo filósofo Alain Finkielkraut, membro da Academia francesa de Letras, foi intolerável.

 

Este ataque seguiu vários outros, entre os quais a violação do retrato de Simone Veil no 13° bairro de Paris que foi marcado com a suástica nazista.

Os membros do partido Agir (ex-LR, pró Macron) acreditam que Simone Veil, ex-presidente do Parlamento Europeu, é “um rosto unificador e um significado simbólico rico de sentido para unir os franceses”. Dois dias após a indignação causada pela marca antissemita, propuseram o novo busto de Marianne, efígie da República francesa. “Propomos dar à Marianne os traços de Simone Veil que é a personificação da França e da República, seus valores, combates, desafios, suas raízes europeias”, escreveu a porta-voz do partido Fabienne Keller, em uma carta a Emmanuel Macron. Para esta senadora, “teria um verdadeiro significado dar à personificação nacional o rosto de uma de suas maiores e mais ilustres servidoras e defensoras.” Muitos, eu inclusive, ficariam especialmente felizes se a próxima figura simbólica do virtuoso tríptico “liberdade, igualdade, fraternidade” adotasse os traços de uma mulher que encarna o país com a sua honra, grandeza, coragem e dignidade, mesmo na adversidade.

Melhor não contrapor Veil à Damares

Simone Veil (1927-2017) foi uma magistrada, cientista política, e política sobrevivente do Holocausto, que pertenceu à Academia francesa de Letras e exerceu vários cargos, entre eles o de ministra da saúde na França. Hoje ela se encontra no Panteão, ao lado dos grandes personagens que marcaram a História deste país, como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Victor Hugo, entre outros. Veil foi encarregada de apresentar ao Parlamento um projeto de lei que despenalizava o aborto. Este combate, apoiado pela parte esclarecida da sociedade francesa (artistas, cientistas, professores, filósofos e intelectuais) lhe valeu ameaças da extrema direita, direita e extrema esquerda.

Num discurso que ficou famoso, ela afirmou que o aborto deve continuar como uma “exceção”, o “último recurso para situações sem saída”. O texto foi finalmente aceito na Assembleia nacional em 1974 e a lei adotada pelo Senado, duas semanas mais tarde, entrando em vigor em 1975. Simone Veil se opunha à “banalização do aborto”, prática que, segundo ela, “permaneceria sempre um drama” mas precisou que “se a sua lei não o proibia, ela não criava nenhum direito a ele.” A despenalização do aborto foi um avanço civilizador, uma grande vitória e um passo decisivo em favor das mulheres, de seus direitos e sua proteção, no primeiro mundo.

A vida de Simone Veil, como disse a senadora Fabienne Keller, é um “apelo à recusa de todos os compromissos com os extremistas, os populistas, os mercadores de infelicidade.” Seria pertinente neste momento, talvez, contrapor esta vida e este combate ao percurso e à luta da pastora evangélica da Igreja do Evangelho Quadrangular e atualmente pastora da Igreja Batista da Lagoinha que trabalhou em Turismo, foi formada por uma faculdade de São Carlos e nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro para chefiar o, assim chamado, “ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos”. Entre outros atrasos de vida apoiados evidentemente pela maioria inculta dos brasileiros, Damares Alves (1964) é “contra o aborto” e disse em 2016: “É hora de a igreja governar”.

Mas ficamos por aqui. Melhor não contrapor, Simone Veil não merece. Deixemos que repouse em paz no Panteão. Até a próxima que agora é hoje, e não haveria melhor resposta ao obscurantismo e sobretudo ao antissemitismo do que uma Marianne judia, civilizada e civilizadora como esta!


Movimento dos coletes amarelos completa três meses na França – Vídeo AFP